Com base no breve panorama dos caminhos letrados do intertexto arturiano no Ocidente medieval, efetuado no capítulo anterior, passa-se agora ao desenho da trajetória do Ciclo Arturiano em meio às expressões escritas da cultura alemã centromedieval (em
Mittelhochdeutsch). O propósito de mais uma arqueologia textual não é apenas assinalar a
evolução e o percurso dos mitemas arturianos em sua recepção e ressignificação no Sacro Império Romano-Germânico. Interessa-nos, sobretudo, enfatizar como a tradição arturiana alemã diferenciou-se da matriz francesa e cunhou uma Matéria Arturiana Alemã com características muito específicas, moldadas pelas tensões de força e pela dinâmica cultural próprias à sociedade alemã da Idade Média Central. Pensa-se, neste estudo, que a Gral-Queste alemã, longe de representar meramente uma tradução (Übersetzung) da versão francesa do
Ciclo do Lancelot-Graal, é portadora de um índice claro de germanização (Verdeutschung)
dos mitemas arturianos. Este processo histórico, que se deu no plano da cultura intermediária alemã, aponta para uma sobredeterminação (Überdetermination) da prosa romanesca arturiana por parte das disputas políticas e das injunções culturais e ideológicas do Sacro Império Romano-Germânico durante o período centromedieval.
Além do evidente intuito de tornar preciso o estema de A Demanda do Santo Graal alemã, há outra ordem de interesse em se analisar a senda da Matéria da Bretanha no Império Alemão medieval. Como atestam W. H. Jackson e Silvia Ranawake, em sua introdução à coletânea de ensaios The Arthur of the Germans, o estudo da “cultura arturiana alemã” desperta interesse não apenas por desvelar aspectos da sociedade alemã medieval, mas por
219
A frase do título deste capítulo, em Médio Alto Alemão (Mittelhochdeutsch), está contida na versão alemã de
Lanzelot von dem Lache, equivalente, no Prosa-Lancelot alemão, ao Lancelot du Lac do Ciclo da Vulgata. Seu
significado é “eu quero vos dizer como isto foi”, correspondendo à forma de elocução do foco narrativo anônimo do conto, para dirigir-se a seu auditório.
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permitir acessar a tradição eslava, notadamente a checa, e também a holandesa, no que se refere aos mitos arturianos. Os romans alemães220 constituíram o vetor de transmissão das narrativas arturianas para o mundo eslavo, bem como a base para as adaptações e compilações aí efetuadas. No que se refere ao caso holandês, os escritos alemães permitem reconstituir a trajetória dos motivos arturianos no centro e norte da Europa, por serem os escritos alemães, em grande parte, baseados nos textos holandeses.
A introdução de manucristos da Matéria da Bretanha ao universo cultural alemão se teria iniciado com os trabalhos associados a Hartmann von Aue, que se ocupou em adaptar
Erec et Enide e Ywain (Le chevalier au lion, c. 1180-1220 d.C.), de Chrétien de Troyes, para
o Mittelhochdeutsch. Convém atentar desde já para o fato de que as compilações de Hartmann von Aue também se deram, aproximadamente, entre 1180 e 1220 d.C., o que revela, mesmo à primeira leitura, o trânsito praticamente imediato, ao menos muito próximo no tempo, dos motivos arturianos pelos dois lados do Rio Reno, atestando um processo de circulação de motivos míticos arturianos inconteste e sem paralelo na cultura medieval221.
Os escritos de Hartmann von Aue consagraram-se como modelo ou moldura tópica para as demais narrativas romanescas que se desenvolveriam, até ultrapassando a temática arturiana, no Sacro Império Romano-Germânico. A influência de tais compilações apresentou ainda maior profundidade se considerarmos que as virtudes cavaleirescas veiculadas pelos
Romans de Hartmann logo se tornariam o padrão de comportamento estilizado que se exigia
da cavalaria alemã. Ao mesmo tempo, as aventuras cavaleirescas versificadas em alemão por
220
No alemão contemporâneo, os substantivos são todos grafados com letras maiúsculas, mas neste trabalho mantivemos, quando pertinente, a grafia com minúsculas, tal como aparece nos textos em Mittelhochdeutsch.
221
Observe-se que este período de introdução da Matéria da Bretanha no Sacro Império Romano-Germânico correspondeu ao que muitos historiadores da literatura convencionaram designar por Primeiro Florescimento da
Literatura Alemã, sendo o Segundo Florescimento relativo ao surgimento do Classicismo e do Romantismo
Alemão, na transição entre os séculos XVIII e XIX. Cf. THEODOR, Erwin. “A Alemanha no Mundo Medieval”. In: MONGELLI, Lênia Márcia. Mudanças e Rumos. O Ocidente Medieval (séculos XI-XIII). Cotia: Íbis, 1997., p. 133.
