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Biais de notre étude

Dans le document Pierre LANG (Page 39-51)

Vimos, no Capítulo Um, como a noção de dissociação se relacionou com a destruição do conceito de unidade do Eu (Ribot, 1990; Taine, 1892b), depois das descrições de casos de sonambulismo ou hipnose (e.g., Braid, 1843; Charcot, 1893), de êxtase (e.g., Boismont, 1845; Maudsley, 1867/1883), de dupla personalidade (e.g., Azam, 1893; Krishaber, 1873), de sugestionabilidade (e.g., Babinski, 1917/1918; Dubois, 1904/1909) e até de consumo de haxixe (Moreau de Tours, 1845). Os trabalhos sobre a cerebração inconsciente, actos automáticos e acção reflexa dominaram na filosofia e na medicina, criando o terreno para o desenvolvimento da ideia de dissociação. Provavelmente, a primeira descrição de um estado dissociativo (sonambulismo) apareceu no pequeno livro de T. D. M. Tardy de Montravel, o Essai sur la Théorie du Somnambulisme Magnétique, que nos descreve como algumas pessoas devido aos vapores ou humores que atingiam o cérebro “sont tomber dans un état quelconque ressemblant beaucoup au sommeil” (1785, p. 7).

Já a designação dissociação foi escrita, aparentemente pela primeira vez, por Benjamin Rush em 1812, para nomear uma loucura intelectual que consistia numa “association of unrelated perceptions, or ideas, from the inability of the mind to perform the operations of judgement and reason”5 (1812, p. 259). Moreau de Tours usou o termo para se referir ao isolamento de ideias associado a factores psicológicos e ao uso de haxixe (1845, 1866, 1869). Charles Richet (1867) verificou a dissociação da personalidade e da percepção nos estados de sonambulismo. Gilles de la Tourette (1887) empregou o mesmo termo para designar a eliminação de sensações nos histéricos. Em 1890 William James (1890a, 1890b) introduziu o conceito no mundo anglo-saxónico. Frederic Myers (1903/1905) notou que os histéricos sofriam de ideias e emoções isoladas por um processo de desagregação. O filósofo Théodule Ribot (1906) considerava a dissociação como a operação negativa da imaginação que fraccionava a consciência, ao contrário da associação que seria a operação constitutiva. Morton Prince (1906/1920) falou dos estados de personalidade múltipla como estados dissociados.

Através da revisão histórica que fizemos no Capítulo Um, podemos concluir que Janet foi o principal responsável pelo conceito de dissociação. O autor (1889/1898, 1892/1901) considerou a actividade da consciência como uma actividade de síntese que associava o fluxo de sensações, percepções, ideias, memórias, etc. E colocou a hipótese de que, fruto de acontecimentos traumáticos e relacionado com uma vulnerabilidade

5 “Associação de percepções ou ideias não relacionadas, derivadas da incapacidade de a mente executar as

neurofisiológica constitucional, um complexo de ideias ficasse fora da consciência normal, ou seja, ficasse dissociado. O autor definiu a dissociação como o processo de remoção da consciência de eventos mentais em condições de trauma e que ficariam inacessíveis à recordação voluntária.

Janet percebeu que as percepções dos histéricos não estavam integradas na consciência normal e na personalidade, mas também notou que elas não desapareciam e que podiam autonomizar-se e influenciar a pessoa de forma subconsciente. Janet designou estes estados separados da consciência por automatismos psicológicos. Pela retracção do campo da consciência, continuou Janet, várias sensações seriam suprimidas da percepção, tornando-se subconscientes. Daqui resultavam os acidentes histéricos —alterações sensoriais e motoras. Com estas explicações, Janet descreveu dois tipos de dissociação: a desagregação psicológica e a retracção da consciência que corresponderão, mais tarde, à dissociação psicoforme e somatoforme. Com Janet, a dissociação foi um fenómeno de insuficiência das associações, uma fraqueza das funções mentais (Erderlyi, 1994).

Já com Breuer e Freud, a dissociação foi um mecanismo de defesa activo. Os dois autores (1893/1937) explicaram que as ideias podiam ser separadas activamente, devido a recordações traumáticas, inaceitáveis à consciência. Breuer usava a noção de estado hipnóide; este era constituído por ideias dissociadas. A sua concepção supunha uma condição alterada do sistema nervoso central, o que o aproxima das teorias de Janet (Breuer, 1893/1937b).

