N o d ia seguinte, à s 2 horas d a tarde.
É o sa lã o d e m úsica. P e la ja n e la a b erta , vê-se a va ra n d a e um trech o d o e sp lê n d id o p a n o ra m a que é o encanto d o terraço. Um p ia n o d e cau da a o fu n d o , com uma co lch a d e se d a verm elha. J arrão d a China entre a ja n e la e a p o rta . M o b ília de la ca verm elh a e p a lh a dou rada. À direita , no p rim e iro p la n o , um b ib elô com espelho, ju n to à p o r ta d e com u nicação com o interior. A s p a r e d e s sã o fo r r a d a s d e ta p e ç a ria d ’A ra c c io em lilá s e p r a ta velha, m otivo: as n ove M usas.
E stã o em cena F io relli e D . M a ria que vem entrando.
Fiorelli - La signora?
D. Maria - D oente.
Fiorelli - C om o?
D. Maria - U m a lev e indisposição. D esd e ontem , v eio -lh e a m igrain e.
Fiorelli - C om este lindo dia de primavera?
D. Maria - Infelizm ente, não esco lh em o s o dia para adoecer. M as sente-se, Fiorelli, descanse.
Fiorelli - E la signora não m e m andou dizer nada?
D. Maria - N ão. Creio m esm o que não se lembrou de vo cê. C om preende, um a dor de cabeça. M as sente-se, Fiorelli, ao m enos enquanto espera condução.
Fiorelli (sem sentar-se, h esita n d o ) - C om que então, sempre, bem senhora D . Maria?
D. M aria - Eu? Com o D eu s é servido. Cuidando da vida dos outros desde que a m inha já vai no epflogo.
Fiorelli (d istra íd o ) - Seriam ente!
D. M aria - E ste Fiorelli! Sem pre distraído! Sim , seriam ente - séria e tristem ente. M as fale- m e de si. Q ue fe z ontem à noite?
Fiorelli - E stive no Lírico com a fam ília G om es Pedreira. Cantavam a B ohem ia.
D. Maria - Pobre Fiorelli!
Fiorelli - B ela m úsica, um tanto renitente, mas bela m úsica, (o u ve-se o tim b re e lé tric o no
interior). M as chamam. É, de certo, la signora. Senza in com odo, (su btam en te m ais tím id o ).
Quando será então? Eu preciso tanto!
D. Maria - M ando-lhe amanhã.
Fiorelli - Veram ente!
D. Maria - Sem falta.
Fiorelli - Oh! Grazzie! G razzie! (sai)
D .
Maria
(acom panhou o m úsico a té ap o rta , diz-lh e adeus. V olta) - P o b r e F iorelli!Mãdame Vargas (A parecen do no in terio r) - F oi-se?
D. Maria - C om a resignação de sempre. Está convencid o de que eu m ando pagar amanhã. D ev em o s ao F iorelli cinco m eses de tocadas e liçõ es.
Madame Vargas - Outros devem m ais. Tam bém tu! Lembrar-me tal coisa, na situação em que estou!
D. Maria - Situação que não é de hoje ...
D . M aria - E que piora a cada dia. Ontem o copeiro despediu-se antes de jantar. Foi preciso uma grande tática de que devia servir à m esa. D e i-lh e até o laço na gravata com ar de quem o faz p elo m enos com andante de um a brigada estratégica.
M adame Vargas - E ainda brincas?
D . M aria - Para que desanimar? Tenha fé em ti. A n ossa situação é desesperadora. Tu m esm o não sabes quanto d eves. D ev em o s a todos os fornecedores, aos criados e ainda por cim a fazem os m ais dívidas, com o m esm o lo u co trem de vida. É delicado. M as seria p o ssív el parar agora, fazer leilão, ir morar para um a casa qualquer? Q ue prazer teriam os teus in im igos, isto é, a sociedade inteira! A bela H ortência Vargas, a viúva do diplomata, a orgulhosa H ortência que rejeita as m elhores propostas, descen do do seu pedestal.
M adame Vargas - N em todos pensam assim .