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esse Epiker222 afirmaram-se como verdadeiro espelho e ideal de estilização de futuras narrativas a serem declamadas nas cortes principescas e senhoriais alemãs223.
Hartmann von Aue era um ator social pertencente ao estrato da cultura intermediária, ostentando o status social de cavaleiro, mas letrado e versado em saberes clericais (cultura de alto repertório). Em sua epopeia em verso Der arme Heinrich (O pobre Henrique, c. 1190 d.C.), descreve a si mesmo como um cavaleiro instruído, “capaz de ler qualquer coisa que tenha sido escrita”. Com efeito, seus escritos sugerem familiaridade com a Retórica clássica e os cânones pedagógicos ensinados nas escolas dominicais do século XII, bem como com a Teologia Escolástica e a Filosofia. Ademais, Hartmann qualifica a si próprio como dienstman ou ministerialis, ofertando seus préstimos de cortesão letrado em uma corte senhorial alamana em Aue.
O Epiker de Aue revelou-se um compilador muito versátil e inovador, atualizando no Sacro Império Romano-Germânico a tendência de os escribas centro-medievais desviarem-se dos cânones estilíticos e, por vezes, até da tópica das auctoritates da Antiguidade Clássica. Além dos romans arturianos de Chrétien de Troyes que adaptou para a cultura letrada alemã,
Iwein e Erec, Hartmann também figura como escritor de uma hagiografia em latim, Gregorius, baseada em outra Vita, francesa, denominada La vie du Pape Grégoire, versando
sobre o Papa Gregório Magno (590-604 d.C.)224. Sua epopeia em verso sobre o ministerialis Heinrich, cavaleiro mundano acometido por lepra – enfermidade associada ao anátema ou punição de Deus desde a tradição veterotestamentária – e curado pela Graça de Deus ao se converter a seu serviço, pode ser também considerada um auto de milagre para declamação
222
Paul Zumthor esclarece que os medievalistas alemães empregam o termo Epos também para referências às canções de gesta e aos romans centro-medievais. Daí a possibilidade de qualificar, em alemão, compiladores como Hartmann von Aue ou mesmo Wolfram von Eschenbach como Epiker.
223
Cf. RANAWAKE, Silvia. “The Emergence of German Arthurian Romance: Hartmann von Aue and Ulrich von Zatzikhoven”. In: JACKSON, W.H. RANAWAKE, Silvia (org). The Arthur of the Germans. The Arthurian Legend in Medieval German and Dutch Literature. Cardiff, University of Wales Press, 2000., p. 38.
224
Talvez seja pertinente atentar para o fato de que, ao adaptar e recriar um escrito vernáculo em latim, Hartmann von Aue denota que, efetivamente, a interação entre os níveis de cultura nas formações sociais centro- medievais não se restringia a uma direção única. Apesar de os atores sociais intermediários terem, em maior proporção, traduzido obras em latim para os vernáculos de então, a circularidade podia mesmo ser processada na direção oposta.
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em ambiente cortesão225. Por fim, são-lhe atribuídas cantigas de amor trovadorescas e exortações poemáticas às Cruzadas. Não há uma datação precisa para as cantigas de amor, mas se cogita a possibilidade de seus versos de chamado à peregrinação armada à Terra Santa possam ser contemporâneos à Terceira Cruzada (1189-1192)226.
Seus trabalhos, datados por Silvia Ranawake com base na métrica poética e no estilo, parecem corresponder à seguinte ordem de aparecimento: Erec e a elegia em verso Die Klage (O Lamento), em c. 1180, depois a hagiografia Gregorius, seguida por Der arme Heinrich e, por fim, Iwein227.
Outro livro a ser sucintamente analisado no presente capítulo, Diu Crône, de Heinrich von dem Türlin, refere-se a Hartmann von Aue como cortesão procedente da região sudoeste do Império Alemão (ratificando sua provável origem alamana), não tendo vivido, presumivelmente, para além de c. 1220. Da mesma forma, o Epiker alemão da Alsácia, Gottfried von Straβburg, menciona que Hartmann ainda estaria vivo em c. 1210, quando o primeiro produziu a versão alemã de Tristan. Tal relato pode sugerir uma explicação plausível para seu íntimo contato com os escritos arturianos franceses e a circulação dos mesmos na cultura letrada alemã centromedieval. Também Wolfram von Eschenbach, citando textualmente Iwein, indica que o texto já era conhecido em princípios do século XIII.
