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Bibliographie indicative sur les lieux de justice et de peine

A utilização da língua de sinais como primeira língua encontra fundamentação nos estudos estabelecidos por Vygotsky (1993). Neles, percebi a importância do cotidiano, da cultura e da influência do outro no desenvolvimento do indivíduo, pois este é influenciado pelo outro desde que vem ao mundo.

Bakhtin (1997, p. 15), no decorrer de sua obra, descreve a importância dos signos para a constituição da consciência do ser. Para ele o homem sem os signos não se constituiria como tal. Pois, “[...] todo signo é ideológico [...]” e este só pode tornar-se possível através das interações sociais, pois o sentido da língua jamais se formará sozinho, a língua somente se constituirá como situação concreta, dentro de um contexto social, culminando nas reações que influenciam o comportamento.

Essa influência pode ser entendida como as reações que formam o comportamento tanto do homem quanto do animal. Vygotsky (2010, p. 15) diz que

As reações são elementos fundamentais do comportamento do homem e do animal quer nas formas mais simples, quer nas mais complexas [...] Se atentarmos para o comportamento do homem, é fácil perceber que todos os movimentos e atitudes costumam surgir em reação a algum impulso ou estímulo que denominamos causa desse ou daquele ato.

A reação para o Autor bielo-russo é dividida em três momentos e, para este estudo, é salutar identificá-los. Os três momentos a que Vygotsky (2010) se

25São modelos que auxiliam na formação da sua identidade.

Segundo Perlin (2010 p. 54) “[...] O encontro surdo-surdo é essencial para a construção da identidade surda, é como um abrir o baú que guarda os adornos que faltam aos personagens”.

refere são o sensorial, no qual existe a percepção dos estímulos enviados pelo meio exterior; o central, no qual existe a elaboração desse estímulo que passa por processos internos no organismo ensejando a ação; e, por último, tem-se a ação responsiva do organismo, que é o movimento motor.

E esse conjunto de momentos nada mais é do que o comportamento e é ativado pelo meio em que o homem vive. As experiências são a base de sua formação e crescimento dentro de uma determinada sociedade. Nesta ocasião é que a educação se constitui como fator fundamental na formação humana, por ser uma elaboraçãosocial e, ao mesmo tempo, individual, já que o aluno se forma mediante as experiências individuais dentro das vivências sociais, considerando-se que “[...]o meio social é a verdadeira alavanca do processo educacional [...]”.(VYGOTSKY, 2010, p. 65).

Deste modo Vygotsky (2010, p. 67) chega à fórmula do processo educacionalem que “[...] A educação se faz através da própria experiência do aluno, a qual é inteiramente determinada pelo meio, e nesse processo o papel do mestre consiste em organizar e regular o meio”. E nessa regulação é que se encontra o que se pode chamar de mediaçãoentre o signo e o seu instrumento.

O aprendizado, porém, não começa apenas na escola, pois, desde os primeiros dias de vida, a criança já está inserida nesse processo. A interação, ressalta Vygotsky (1993), é fundamental para o desenvolvimento humano na medida em que “[...] às interações entre a criança e as pessoas no seu ambiente desenvolvem a fala interior e o pensamento reflexivo, essas interações propiciam o desenvolvimento do comportamento voluntário da criança [...]”. (VYGOTSKY, 1994, p. 117).

Portanto, a criança forma seus conceitos mediante as interações estabelecidas em seu meio. A teoria de Vygotsky se estabelece na explicitação da especificação do meio social no desenvolvimento do pensamento. Para o autor,

A natureza do próprio desenvolvimento se transforma do biológico para o sócio-histórico. O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inato, mas é determinado por um processo histórico cultural e tem propriedades específicas. (VYGOTSKY, 1989, p. 44).

E essa transformação ocorre pelo do uso de uma língua comum a váriaspessoas e da interação propiciada por essa língua, possibilitando o

desenvolvimento, a formação dos conceitos e o aprendizado. Para Vygotsky (1994, p. 117-118).

[…] o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros… aprendizado não é desenvolvimento; entretanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas.

Vygotsky (1989) ensina que o pensamento não é simplesmente expresso por palavras, mas é por meio delas que ele passa a existir. Esta afirmação é de grande relevância para o estudo do desenvolvimento da criança, elevando a importância dasrelações sociais e linguísticas para a constituição da identidade da pessoa.

Seguindo a mesma linha de pensamento, cito Fernandes e Correa (2005, p. 18), ao acentuar que “[...] através da aquisição de um sistema simbólico, como é o da língua, o ser humano descobre novas formas de pensamento, transformando sua concepção de mundo [...]”. Torna-se imprescindível, pois, que a pessoa com surdez tenha, o mais rápido possível,contato com a língua de sinais, pois, somente assim, esse indivíduo não terá seu desenvolvimento cognitivo comprometido.

Deste modo, a língua aufere um status de transformadora, organizadora e planejadora do pensamento. É somente por seu intermédio que a criança passa a dar significado ao seu mundo. Portanto, “[...] o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança [...]” (VYGOTSKY, 1993, p. 44).

Assim, vê-se o quanto é prejudicial para uma criança surdaa falta de contato com outros surdos. Esse contato propicia o desenvolvimento de sua língua natural, a língua de sinais. Destarte, para que o surdo possa ter as mesmas oportunidades de aprendizado de uma criança ouvinte, deve ter seu direito linguístico respeitado, deve ter acesso à língua de sinais o mais cedo possível, para que o curso do seu desenvolvimento se dê de forma normal e natural, possibilitando a conversão da atividade prática com a abstrata, já que

[...] o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem (VYGOTSKY, 1994, p. 33).

A língua, para Vygotsky, é primordial para o desenvolvimento humano, e sem ela, os seres humanos, não passariam de entes desprovidos de qualquer traço de civilização. A linguagem propicia ao homem o caminho para a aprendizagem e, consequentemente, para o desenvolvimento. Daí se poder concluir que a falta de uma língua comum pode comprometer o desenvolvimento cognitivo.

Destarte, a língua é algo natural ao homem, porquanto ela se manifesta através dele para dar sentido aos seus atos. Sendo ela ideológica por natureza, a palavra e o sinal são carregados de sentido, de relações constituídas na sociedade. Portanto, para Bakhtin (1997, p. 36)

[...] A palavra é um fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social. (1997, p. 36).

A palavra é carregada de sentido, de significado, sendo por meio dela que se elabora e esboçaa consciência, pois “[...] A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 37). Por ela se dá sentido ao mundo exterior. Faz-se necessário, porém, para que isso ocorra, que locutor e receptor participem da mesma comunidade linguística, já que o sentido real da língua é o de significação. Posso assegurar, então, que o homem se constitui porintermédio de sua língua. E mais,

[...] A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN, 1997, p. 123).

Ora, se a fala ou o sinal se estabelecem nas interações sociais, veja-se, portanto, que a criança surda inserida em uma escola regular ficará prejudicada na formação de seus conceitos, pois “[...] Se a língua é determinada pela ideologia, a consciência, portanto o pensamento, a “atividade mental”, que são condicionados

pela linguagem, são modelados pela ideologia [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 16). Impedindo, assim, ela forme sua identidade.

Acredito, portanto, que tanto as ideais de Vygotsky quanto as de Bakhtin justificam a inserção da língua de sinais o mais cedo possível na vida de uma criança surda, evitando um prejuízo cognitivo a esta criança e propiciando as mesmas condições de interação e aprendizado que uma criança ouvinte teria.

Assim, expresso no tópico seguinte as discussões sobre a língua de sinais e sua importância para o desenvolvimento da pessoa surda.