O início formal da onda empirista tem sido atribuído a John Locke (1632-1704) mas inclui teorias de pensadores como Francis Bacon (1561 a 1626), Baruch Spinoza (1632-1677), Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), George Berkeley (1685-1753), David Hartley (1705-1757), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), James Mill (1773-1836) e John Stuart Mill (1806-1873).
Locke contestou diretamente a Doutrina das Idéias de Descartes ao introduzir a Doutrina da Tábula Rasa e defender que o ser humano, ao nascer, tem a mente vazia, sem nenhum conhecimento inato, e, portanto, todo o conhecimento é adquirido através da observação dos fenômenos presentes em sua relação com o meio-ambiente. Contestava, portanto, o uso da razão para obter conhecimento e propunha sua substituição pela observação empírica dos fenômenos, frutos de percepção sensorial. Com esse propósito, os empiristas advogavam somente métodos experimentais para a confirmação das 'verdades' científicas dos fenômenos observados e afirmavam que a razão humana não era confiável e que somente se poderia conhecer a verdade através da experiência.
O Empirismo influenciou várias correntes e doutrinas filosóficas, dentre as quais o Idealismo, corrente filosófica que tem entre seus defensores Immanuel Kant (1724-1804) e Georg Hegel (1770-1831); o Relativismo – doutrina contrária à existência de verdades absolutas, com ponto de vista oposto ao etnocentrismo e defendida por Maximillian Weber (1864-1920), Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1880), Émile Durkheim (1858-1858), Michel Foucault (1926-1984), entre outros; o Fenomenalismo – visão de que os objetos físicos não existem como coisas em si, mas apenas como fenômenos perceptuais ou estímulos sensoriais situados no tempo e no espaço – defendida por Berkeley, Locke, Stuart Mill; o Materialismo – doutrina que explica os fatos do universo em termos exclusivamente materiais e opõe-se ao idealismo ao sustentar que todas as coisas são compostas por matéria e que todos os fenômenos são os resultados de interações materiais – defendida por Ludwig
Feuerbach (1804-1872), Karl Marx, Friedrich Engels (1820-1895); a Dialética – segundo a qual as contradições inerentes a movimentos anteriores levam ao surgimento de movimentos contrários sucessivos – idealizada por George Hegel (1770-1831); a doutrina Determinista – princípio da ciência experimental segundo a qual existem relações constantes entre os fenômenos, condicionados por leis naturais – defendida por Pierre de Laplace (1749-1827), Leibniz, Espinosa e Albert Einstein (1879-1955).
Outros movimentos filosóficos, embora não tratassem diretamente de epistemologia, contribuíram com doutrinas que de vários modos influenciaram novas visões da natureza humana e de sua cognição, dentre eles o Positivismo, corrente da sociologia defendida por Auguste Comte (1798-1857) e o Romantismo – movimento filosófico que preconiza uma perspectiva contrária ao racionalismo, de tendência idealista ou lírica e carente de sentido objetivo – que teve como precursor o autor da Doutrina do Bom Selvagem, Jean-Jacques Rousseau (1719-1778). Essa doutrina preconiza as relações de poder como critério para a diferenciação do homem bom, o dominado, do mau, o dominador e tivera forte influência na arte e na política, a ponto de ser considerada precursora do Socialismo e do Comunismo.
Os princípios filosóficos do Socialismo e sua aplicação politico-econômica, o Comunismo, são defendidos por Karl Marx, Friedrich Engels16 na publicação do Manifesto do Partido Comunista em 1848.
Nessa perspectiva Marxista, a natureza humana se subordinava à divisão de classes econômicas, entre burgueses – os maus – e proletários – os bons, segundo consta em nota de Engels à edição inglesa de 1888 do manifesto:
Por burguesia compreende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado compreende-se a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir. “(MARX e ENGELS, 1888).
No mesmo Manifesto, Marx e Engels propõem a abolição da família, cuja plenitude repousa no ganho individual do burguês e, segundo pensam, existe somente para os espoliadores dos proletários:
Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família
16 Paradoxalmente, Engels era filho de um importante industrial alemão e utilizou-se do dinheiro proveniente da atividade burguesa do pai para financiar as atividades filosóficas dele e de Marx.
burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública. [...] As declamações burguesas sobre a família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança aos pais, tornam-se cada vez mais repugnantes à medida que a grande indústria destrói todos os laços familiares do proletário e transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho. (Idem)
Na perspectiva comunista até mesmo o comportamento amoroso e sexual está subordinado à inserção dos indivíduos a uma ou outra classe econômica e torna-se hedonista para os burgueses:
Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade de mulheres. Não imagina que se trata precisamente de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção. [...] Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros. (MARX e ENGELS, 1848).
Quanto à capacidade de cognição humana, o Marxismo também a subordina, indiretamente, as classes sociais presentes nos modos de produção econômica, visto serem estes os responsáveis pelas reais condições de vida material e relações sociais dos indivíduos. Marx e Engels reafirmam essa crença ao afirmarem que “As idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante”, em resposta às perguntas que eles próprios formularam:
Será preciso grande perspicácia para compreender que as idéias, as noções e as concepções, numa palavra, que a consciência do homem se modifica com toda mudança sobrevinda em suas condições de vida, em suas relações sociais, em sua existência social? Que demonstra a história das idéias senão que a produção intelectual se transforma com a produção material? (MARX e ENGELS, 1848).
Em sua obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), Milhail Bakhtin defende a visão materialista de cognição do Marxismo, composta por signos ideológicos, em oposição a Filosofia Idealista e a visão Psicologista da cultura:
O idealismo e o psicologismo esquecem que a própria compreensão não pode se manifestar senão através de uma material semiótico (por exemplo, o discurso interior), que o signo se opõe ao signo, que a própria consciência só pode surgir e se firmar como realidade mediante a encarnação material em signos. (BAKHTIN, 1929, p.33-p. 34)
é resultado do processo de interação social, que desse modo preenche a Tabula Rasa com conteúdo semiótico. Para isso:
[...] Não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se. A consciência individual não só nada pode explicar, mas ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social. A consciência individual é um fato socioideológico. (idem, p.35)
Ao mesmo tempo deixa clara as diferenças existentes entre sua visão marxista e as visões do Idealismo e do Naturalismo:
Apesar de suas profundas diferenças metodológicas, a filosofia idealista e o psicologismo em matéria de cultura cometeram, ambos, o mesmo erro fundamental. Situando a ideologia na consciência, eles transformaram o estudo das ideologias em estudo da consciência e de suas leis. [...] A criação ideológica – ato material e social – é introduzida a força no quadro de consciência individual. [...] quando indevidamente interpretada como estando em conformidade com as leis da consciência individual, deve, inevitavelmente, ser excluída de seu verdadeiro lugar na existência e transportada, quer para e empíreo supra-existencial do transcendentalismo, quer para os recônditos pré-sociais do organismo psicofisiológico, biológico. (idem, p.34-p.35)