Hartmann não menciona expressamente seu mecenas, mas Silvia Ranawake supõe que o Epiker alemão possa ter exercido a função de dienstman ou dienstherr (ministerialis) na corte do Duque de Zähringer, tendo acompanhado o período de suserania de Berthold IV e seu filho, Berthold V. Esses aristocratas mantinham laços estreitos com os prováveis mecenas de Chétien de Troyes, principalmente Philipp von Elsass, o conde de Flandres, e a condessa Marie de Champagne. Pode-se pensar em um período de permanência de Hartmann von Aue também na corte bávaro-suábia dos Welfen, onde se localizou um códice de seu Iwein228.
225
Para uma excelente análise dos narremas mais importantes em Der arme Heinrich, cf. BRAGANÇA JR, Álvaro Alfredo. “Rîter, Frouwe e Got em Der Arme Heinrich de Hartmann von Aue. Idealização Literária da Sociedade na Baixa Idade Média Germanófona”. In: Brathair, Vol. 01, 02, 2001, p.p. 04-10. Álvaro Bragança também elaborou a tradução, para o português, desse Roman alemão.
226 Idem, p. 39. 227 Idem ibidem. 228 Idem ibidem.
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Em momento ulterior, surge um Roman alemão original que não poderia estar ausente desta arqueologia do estema das narrativas arturianas alemãs e, sobretudo, de A Demanda do
Santo Graal de Heidelberg. Trata-se de uma composição em versos do poeta alemão Ulrich
von Zatzikhoven, Lanzelet (c. 1194-1205), que narra as aventuras do cavaleiro Lancelot desde que o mesmo foi raptado por uma fada marítima (merfeine), a Rainha da Ilha das Donzelas, até seu falecimento em idade avançada. Esta epopeia, composta em mais de 9400 versos, com rimas paralelas, foi preservado inteiro em dois manuscritos: o códice 2698 de Viena (W), datado do segundo quarto do século XIV e o códice CPG 371 (P), na Bibliotheca Palatina
Germaniae de Heidelberg, de 1420.
No manuscrito de Viena, o compilador nomeia-se como von zatzichoven Volrich, constanto zezichoven no códice de Heidelberg. Pairam dúvidas sobre uma possivel identidade entre o compilador e um padre de Lommis, localidade próxima a Zezikon, no cantão alemão de Thurgau, na futura Confederação Helvética. O mesmo foi mencionado, em um documento preservado no Mosteiro de Sankt Gallen, como capellanus Volricus de Cecinchovin plebanus
Loumeissae229. Este povoado de Cecinchovin também já foi associado a Zizingen, próxima a Neuenburg, na Renânia. Há indícios linguísticos e de estilo que apontam para a proveniência realmente renana, ou alamana, para o compilador.
Para justificar seu trabalho, Ulrich invoca a auctoritas de um livro “francês” (mas, provavelmente, anglo-normando e produzido para Henrique II da Inglaterra), Livre de
Lanzelet, em relação ao qual afirma ter realizado uma fiel tradução. O escrito originário, ainda
de acordo com o manuscrito W de Viena, teria sido trazido ao Sacro Império Romano- Germânico por seu proprietário, o cortesão anglo-normando Hugh de Morville. Este último teria sido um dos reféns apresentados ao Imperador alemão Henrique VI como penhor para a libertação do rei inglês, seu prisioneiro, Ricardo Coração-de-Leão, no ano de 1194230. A obra composta por Ulrich difere muito daquela elaborada por Chrétien de Troyes, Le chevalier de
229
Idem, p.p. 45 e 46.
230
Silvia Ranawake lista duas figuras históricas que se poderiam associar a Hugh de Morville. A primeira seria o arquediácono Hugh, que se tornou bispo de Coutances em 1207. O segundo, referência muito mais provável, seria um cortesão de Henrique II Plantageneta, de nome exatamente Hugh of Morville, testemunha de diversos decretos régios até o ano de 1170, período no qual também é nomeado como um dos executores do Arcebispo da Cantuária, Thomas Beckett. Esse membro da corte angevina teria residido em seu senhorio, na região de Cumberland, de 1194 até o ano de sua morte, 1202. Idem, p. 46.
116 la charrette, mas exerceria profunda influência no Lancelot du Lac francês, a maior e mais
importante narrativa do Ciclo da Vulgata. Mas a circulação cultural, através do Reno, entre as versões francesas e alemãs acerca de Lancelot ainda pode ter mais um corpus intermediário, um possível escrito renano, como denotado pelos traços linguísticos próprios ao alemão da Renânia (Rheinländisch) no texto de Ulrich von Zatzikhoven.