Para Freud, como já vimos, a dissociação correspondia à ruptura de associações entre uma função corporal e o psiquismo (“dissoziation” em alemão, 1893/2001) e à separação dessa função do psiquismo (“Spaltung” ou “splitting” em inglês e “clivage” em francês, 1940 [1892]/2001)6. Freud, mais tarde, rejeitou o modelo hipnóide e de dissociação em favor do modelo psicodinâmico da repressão-conversão. Ao contrário da fraqueza postulada por Janet, Freud concebeu um ego com capacidade para reprimir eventos mentais inaceitáveis que se convertiam em sintomas somáticos (Freud, 1905/1963, 1910/1971). Depois do abandono da teoria da sedução, Freud propôs que as fantasias sexuais e os desejos condenáveis conduzissem à repressão dos desejos incestuosos e sua transformação em somatizações significativas.

Quer Janet, quer Breuer e Freud, perceberam a dissociação como um fenómeno descontínuo, presente em pessoas com problemas emocionais, mas ausente em

6 O conceito de dissociação como ruptura foi também usado para explicar os estados psicóticos. O sintoma

de divisão (“split” ou “Spaltung”) das funções psíquicas seria proeminente na esquizofrenia (Bleuler, 1911/1912). Aliás, na psiquiatria francesa o termo “dissociação” tornou-se sinónimo de “processo esquizofrénico” (Bottero, p. 44).

Quer Janet, quer Breuer e Freud, perceberam a dissociação como um fenómeno descontínuo, presente em pessoas com problemas emocionais, mas ausente em pessoas sem problemas.

A partir de Freud, o discurso psicanalítico constituiu-se como uma narrativa predominante, colocando na sombra as restantes contribuições, em particular a teoria da dissociação de Janet. Até ao final da Segunda Guerra Mundial, alguns autores ainda mantiveram o interesse no mecanismo da dissociação (Briggs, 1921; Fox, 1913; Fursac, 1908; Ley, 1935; McDougall, 1926; Mayer, 1920; Münsterberg, 1908/1912; Myers, 1903/1905; Prince, 1916; 1920; Rivers, 1920; Sidis & GoodHart, 1919; Somerville, 1917; White, 1921; Wholey, 1933).

Alguns destes autores entenderam a dissociação como um processo dimensional, num contínuo desde as experiências dissociativas normais (actuar e falar ou pensar ao mesmo tempo, sonhar acordado, estar sob hipnose, estar distraído, etc.) até aos casos mais graves (Briggs, 1921; Fox, 1913; Prince, 1916).

Wholey (1933), para além de julgar que a dissociação era típica dos casos de personalidade dupla, também a considerou como um mecanismo do sonambulismo nocturno.

Outros autores só a usaram no sentido da doença mental. Rivers (1920, p. 76), por exemplo, limitou o uso do termo a “cases where there is evidence of this independent consciousness”7.

Depois deste período, as referências tornam-se esparsas. Até que, nos anos setenta, o conceito de dissociação regressou através da convergência de dois trabalhos. O primeiro foi a publicação do Discovery of the Unconscious por Henri F. Ellenberger. Este autor renovou o prestígio de Janet, ao atribuir-lhe a primazia na psicologia do inconsciente (referido por Hacking, 1991; LeBlanc, 2001; van der Hart, Brown & van der Kolk, 1989; Van der Kolk & van der Hart, 1989).

A dissociação teve segundo impulso com a teoria neodissociacionista do psicólogo experimental de Stanford, Ernest Hilgard. O psicólogo (1992) deu este nome à teoria porque, em contraste com Janet, não acreditava que os aspectos dissociados pudessem funcionar sem interferir uns com os outros. Hilgard veio trazer respeito científico à pesquisa sobre as perturbações dissociativas encorajando a realização de estudos nesta área. No final do século XX, a investigação voltou a encontrar relação entre a dissociação, as perturbações conversivas e o trauma o que catapultou a dissociação para a ampla divulgação actual (Brown, Macmillan, Meares, & van der Hart, 1996).

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