PART II: ECONOMIC MODELING AND IMPLICATIONS OF THE DECISION ON
9. BASIC EQUATIONS
Os usos tecnológicos têm sempre, na sua aplicação nas artes e ciências, escolhas políticas. Como foi apontado, na raiz da palavra “tecnologia”, ciência e arte com- partilham instrumentos que, com usos diferentes, possuem a função de mediar, modificar e medir o ambiente e os materiais através de processos e procedimentos. Dado que os povos têm diversas técnicas de produzir conhecimentos e expressão simbólica, não pode haver um parâmetro ou hierarquia do que se considera arte ou ciência sem levar em conta a cultura a qual se observa.
A posição ortodoxa que afirma que existe um senso comum único também afirma que existe uma baixa cultura e alta cultura. A diferença entre essas duas colo- cações é que o pensamento sistemático não depende do julgamento estético que o corte cultural propõe. Da mesma forma, uma divisão entre a matemática e a etno- matemática não pode ser tomada como existente. O limite onde começa a arte de uma escultura e a técnica para fazê-la é indefinível.
As experiências em arte e ciência têm em comum o fato de serem mediadas por instrumentos. Essa inter-relação entre as duas dimensões faz com que a dicotomia entre razão e emoção, geralmente pensada como natural, deixe de ter sustentação, uma vez que se observa que ambas são práticas sociais. A diferença entre uma e outra fica então no critério de método. Enquanto o método científico é necessário e único para legitimar o conhecimento acadêmico, as artes têm meios, suportes e métodos variados.
Do que foi exposto até agora, há uma linha argumentativa que diz que a etnoma- temática relaciona-se com as artes e as ciências pela história das concepções acerca do pensamento greco-romano e judaico-cristão. Essa origem étnica, entretanto, é o discurso sobre a história da matemática, do que se reconhece como tal prática
social. Existem, assim, dois pontos de análise: a origem étnica de toda matemática e a construção de um discurso sobre um determinado tipo de prática numérica − a de origem grega com influencia árabe na escrita, e a indiana, com a introdução do zero, desconhecido até então na Europa, no início do século X.
Isso implica dizer que no conhecimento atual, o digital teve suas origens em povos diversos. Não é possível traçar uma linha reta da origem da espécie humana sem passar por culturas não europeias. De modo que, quando se fala em produção do conhecimento, é necessário observar esse aspecto cultural como fonte de sen- tido do que se produz.
Até agora a ênfase foi dada em aspectos distintos da história da matemática que visam contextualizar o que se viu em comum nas interações do festival. O Tropixel foi um ensaio possível de práticas que têm tanto critério científico quanto a sensi- bilidade artística, a possibilidade de experimentar soluções diversas para questões urbanas, projetos de discussão estética e política. Pensados como meios de revisar estratégias de luta por direitos, são assuntos que têm uma relação com a concepção de produção do conhecimento. Se não estão diretamente relacionados à etnomate- mática, têm como ligação o passado, novamente, no sentido de buscarem em cada proposta, segundo seus meios, o saber ancestral que se une à cultura digital.
O festival
O festival internacional Tropixel teve a ideia de ser uma espécie de jardim, diferente do jardim do herói ateniense, Academo. Há plantas, mas há também biosensores, redes de informação, linhas de código, ferros de soldar. Uma miríade de objetos, pessoas e ideias. No meio desses fluxos, há o diálogo com a etnomatemática.
Dos três eixos do festival: ambientes, pessoas e coisas, os entrecruzamentos de saberes, tecnologias e artes são evidentes. Ainda que não sistematizadas, as rela- ções entre o pensamento numérico, a consciência histórica e a identidade étnica são elementos que formam a base das discussões acima colocadas. Isso pôde ser observado, por exemplo, na cultura digital, que foi uma ponte mais explicita com a matemática e possibilitou discutir o acesso à produção do código de máquina.
O movimento que surge com os usos culturais da tecnologia digital é de que o novo, nessa perspectiva do festival para o uso das tecnologias digitais, não apenas
se aproxima do tradicional, mas faz, de fato, um caminho hibrido, não de volta, mas de coexistência. Os usos culturais que o festival permitiu − a construção de mapas, rotas urbanas de ciclismo, sensores digitais, dentre muitas outras ações − são rela- cionados à divisão de saberes e à consciência de que usos numéricos nessas situa- ções são, além de formas de linguagem, meios de empoderamento social.