Os relatos bretãos mais arcaicos, normalmente lais, já apresentavam Lancelot como um dos convivas da Távola Redonda, mas não relatavam suas próprias aventuras, o que se dá, de modo inaugural, em Le chevalier de la charrette (1179), de Chrétien de Troyes. Da mesma forma, a Dama do Lago, responsável pela salvação do herói quando Claudas assassina seu pai, o Rei Ban, e a mãe, Elaine de Corbenic, e assenhora-se de seus domínios (como narrado em
Agravain, c. 1230-1240, um conto francês acerca de Lancelot), aparece, pela primeira vez,
nesse roman de Chrétien de Troyes. Aqui o cavaleiro já é apresentado como amante adulterino da rainha Guinevere.
Na narrativa de Ulrich, no entanto, Lancelot (Lanzelet) figura como herdeiro do trono de Genewis, ascendendo, com efeito, à condição régia ao final do conto e estabelecendo uma linhagem sucessória. Assim que assegura sua condição régia, justamente com o intuito de também assegurar a suserania de seus 4 filhos, o cavaleiro-rei outorga a cada qual um domínio. De modo também distinto de Chrétien de Troyes, Lanzelet apresenta uma descrição minuciosa da vida do cavaleiro, iniciando pela educação cortesã e cavaleiresca que recebeu da Rainha da Ilha das Donzelas.
O enredo subverte completamente a lógica do Agravain francês, pois em Lanzelet o pai de Lancelot não é vítima de felonia e usurpação de seus domínios, mas agente doloso de outro ilícito feudovassálico. Seu pai ostenta comportamento tirânico e ofende seus barones ao descumprir sus obrigações contratuais como suserano, razão pela qual será destronado e assassinado. Será apenas após a derrota de Iweret, o pai de sua futura consorte Iblis, que Lancelot adquire informações sobre sua linhagem e sua filiação ao Rei Pant de Genewis e a uma irmã do Rei Artur, Clarine.
Ao final da narrativa de Ulrich von Zatzikhoven, Lancelot recobra o respeito e a lealdade dos vassalos, por meio de sua capacidade de agir com generosidade (milte), louvada como virtude principesca, ao mesmo tempo em que conserva intacta sua autoridade senhorial.
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Portanto, como observa Ranawake, o primeiro e o derradeiro episódios de Lanzelet apresentam uma perspectiva régia das relações de poder no interior do ordo nobiliárquico. Lancelot, na verdade, parte em demanda de sua identidade original de rei feudal, buscando uma esposa que o possa fazer ascender ao trono, a exemplo dos cavaleiros andantes, secundogênitos, não herdeiros, dos senhores feudais e que pervagam à procura de dotes e bons casamentos.
Apesar de figurar também em Lanzelet, Guinevere é referida, nesse texto, como uma das esposas, dentre as seis em relação às quais o cavaleiro mostra legitimo direito ao casamento, e que o herói entrega a Artur. Tal direito origina-se sempre que Lancelot triunfa nos embates com os pais ou tios dessas mulheres. No caso específico de Guinevere, o cavaleiro acede à prerrogativa de desposá-la quando derrota o Rei Valerin, que a reivindicava na condição de sua noiva de outrora. Assim, não se apresenta o clássico triângulo amoroso entre Artur, Guinevere e Lancelot, ao passo que se conservaram elementos, ainda que existentes apenas em potência e nunca atualizados, da poligamia, recorrente entre celtas e alanos, cujos espólios culturais contribuíram para a gesta da Matéria da Bretanha.
Silvia Ranawake percebeu um paralelismo entre as fases da vida de Lancelot e a idealização, por parte da nobreza feudal, acerca da educação aristocrática de seus filhos. Assim como Lancelot passa sua infância no exílio em relação ao reino de Genewis, os
infantes são educados entre as mulheres, sem convívio com a sociedade cavaleiresca, uma
forma de parentesco espiritual masculino. Note-se, por exemplo, que a Rainha da Ilha das Donzelas proporciona a Lancelot educação física, social e moral, porém não militar. Atingindo a idade da razão, Lancelot parte em busca de sua identidade régia e torna-se cavaleiro.
