Chapitre III : CARACTERISATION DES MORTIERS AVEC
III. BESOIN EN EAU DES MORTIERS AVEC ADDITIONS A MEME
A origem do original perdida antes mesmo do original em um lugar inacessível e pré- original; um traço desaparecido é o traço ou rastro. É esta perda que torna possível uma narração para o enigma original, a primeira alteridade e a primeira exterioridade. JD a denomina arqui-traço ou arqui-escrita que abre no tempo e na palavra os intervalos e os espaçamentos. Assim, todos os traços ainda podem desaparecer, serem esquecidos e perdidos. Esta perda é sua estrutura mas o arqui-traço já desapareceu no esquecimento e não existe mais. Ele nunca existiu ou mais precisamente, ele acontece ao des-aparecer-se. Se ele chega é somente pelo desaparecimento e seu registro é por isso impensável. Nem mesmo as mais vagas e remotas impressões lhes dão qualquer perceptibilidade.
Contudo, não é possível garantir que um traço seja total e permanentemente excluído, perdido e inalcançável pois ele pode sempre fazer o retorno como sintoma e como acontecimento no espectro do inesperado, do imprevisível e do inimaginável. Sobre essa temporalidade singular, sem lugar, sem sentido e sem referente onde o traço torna-se cinzas, não é possível sequer falar. Ela subsiste na consistência do seu desaparecimento em sua supressão e mesmo que nada seja acrescentado ao sentido de dizer sobre isso, ao dizer nada sobre o nada ainda subsiste a necessidade de falar sobre essa temporalidade que não existe ou seja, mesmo ausente, ela ainda está no enunciado e continua a ser heterogênea, irredutível e indescritível.
Desde que hajam a experiência, o vivente e o envio a um outro existe um traço. É como a ação do signo quando pressupõe o deslocamento que resulta do movimento de protensão (tensão prévia potencial; energia que capacita o signo para sua transformação) e de retenção (marca arquivada do signo; que confere sua provisória singularidade) no fundo sem limite da semiose ilimitada sobre o qual se inscrevem a escritura, o traço, o arquivo, o primeiro registro, o evento (re)iterado e o espaçamento.
Esse conceito derridiano de traço repercute as idéias do filósofo lituano Emmanuel Lévinas (1906-1995) que em 1963 publicou seu texto La trace de l'autre (o traço do outro). Nesse período JD já estava quase terminando de escrever Violence et métaphysique (violência e metafísica). Contudo, ainda não estava, nesse texto, apresentada sua formulação do traço, mesmo que a ruptura gramatológica já estivesse em desenvolvimento e viesse a ser apresentada em Gramatologia (1967) e em A Escritura e a Diferença (1971), quando então, foi possível observar a evolução prospectiva da
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interpretação derridiana do traço levinasiano que se reestabeleceu sob a forma de rasura (DELACAMPAGNE, 1997).
Outra fonte do traço de JD é a psicanálise, ou mais exatamente as tensões internas do pensamento freudiano. Por um lado, Freud sonhava ressuscitar o traço original, único, como num momento de impressão psíquica no qual o inconsciente se tornasse consciente. Contudo, Freud também apontaria inversamente a constituição do traço como a memória de uma resistência, reticente e irreversível. Se ela não repousa, senão sobre os desvios das diferenças entre momentos intangíveis da consciência, então não é possível encontrá-la (DELAIN, 2005). JD estende esta última posição dos traços de memória em que ocorrem espaçamentos e retardamentos que trabalham por se fazerem desaparecer.
...o que ainda não aparecia já se anunciava em ‘pontilhado’. Era indis- pensável situar a problemática do traço, grande princípio de contestação, alavanca estratégica da desconstrução, dentro e na borda da psicanálise. Na Gramatologia e, sobretudo em La différance, tentei situar, pelo menos, a necessidade de reinterpretar um certo rastro de Nietzsche e de Freud. A questão da différance, ou do traço, não é pensável a partir da consciência de si ou da presença para si, nem em geral da plena presença do presente. Eu sentia claramente que havia em reserva, em Freud, uma poderosa reflexão sobre o traço e a escrita. Sobre o tempo também (DERRIDA in DERRIDA & ROUDINESCO 2004, p. 204).
O traço derridiano então radicaliza a partir de Levinas, o traço freudiano ainda que este último traga uma traço metafísico. JD vai apoiar que o arqui-traço não é nem freudiano, nem heiddegeriano, mas sim que ele é um e outro, e sendo outro pode-se argumentar que ele também é nietzschiano e ainda marcado pela ciência moderna e pela biologia.
Face a este movimento irresistível que tende a interpretar e atribuir sentido, imitar ou reproduzir o traço (seria o impulso para arquivar?), JD reconduz esse trabalho ao arquivamento.
Já na poesia, a re-iteração do traço é uma escrita que constitui o traço no trabalho como trabalho, e por meio da desconstrução este ‘percurso’ do traço acontece.
O traço é uma abertura enigmática da exterioridade em resposta ao logocentrismo que determina o sentido de ser como presença e o sentido da linguagem como enxerto contínuo da palavra. O conceito de traço faz enigmático algumas noções comuns como ‘o próximo’, ‘de imediato’ ou ‘próprio’ (DELAIN, 2005) e imprime um espaço antes da
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palavra que por sua precedência faz suspender oposições como natureza e cultura, homem e animal, letra e espírito, corpo e alma, para um não-presente, mas com alteridade em relação a ele.
[...]gosto das coisas que não precisam de mim, dos rastros que partem de mim. O rastro, é a definição de sua estrutura, é algo que parte de uma origem mas que logo se separa da origem e resta como rastro na medida em que se separou do rastreamento, da origem rastreadora (DERRIDA,2012, p.120).
O traço pode incorporar o espaço-tempo e cruzá-lo, mesmo ausente da presença dos limites temporais do objeto e/ou do ser em vida. Suas exteriorizações em traço referem- se à ausência que eles anunciam em relação a todos os outros. Assim, por exemplo, a voz ao pretender ser ‘materialidade’ do traço manifestando-o, reduz sua externalidade. Dessa forma a voz assume para o traço o que, por exemplo, a escrita assume para o discurso e cria um deslocamento que aproxima a relação traço/voz à problemática da presença ao tempo em que o traço antagoniza essa noção. Nesses termos a voz é ‘espectro’ do traço e não sua externalidade. Outras oposições como a do corpo vivo/espectro (fantasma) tentam assombrar a impossibilidade do traço.