D . M aria - A m aioria não sabe que não tem os m ais dinheiro e quer ver o fim . É hum ano. Que fazer? Resistir. Esperar. Tenho virado um p ouco financeira e devo dizer-te que esgotado o dinheiro da hipoteca da casa co m eço a liquidar as tuas jóias. B elfort dá-m e co n selh os e já aceitou duas letras m inhas.
M adame Vargas - Tia!
D . M aria - E le é tão delicado, que é im p o ssív el recusar. E há um ano viv em o s nesta despesa de grão-duque sem rendimento! M as tenho fé. R e so lv es agora tudo.
Madame Vargas - R eso lv o ?
D . M aria - Então o José? O casam ento é a única solu ção. Q ue esperavas tu? U m casam ento rico. V em -te rico, jo v e m e apaixonado.
Madame Vargas - Sim . É rico, é m ilionário, é m o ço , amante. Seria m inha felicidade. A m a-m e...
D . M aria - M as é a tua felicidade.
M adame Vargas - C om o, tia?
D . M aria - C om o? Então não aceitaste?
M adame Vargas - A ceitei sim , aceitei. N ão fo i só pela questão de dinheiro. D esd e que José tão hum ildem ente m e ofereceu a sua m ão de esp o so , um a im ensa e subm issa gratidão m e fo i enchendo a alma. A ceitei. M as querer-me e le e desejar eu esse enlace já, é o m esm o. D . M aria - N ão pode deixar de ser já. A dem ora é o desastre.
Madame Vargas - A quem o dizes! E le quer, eu quero. M as há de outro lado as insinuações, as cartas anônim as, os despeitos, tudo quanto tem o rótulo da
soc\&ààá&.(Levanta-se). E há, m eu D eu s, e há, para suprema infelicidade, Carlos.
D . M aria - N ão se convence?
M adame Vargas - N ão se con ven ce. A o contrário. A m eaça fazer um escândalo, am eaça contar tudo.
D . M aria - M as é infam e.
Madame Vargas - Infam e, fui eu. Infame que m e entreguei, após tanto tem po de honestidade a um rapaz sem escrúpulos. É louco? M as louca sou eu que m e d eix ei levar, arrastar por ele. N ão m e o lh es assim . Eu estava só, só, sem ter ninguém que m e am asse. Agora, não. Agora sinto que não é p o ssív el m ais, que há um a grande, oh! Enorm e diferença entre os dois. E quero realizar m inha vida; Quero e h ei de realizar.
D . M aria - R ealizarás, estou certa. M as que vais fazer?
Madame Vargas - Im agina o que é preciso fazer! Q ue esforço, que contenção de nervos. Há oito dias, Carlos desconfiou, sentiu que José era m ais do que um partido. O seu ciúm e as suas cenas! A um entam hora a hora! Tia, se Carlos tiver a certeza do pedido de casam ento, estou perdida. E ele desconfia.
D . M aria - N ão.
M adam e Vargas - M ais do que isso. Tem quase a certeza. Está louco. D isse-m e ontem no chá.
D . M aria - E com eteste a im prudência de recebê-lo à noite!
M adam e Vargas - V iste?
D . M aria - N ão vi, m as tinha a certeza. N ão fo sse eu mulher! A m ulher só tem um recurso contra o ciúme: entregar-se. E squece que ainda com p lica a vida.
M adam e Vargas - Sim , sim . Foi pior. N ão im aginas que noite, que pavorosa noite de sofrim ento. A insistência sua, a terrível insistência, o nom e do outro nos seus lábios que m e beijavam com brutalidade! Tinha ím petos de escorraçá-lo e estreitava-o m ais. É preciso o ocultar, ocultar. N o dia que souber, conta tudo ao José. N ão dorm i. Só há um recurso, fugir, casar fora daqui, ver-m e livre dele. D ep o is José defender-m e-á!
D . M aria - M inha pobre Hortência!
M adam e Vargas - E tenho de fingir, continuar a fingir sem que ninguém m e ajude. Tia, já não se trata de dinheiro, trata-se da m inha honra para um hom em que m e respeita a ponto de m e oferecer sua mão.
D . M aria - Por que não falas a Belfort?