Paralelamente, quando o infans (“sem fala”) se faz puer (“menino”), passa a conviver com os homens de sua linhagem e seus vassalos. Isso se dá aos 7 anos, sendo conveniente recordar a lição de Jean-Claude Schmitt de que essa é a idade em que se pensava que as crianças se tornariam seres racionais. Tempo a que o historiador alsaciano alude como âge de
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orações essenciais à pratica devocional preconizada pela aristocracia espiritual: o Pai Nosso, o
Credo e a Ave Maria231.
Por fim, Ranawake reconhece em duas aventuras bem-sucedidas do cavaleiro uma forma de metaforizar a passagem definitiva para o mundo adulto, quando o puer é tornado
armiger (“escudeiro”), requisito para ingressar no mundo cavaleiresco, em que poderá, no
futuro, ser armado e sagrado cavaleiro. Trata-se, em Lanzelet, dos episódios em que Lancelot lidera um exército para libertar seus primos, Erec e Walewein e, adentrando-se, na narrativa, o maravilhoso cavaleiresco, Lancelot desfaz o encantamento que transformou uma princesa em dragão, aceitando beijar a besta. A passagem para a idade da gravitas será sacramentada com a admissão, de pleno direito, do cavaleiro à Távola Redonda e ao convívio de Artur232.
O que, efetivamente, interessa destacar nesse Lanzelet de Ulrich von Zatzikhoven é seu caráter de autorrepresentação estilizada do ordo nobiliárquico, principalmente do estrato cavaleiresco, veículo privilegiado de uma retórica de reprodução ampliada e intensificação do
ethos cavaleiresco laico. Não por outra razão, Lanzelet não é apenas mais um registro da
aristocracia laica, mas, nas palavras de Ranawake, uma verdadeira “epítome da sociedade cavaleiresca”233.
No entanto, o que mais nos interessa é perceber o esforço de desnegativização do cavaleiro Lancelot, revertendo o processo contrário, acentuado nos ciclos de prosificação da Matéria da Bretanha em terras francesas. Além de não mais ser o condestável que comete felonia e, de forma simbólica, até um adultério incestuoso, se pensarmos que a Rainha é uma mãe simbólica para seus súditos, Lancelot restaura a justiça em seu reino hereditário de Genewis. Não parece desprovido de sentido e pertinência aqui entender Genewis como uma reapropriação mito-poética, ao nível da cultura intermediária de expressão vernácula, do nome grego do Bereshit bíblico, vale afirmar, Genesis. Se tal ilação não for despropositada, há, na aventura de Lanzelet, uma metaforização da História da Salvação, mas moldada e mobilizada em função do ethos nobiliárquico e sua projeção cavaleiresca.
231
Cf. SCHMITT, Jean-Claude. Le corps, les rites, les rêves, le temps. Essais d‟anthropologie médiévale. Paris: Éditions Gallimards, 2001., p. 108.
232
Cf. RANAWAKE, Silvia. Op. Cit., p. 47.
233
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Pode-se pensar que, exilado de Genewis em decorrência da rescisão desonrosa do contrato feudovassálico por parte de seu pai, Rei Pant, Lancelot aqui é metonímia de toda a humanidade, exilada do Paraíso terrestre pela Queda dos Pais Primordiais. Ao restaurar sua suserania hereditária em Genewis, fazendo-se reconhecer rei pelos barones locais (portanto repropondo e reforçando o pactum subjectionis do direito feudal consuetudinário), Lancelot reatualiza a condição e a disposição originárias nas relações internas à camada (assim autorrepresentada) dos bellatores. Desta forma, para o que concerne à aristocracia laica, Lancelot é o novo Rei Pant, como Cristo não é outro senão o Novo Adão – melhor ainda, o Último Adão, aquele espírito vivificador (I Co 15, 45) – que restaura a ordenação cosmogônica originária nos quadros da mitologia cristã.
Mas o Roman alemão especialmente devotado ao Santo Graal nasce sob a pluma do
Epiker bávaro Wolfram von Eschenbach (c. 1170–1220 d.C.), que redigiu um prelúdio
(Vorgeschichte) e completou o enredo de Perceval ou Le conte dou Graal, de Chrétien de Troyes, que o compilador bretão havia legado incompleto à posteridade. Produziu-se assim, aproximadamente entre 1210 e 1220 d.C., o Parzival alemão. A única menção expressa a um possível mecenas, em cuja corte Wolfram von Eschenbach possa ter atuado, é o Landgraf (“conde da terra”) Hermann von Thürigen (1190-1217 d.C.). Tal citação encontra-se em uma compilação menos conhecida de Wolfram, Willehalm (Livro VII), adaptação alemã inacabada de uma canção de gesta veterofrancesa, Aliscans, por ocasião do cerco a Erfurt, na Turíngia