Disse no início que minha proposta não chegou a ser realizada. Um dos motivos pelo qual a oficina de totens etnomatemáticos no Quilombo da Fazenda não ocorreu foi pela reativação do laboratório comunitário de computadores, tendo ocorrido em um período de férias, onde as escolas não funcionavam e não foi possível contatar a tempo professores e alunos.
Assim, dentro da proposta de incorporar saberes locais às discussões sobre arte e ciência, como usos da tecnologia, tal oportunidade foi muito importante para saber, de modo empírico, o que as concepções sobre a matemática representavam para os adolescentes que estavam no local.
Falar de educação a partir de um festival que privilegiou o informal, o espon- tâneo, tem o propósito de colocar a discussão do que significa aprender. Segundo a formação cultural de cada povo, há distintos momentos para se tomar consciência de certas práticas, no caso dessa sociedade, artísticas e científicas. Há uma clara diferença entre as crianças sonas, em Angola, e os gráficos que elas produzem na areia, e as mesmas formas geométricas feitas a partir das teorias topológicas atuais produzidas academicamente.
As práticas escolares para as comunidades quilombolas no Brasil estão regu- lamentadas de acordo com uma legislação específica. Todavia, a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola (FIABANI, 2013) segue as orientações das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. Conforme foi argumentado, a legislação brasileira tem para a matemática uma postura de respeito à diversidade cultural, nesse caso, os povos indígenas e os africanos. No entanto, a visão predominante de que falta às culturas não europeias é uma noção de uso numérico próprio, uma etnomatemática não é feita com exem- plos concretos dentro do currículo.
O Brasil é um país com alta proporção de descentes dos povos africanos escra- vizados. Tal realidade é percebida em diversos aspectos culturais. Todavia, os mais destacados, e não raro mal-interpretados, são as práticas culinárias e religiosas. Toda uma discussão poderia ser feita sobre a etnoquímica, etnocomputação e todo e qualquer aspecto cultural que envolva arte e ciência através das práticas socialmente
reconhecidas como tais. A despeito de toda a história da música no Brasil contar com elementos africanos, saberes numéricos não são atribuídos como pertencentes aos descendentes dos povos que produzem esse conhecimento musical.
A colaboração de países como Angola e Moçambique, os quais têm uma forte ligação com o Brasil por terem sido locais do tráfico escravocrata, poderia ser de grande importância se exemplos como os exercícios do povo Sona sobre topologia, ou a geometria do povo Cokwe, ou grafismo Lunda pudessem ser ensinados.
Uma observação sobre a denominação dos povos que habitam o continente americano é a indiscreta forma como são referidos. O nome do navegador Américo Vespúcio, bem como seu erro em denominar os habitantes daqui pelos da Índia, permanece como a norma. Esse tipo de costume não poderá ser modificado e, assim, apaga nomes e identidades todas as vezes que for pronunciado.
Esse tipo de apagamento também ocorre com saberes dos povos africanos toda vez que os agrupamos por um índice visual. A cor da pele, embora reconhecível, não pode ser tomada com um critério de tecnologia dos povos africanos. Como foi mencionado, o fato de a maioria dos povos não utilizarem a escrita não os impedem de somar cerca de 2500 línguas. Tal variedade, para além da riqueza de expressões reflexões humanas, reflete, também, as decisões que cada povo teve ao longo de sua história.
São vários os exemplos da literatura que mostram que os sistemas numéricos não têm uma uniformidade linguística. Isso pode sugerir que, mais importante do que a norma, iniciativas como as do festival podem despertar hábitos que até então, antes do contato sob a ótica de apropriação crítica da tecnologia, não podiam ser experimentados. As oficinas de tecnologias livres, laboratórios e conversas serviram para que pudesse mostrar facetas desses assuntos diversos: ecologia, gênero, urba- nismo, gastronomia, governo, artes, educação, economia, religião, etc.
Dizer que a matemática está em todas as atividades, ou mais em umas que outras, não é o mesmo que dizer que a consciência das práticas numéricas está junto da consciência cultural. Observar criticamente a história é o melhor instru- mento conceitual para que propostas de ação como a do festival Tropixel permitam experiências livres de muros, sementes de conhecimentos abertos.
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