Este primeiro tópico tem como enfoque a estratégia de mediação de conflitos no âmbito escolar que traduz o diálogo e o reencontro interpessoal para – acompanhando Warat (2004), Heredia (2000) e Muszkat (2005) – realizar a transformação da pessoa em relação à visão que tem da situação de conflitos. Com isso, é possível colaborar com a comunidade escolar na comunicação para negociar e alcançar compromissos mutuamente satisfatórios, a fim de evitar manifestações violentas.
O primeiro objetivo deste estudo foi analisar a compreensão da estratégia de mediação de conflitos entre educadores e educandos, bem como sua função na prevenção, administração e resolução dos conflitos no âmbito escolar, conforme pode ser verificado nas falas dos entrevistados abaixo:
A mediação é um processo que se fundamenta no direito humano. A mediação social existe pra formar cidadãos participativos. Cidadãos emancipados. Então esse é o foco da mediação. Formar cidadão que colabore com o outro cidadão. (E1)
Se transforma um, se transforma uma sociedade inteira, transforma uma família, uma rua, um bairro, uma cidade, multiplicando. (E3)
A mediação é para você aprender a lidar com os conflitos, mas de uma forma diferente, no nosso caso, transformativa. O objetivo da mediação é a transformação, não é transformação só dos mediandos, mas dos mediadores. (E11)
Corroborando os dizeres dos entrevistados, Warat destaca que
[...] é uma proposta transformadora do conflito porque não busca a sua decisão por um terceiro, mas, sim a sua resolução pelas próprias partes que recebem auxílio do mediador para administrá-lo. [...] visa, principalmente, ajudar as partes a redimensionar o conflito, aqui entendido como conjunto de condições psicológicas, culturais, e sociais. (WARAT, 2004, p. 60). Na visão dos entrevistados, o principal objetivo da estratégia de mediação de conflitos neste contexto consiste em propiciar um olhar diferente sobre a situação conflituosa, a fim de promover a transformação do aluno. E com a própria transformação, espera-se que o aluno seja capaz de modificar seu ambiente escolar. No caso, a transformação que se opera nos alunos em situação de conflito se estende aos mediadores.
Com essa atitude, os envolvidos refletem sobre o ato e levantam algumas alternativas, como eles próprios dizem, de forma mais civilizada, para o controle ou a resolução do conflito. Pelo relato abaixo, percebe-se que a estratégia mediática apenas provoca e dá suporte para a transformação dos alunos, que é efetuada pelos próprios indivíduos em interação uns com os outros:
E o mais legal da mediação é que o menino vai mudar de atitude não porque você quer que ele mude, ele vai mudar porque ele chegou à conclusão de que é melhor ser diferente; você não impõe, você não modifica ninguém, quando você muda o jeito de conviver com aquela pessoa, ou ela vai se afastar de você ou vai mudar o jeito de conviver para continuar perto de você, e é isso que eu acho que a mediação faz. (E3) No ambiente escolar, situações didáticas que favorecem o intercâmbio de informações entre os atores educacionais são ricos espaços de discussão que geram uma contínua construção de mediadores envolvidos na realização de tarefas, facilitando o diálogo sobre o conflito existente. A função da estratégia se estende para além da resolução de conflitos. Alcança a transformação das relações. Não apenas as relações intraescolares, mas outras relações sociais, como as familiares e de trabalho.
