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Segundo as OCN (BRASIL, 2006b), o objetivo do ensino de LE é retomar a reflexão sobre a sua função no contexto nacional, reafirmando a sua importância na constituição da cidadania frente aos valores e necessidades que surgiram com a globalização da sociedade contemporânea, sendo que o foco é sobre o ensino da leitura, mas abrindo a possibilidade da prática escrita e da comunicação oral, contextualizadas.

O conceito de cidadania defendido por essas orientações refere-se à necessidade atual que o cidadão tem de compreender a posição que ocupa na sociedade, bem como as motivações que o levam estar ali.

Neste sentido, o Currículo da SEE do Estado de São Paulo para o ensino de línguas lança mão desses princípios, propondo-se a dar conta dos avanços dos estudos da linguagem e também dos avanços tecnológicos que acabaram ampliando os “intercâmbios pessoais, comerciais e culturais”, diluindo, assim, os limites entre oralidade e escrita. (SÃO PAULO, 2012, p.108).

Na visão dos proponentes do Currículo, a Abordagem Comunicativa não conseguiu se instalar nas escolas de Ensino Fundamental e Médio e que, portanto, o ensino de LE continuou reduzido à ênfase das estruturas gramaticais, uma terceira orientação surge no contexto educacional. Essa terceira orientação tem como ênfase os chamados letramentos múltiplos, que descrevem o aluno como produtor da linguagem, capaz de compreender conscientemente as várias formas de produção e circulação da informação e do conhecimento.

Há uma alteração no que tange ao conceito de conteúdo da LE, pois na orientação que enfatiza o letramento o que se espera é a promoção do conhecimento e do reconhecimento que o aluno precisa ter de si mesmo e do outro. Para que isso aconteça, propõe-se um trabalho que leve o aluno a perceber as diferentes formas que existem de interpretar o mundo, as quais se concretizam em atividades de produção oral e escrita (SÃO PAULO, 2012, p.108).

O texto oral ou escrito passa, então, a ser tomado como manifestação concreta do discurso, ocupando lugar central na ação pedagógica e deixando de ser visto como material para tradução ou como pretexto para o estudo da gramática. Na ação pedagógica, promove-se, então, a articulação entre o texto, seu contexto de produção e seu contexto de recepção. O que se propõe, agora, com base nos PCN (BRASIL, 1998b), é o engajamento discursivo do aluno por meio de textos e práticas sociais autênticas, considerando que a autenticidade está relacionada a textos e práticas que circulam e são difundidas socialmente (SÃO PAULO, op.cit.).

Nesse processo de letramento, a função do professor é socializar os aprendizes dentro de uma visão de mundo, cujo poder precisa ser avaliado de maneira crítica. É necessário, portanto, analisar as crenças que embasam as práticas pedagógicas deste professor em sala de aula, já que para dar conta das mudanças é preciso que ele reflita sobre quais são suas “concepções de língua/linguagem/língua estrangeira, de ensinar e de aprender uma nova língua” (ALMEIDA FILHO, 1999), a fim de que, sua concepção

de linguagem, por exemplo, não se distancie dos contextos socioculturais e das comunidades de prática da linguagem (BRASIL, 2006b).

Uma explanação mais profunda dos pressupostos teóricos que embasam o Currículo aparece no Caderno do Professor de Inglês - Volume 1 – destinado à 8ª série/9° ano do Ensino Fundamental. São apontados três princípios que devem ser observados no desenvolvimento dos conteúdos (SÃO PAULO, 2009a, p.09-11).

O Princípio 1, denominado de Learning is meaning oriented, orienta que a aprendizagem, como centro da atividade escolar, acontece quando os alunos constroem sentidos por meio de sucessivas aproximações com o objeto em estudo, no caso, o texto como concretização de um gênero textual, já que são nessas aproximações que o aluno mobiliza os esquemas interpretativos de que dispõe, os available designs for meaning.

Esses esquemas são resultado das experiências linguísticas, tanto em LM quanto em LE, e culturais que os aprendizes compartilham socialmente dentro e fora da escola, o que torna necessário que as experiências proporcionadas pela escola tenham significado para o aluno.

No caderno de inglês – Volume 1 – elaborado para as três séries do Ensino Médio, esse primeiro princípio aparece como uma das premissas da aprendizagem de LE sob a perspectiva interacionista. A orientação dada ao professor nesse caderno aponta que, no Ensino Fundamental, o foco é a valorização do reconhecimento da língua inglesa no entorno do aluno, bem como “a aquisição de vocabulário e o reconhecimento de estruturas gramáticas”. O objetivo dessa fase é, portanto, que o aluno, em seus primeiros contatos com a LE, se familiarize com a língua, “observando em quais situações/contextos ela é usada em nosso cotidiano” (SÃO PAULO, 2013, p.11-12).

Já o Princípio 2 – Language learning is much more lexical than syntatic – chama a atenção do professor para a necessidade de se rever a metodologia de ensino que há muito vem marcando a trajetória do ensino de línguas estrangeiras no Brasil, principalmente, na escola pública, metodologia esta caracterizada pelo reducionismo do ensino ao sistema de regras, enfatizando, portanto, a gramática normativa.

As orientações explicam que o foco no sistema de regras acontece pelo fato de as regras gramaticais serem o que há de mais controlável e previsível em uma língua, o que traz, de certa forma, uma sensação de conforto e organização ao ensino de línguas.

O Princípio 3 – Familiarity with genres is important for the development of communication skills – aponta a importância de trazer os diversos gêneros textuais para o trabalho em LE, pois os gêneros, definidos como estruturas de eventos comunicativos socialmente validados (orais ou escritos), fornecem o contexto necessário para se trabalhar a língua no que tange aos aspectos culturais e sociais.

Outra definição que o documento traz é a de contexto, de modo a explicar para o professor que esse conceito não limita à situação de uso ou às palavras em uma frase, mas delimita os contornos em que um dado repertório de conhecimentos linguísticos e discursivos manifesta-se em uma dada comunidade de falantes.

Ora, se os gêneros são as estruturas por meio das quais essas práticas se concretizam, familiariza-se com eles é o mesmo que familiarizar-se com a língua em uso, contextualizada e situada histórica, cultural e socialmente.

Como o Currículo assume, portanto, uma terceira orientação com ênfase nos letramentos, a seção seguinte buscará trazer algumas reflexões sobre conceitos como letramentos, gêneros textuais e sua inserção no ensino, a fim de detectar em uma análise, posterior, como as atividades que compõem o Caderno do primeiro bimestre da 8ª série/9° ano (SÃO PAULO, 2009a) refletem esses princípios teóricos na promoção dos letramentos na formação do aluno.

1.5 A concepção de compreensão e produção escrita: da gramática e tradução aos

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