M adam e Vargas - E le vem hoje. Prom eteu-m e ontem . S ó ele que sabe de tudo e é bom e poderá ajudar-me.fA/jarece o criado).
Antônio - O Dr. José Ferreira.
M adam e Vargas - M ande entrar. (O cria d o sai). D eix a i-n o s sós, tia. V ê que não nos interrompam. A todo o instante penso no outro. C om o eu teria vontade de dizer a este toda a verdade, e com o é im possível! (V ai a o espelho, com p õ e a fisio n o m ia e vo lta -se a s o rrir
q u an do entra J o sé F erre ira com um ram o de rosas, f ic a p e r to d o pu jf). Seja bem -vindo
com as suas lindas flores!
José - C om o todos os dias as flores são suas.
M adam e Vargas - (va i p o r a s flo r e s no va so so b re o p ia n o ) - M erci. M as sabe que é escan daloso? Quem o vir chegar todo dia com um ramo de rosas o que não dirá?
José - Q ue importa, se é para bom fini!
M adam e Vargas - E a n ossa com binação?
José - O segredo? É o de Polichinelo. Sabe que falei ontem à mamã?
M adame Vargas - Ah!
José - Era apenas uma form alidade, mas não podia deixar de a cumprir.
M adame Vargas - F ez bem . Que d isse ela?
José- Ficou contente. Tudo que parece ser a minha felicidade é de resto sempre a vontade de m am ã. Sou filho único e ela é só. Im agine que pensa em netos! M as conhecia-a de vista e acha-a linda. Sabe que causa uma im pressão de rainha?
M adam e Vargas - Lisonjeiro!
José - A mamã é uma senhora m uito ativa, de costum es rígidos, bem a senhora antiga, esp o sa de fazendeiro, achando que ninguém pode ser superior aos seus. Sabe entretanto a sua frase? D isse-m e a sorrir : “A quela senhora tão bonita gostou de ti, José?”
M adam e Vargas - Oh! José!
José - R epito o que d isse a mamã. E olhe que para falar francam ente, de v ez enquanto ponh o-m e a pensar e indago a m im m esm o: com o seria isso?
M adam e Vargas - Senhor Dr. José Ferreira, se v iesse sentar-se em v ez de dizer isso?
José - É a verdade. Quando há dois m eses a vi no teatro tive uma tão esm agadora im pressão! O coração se fe z pequeno, pequeno. Já m e disseram que só se fica assim diante
das p essoas que nos vão dar um grande bem ou mal irrem ediável. Lem bra-se? A o entrar no seu cam arote pelo braço do G uedes, não sabia o que dizer. O coração adivinhava e fazia-se pequeno com m edo.
Madame Vargas - (rindo) - Felizm ente, o m ed o durou pouco.
José - Porque lo g o se fez amor. M as nem calcula com o e sse seu ar tão superior, e sse seu ar de imperatriz faz os outros se julgarem m enores. Eu trem o sempre de a perder ...
Madame Vargas - Husão! A imperatriz já o vira na platéia e indagava: quem será aquele rapaz diverso dos outros que m e olha na quinta fila?
José - Hortência!
M adame Vargas - É bom gostar um pouco dos outros!
José - A m o -a tanto! Hortência, que bem o sinto, o m eu amor há de fazê-la feliz.
M adame Vargas - José! C onhece-m e. D e v e -lh e ter dito tanto m al de m im ! A fria Hortência, é que despreza todos os pretendentes! Sim ! é um a p ouco verdade. N u nca am ei. Entretanto, não sei porque nesta m inha vida, neste inferno de festas, de alegrias que são amargores e amargores que não são alegrias, só um a p essoa dá-m e um a im pressão de so sseg o , de paz d ’alma, de apoio, de satisfação com pleta - vo cê. Quando v o c ê está, sinto- m e tão calm a, tão descansada, tão bem ! É fé - a fé de que encontrei enfim o m eu am igo, o m eu protetor, o m eu verdadeiro esp oso. E o m eu coração sente-se então m uito largo, m uito largo, e eu tenho um a grande vontade de chorar.