Nas minhas palavras mediação é tipo dizer um não à violência, tipo levar tudo mais na conversa. Tipo assim, pensar antes de falar, ou sei o quê, ou brigar. Tipo conversar. (E9)
É um novo olhar em relação ao aluno (E13)
A estratégia mediática também tem a função de aproximar os atores educacionais, possibilitando a ressignificação do conflito e promovendo o restabelecimento das relações:
[...] serve para ressignificar a ideia de conflito para fazer a reestruturação de laços. (E1)
O foco principal é fazer o menino refletir, ver o papel dele como cidadão, dentro de todo o processo. (E3)
Fazer a pessoa refletir e se perceber, perceber o outro.E isso não só em termos de relações interpessoais, mas sociais como um todo. (E13)
Outra função da estratégia de mediação de conflitos citada pelos entrevistados consiste na provocação da prática reflexiva. Prática que conduz o indivíduo ao exercício da cidadania. A reflexão nas relações interpessoais faz com que a cidadania seja vislumbrada, conforme exposto por Delors (1999),o que constitui um conjunto complexo na adesão a valores, à aquisição de conhecimentos e à aprendizagem de práticas na vida pública. A prática do diálogo também é uma função bastante pronunciada pelos entrevistados. Segundo eles, o diálogo aproxima os atores educacionais e permite que um aluno, ao se abrir para conversar, coloque- se no lugar do outro, o que é uma tarefa difícil:
O processo de mediação é como ensinar a abertura para o diálogo. Eu percebo assim; eu acho que abre uma porta para a conversa. E faz com que o aluno se coloque no lugar do outro, que é uma dificuldade muito grande. (E3)
O processo de mediação visa promover o diálogo e a reflexão. Você faz perguntas e eles vão pensando, analisando. (E8)
A estratégia de mediação de conflitos também tem como objetivo desenvolver a competência que se realiza por meio da alteridade. Sem dúvida, essa dimensão humana – alteridade – vista na perspectiva hegeliana é essencial ao perfil do agente mediador de um conflito, haja vista refletir o encontro do eu com o outro, implicando na compreensão do encontro das ideias, sem excluir os fatos do cotidiano. É uma imersão das pessoas – aqui partes envolvidas – na situação, no entanto, sem deixar de reconhecer o valor de cada uma. Todos os pontos e contrapontos são valorizados. O singular cede à necessidade de evoluir como outro, de completude
humana e remete à busca ontológica que se realiza na presença do próximo. Assim a diferença é comum, é saudável e precisa ser respeitada, pois constrói e reconstrói a sobrevivência, alegrando e enriquecendo a existência humana.
Colocar-se no lugar do outro, ou seja, entender e compreender o estado emotivo do outro, de acordo com Goldstein e Michaels (1985 apud PAVARINO, 2005), é o que define a empatia. A situação de empatia envolve não somente a habilidade de compreender sensivelmente o mundo afetivo do outro, mas também demonstrar esta compreensão por meio de comportamentos abertos, adicionando- se, portanto, o componente da comunicação. Del Prette e Del Prette (2003a apud PAVARINO, 2005) alertam que a ausência total de empatia tende a refletir um contexto inadequado de socialização e do desenvolvimento de habilidades de lidar com a própria agressividade.
A multiplicação das ações desenvolvidas no processo de mediação tem a finalidade de envolver o próximo com as práticas de boa convivência. O processo de mediação apenas provoca e dá suporte para a transformação das pessoas. O processo de transformação é efetuado pelos próprios indivíduos em interação com os outros, corroborando os ensinamentos de Freire (2011, p.79) de que “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, entre si mediatizados pelo mundo.”
Os resultados produtivos da mediação não se resumem nas relações escolares, alargam-se pela família, vizinhança, bairro. Essa é a importância de se desenvolver a estratégia na escola: a transformação do entorno e a irradiação de boas relações. Sua função se estende para além da resolução de conflitos. Provoca a reflexão e a prática de pensar antes de agir. Arendt lembra que “formar para o mundo significa, entre outras coisas, adquirir a noção do coletivo.” (FERRARI, 2008). Heredia (2000) cita algumas ações oriundas da Resolução 53/25, adotada pelas Nações Unidas, entre as quais sobressaem a educação de valores, o desenvolvimento de atitudes, de modos de comportamento e de estilos de vida que assegurem aos alunos a capacitação para resolver qualquer disputa pacificamente. O autor acrescenta que essa capacitação estará baseada no desenvolvimento de temas relacionados aos direitos humanos, como o respeito à dignidade humana, a tolerância e a não discriminação, bem como a igualdade e a liberdade.
A mediação é uma forma de reforçar os laços interpessoais de convivência. Durkheim (2001) ressalta a importância da socialização na constituição do indivíduo,
que constrói seus costumes e condutas em coletividade. Também constitui um importante instrumento na prevenção da violência no seio escolar. Abramovay et al. (2002, p. 26) salienta que “a violência simbólica abrange relações de poder interpessoais ou institucionais que cerceiam a livre ação, pensamento e consciência dos indivíduos.” Faleiros e Faleiros (2007) complementam que essa violência psicológica não deixa traços visíveis no corpo, mas pode ser observada na mudança de comportamento e das atitudes dos alunos. Produz traumas que afetam a parte psicológica, comprometendo as emoções.
Pode-se compreender a mediação social como uma estratégia que não se resume à celebração de acordos ao se mediar um conflito. Sua função é mais abrangente, consiste em provocar a reflexão nas partes em conflito, a fim de promover a transformação. É na ação-reflexão que os homens se realizam. Para Freire (2011), o ato de refletir é que transforma. A palavra sem reflexão, sem ação se transforma em simples conversa inconsequente. A ação pela ação inviabiliza a reflexão, nega a práxis e impossibilita o diálogo. A existência humana não pode ser silenciosa, inerte. Constituir-se-á de palavras democráticas, de práticas verdadeiras que transformam as situações. A realidade precisa ser desvelada criticamente, a fim de provocar transformações.
Sintetizando as respostas relativas à compreensão do conceito e da função da estratégia de mediação no âmbito escolar, percebe-se que os atores educacionais da escola investigada compreendem a estratégia de mediação de conflitos como um processo que tem fundamento no direito humano. Sua principal função é a de transformar a situação conflituosa e o sujeito, e ainda, de multiplicar essa transformação por meio da irradiação de atitudes positivas. Incluído nessa transformação está o desenvolvimento da competência no sujeito de mudar a si próprio por meio da provocação de reflexão. A reflexão induz à ressignificação da ideia de conflito e possibilita a reestruturação e a criação de laços de amizade e sociais.
Essa transformação converge para atitudes não violentas, que, no entendimento dos entrevistados, são elididas pelo diálogo, instrumento de fundamental importância nas relações humanas. Nessa perspectiva, uma das funções da estratégia de mediação de conflitos no âmbito escolar consiste em colaborar na formação de cidadãos críticos e emancipados. Importa ressaltar que as
intervenções dirigir-se-ão ao indivíduo enquanto pessoa plena, sem dividi-la em partes cognitiva, relacional, funcional.
Percebe-se, também, que essa constitui uma estratégia multiplicativa, ou seja, ao desenvolver valores e hábitos em um indivíduo, este irradia boas atitudes envolvendo o próximo em práticas de boa convivência, modificando suas relações e, consequentemente, a sua realidade. Na compreensão dos respondentes, a estratégia de mediação de conflitos no âmbito escolar é um processo colaborativo, dialógico, participativo e transformador e que tem como fundamento o direito humano.
Foi frequente a resposta dos entrevistados de que a estratégia mediação de conflitos colabora para a formação de cidadãos participativos, conscientes do seu papel, que sejam capazes de questionar, dialogar, de cooperar, e, principalmente, de promover o diálogo crítico dentro da escola. A mediação, além de resolver os conflitos nascidos no momento, tem a função maior de identificar o “conflito de fundo”, que em geral é o que provoca o conflito imediato.
O processo de mediação como estratégia que se utiliza do diálogo, aproxima os atores educacionais, possibilitando a ressignificação do ato educativo e a promoção de relações horizontais em detrimento das relações verticais. Essa horizontalidade das relações no ato educativo entre os atores educacionais promove condições para o reposicionamento da pessoa frente à situação de conflito baseada na busca da efetivação dos direitos fundamentais.
Alves (1999, p. 71) salienta que “o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver nos cidadãos a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo.” Nessa perspectiva, o que está na base do processo mediático no âmbito escolar é o direito humano, fundamento trabalhado no curso de formação de mediadores juntamente com os conceitos de ética, cidadania e diálogo. Nesse processo de formar cidadãos críticos, o que se vislumbra alcançar é o empoderamento dos sujeitos para que ajam conscientemente, transformando as situações conflituosas, a si próprios e o local em que vivem, em busca de autonomia. Bobbio (1992, p. 52) sustenta que a liberdade – direito fundamental – “é o único direito inato, ou seja, transmitido ao homem pela natureza.” Assim como Bobbio, Kant (apud BOBBIO, 1992) define liberdade como autonomia.
Além de transformar a própria vida, o indivíduo se torna capaz de promover mudanças no seu entorno e de incentivar a transformação das pessoas próximas. Blin e Deulofeu (2005) pressupõem que a ausência de competências sociais pode derivar da ignorância de certas capacidades, como a autoestima, o sentimento de eficácia e de habilidades de resolver os problemas relacionais. Portanto, a estratégia mediação de conflitos é mais um instrumento de trabalho educacional que contribui para que os atores educacionais desenvolvam a capacidade de enxergar uma situação sob diversos olhares, com intuito de escolher a melhor forma de enfrentar os problemas, transformando o olhar do sujeito sobre o objeto ou a situação de conflito, por meio da realização do diálogo e de provocação da reflexão.