José - É bom falar-me assim , H ortência. S e eu q u isesse dizer-lhe o que é o m eu amor, dir- Ihe-ia que desejava fazê-lo forte e m acio co m o de aço coberto de veludo, para defender sem a m agoar. Porque é superior às outras, porque tem a alm a tão alta e a b eleza tão altiva, é que precisa de quem lhe abra o cam inho, de quem lim pe a estrada da pedra e da erva daninha, de quem sob os seus passos estenda o arminho e as rosas. Eu am o-a assim , Hortência. M uito, m uito. Se não m e d esse atenção, se não m e q u isesse ver, teria desaparecido sem a criminar. Levaria co m ig o apenas a m ágoa da m inha inferioridade, e não teria um a queixa e não diria nada. Sabendo que m e aceita, que m e agasalha, sinto que a vida se com pleta e que a sorte, trazendo-m e a felicid ad e e fazend o-m e bom , com pletou que a série dos seus bens, dando-m e para conduzir a estrela que de lon ge eu seguia ...
Madame Vargas - José! José! Eu nunca tive m e falasse assim . Eu nunca tive. S e tudo entre nós tiv esse de acabar, poderia levar a certeza de uma recordação in d elével, a certeza da revelação. É tão delicado e tão bom ! D á-m e flores e o seu amor. Quantos m e ofereceram isso antes, eu recusei. O fereciam ? S ei lá! Queriam . É v o c ê o único que oferta, e tão bem que o perfum e da sua alma entontece, e que um a grande vontade de ser boa faz da pobre H ortência alguém que só no m undo o quer. M as é sonho. Tudo quanto é m uito bom não pode ser verdade.
José - Por que?
M adame Vargas - Tenho m edo daqui, tenho m edo de tudo. Enquanto não o conhecia, José, enquanto a m inha vida era lutar e resistir nesta sociedade de invejas, de intrigantes e de egoístas, era forte e queria. Tinha de ser. D iante de m im o horizonte se definia sempre igual e pardacento. Agora não. Agora tenho m edo, tenho m edo de tudo. A cada passo penso que vão destruir a minha felicidade.
José - M as quem?
M adame Vargas - Esta vida! Esta gente!
José - M as se eu estou a seu lado?
M adame Vargas - O m eu desejo era um só - partir. Partir con sigo.
Madame Vargas - Seria tão bom que não fo sse aqui! escute, José. É uma estado de nervos, um receio v a g o in exp licável. Eu não queria que fo sse aqui. Partir. Partir. Levar para lo n g e dos curiosos a nossa felicid ad e e de lá então anunciar.
José - Sem pre a m esm a idéia.
Madame Vargas - Guardar o segredo, o segredo im enso do m eu primeiro amor. José - N ão quer que ninguém o saiba?
Madame Vargas - O m eu desejo era que o m undo o ignorasse, que fo sse depois co m o uma surpresa irrevogável.
José - Eu, ao contrário desejaria que todos soubessem .
Madame Vargas - V aidoso!
José - O rgulhoso! A ndo tão alegre, tão ch eio de felicidade, que só tenho o desejo de irradiar p elo s que encontro o m eu prazer. O segredo sufoca-m e.
Madame Vargas- Guarda-o por m im , José, guarda-o. Há tanta gente que não suportaria a nossa alegria! Procurariam envenenar os n o sso s instantes de prazer, falando, inventando, caluniando. Seria o torm ento nas reuniões, a curiosidade indiscreta nos teatros - coisas pior, quem sabe ...
José - Que im porta a opinião dos outros?
Madame Vargas - E ssa gente v iv e conosco na m ais cordial simpatia, m as ao perceber a felicidade, é um a raiva que lhes dá de despeito e de inveja.
José - D izen d o -o a todos, ninguém se atreverá. O m istério dá-m e a im pressão de que vam os com eter um crim e.
Madame Vargas - E há m aior crim e para os outros de que organizarmos a própria felicidade? N ã o , José. C om o seria bom partir!
José - M as parto. Sem pre acedi aos seus desejos.
Madame Vargas {de súbito, rindo) - Tu partes num dia, eu parto no outro. C hegam os no
m esm o dia. E depois de lá chegar, eu rirei, eu r i r e i ...