Os dados qualitativos oriundos das entrevistas foram submetidos à Técnica de análise de conteúdo (critério semântico). Essa técnica permite compreender, criticamente, o sentido das comunicações, bem como o seu conteúdo explícito ou não. A análise de conteúdo constitui um “conjunto de instrumentos metodológicos” úteis na análise das comunicações, sendo que o processo de análise pode oscilar entre o “rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade” (BARDIN, 1977, p. 9).
A hermenêutica foi um dos primeiros campos a utilizar esta técnica. Sua apropriação no campo científico deu-se devido a sua aplicabilidade suscitada no rigor científico e por possibilitar identificação do real sentido da comunicação. A análise de conteúdo “pode ser usada como um procedimento metodológico, como uma técnica ou até como várias técnicas, para o estudo dos mais diversificados campos das ciências sociais”. Bardin, uma das principais estudiosas da análise de conteúdo, tem utilizado a técnica em investigações psicossomáticas e nas pesquisas que englobam comunicações de massa (COUTINHO, 2011, p. 20).
Para Bardin (1977, p.47), o tratamento e a análise dos dados, realizados através da técnica de análise de conteúdo
sugere três pólos cronológicos paras a aplicação: a) pré-análise (que consiste na realização de sucessivas leituras do material com o objetivo de familiarizar-se com os depoimentos); b) exploração do material (quando as subcategorias e categorias são compreendidas e destacadas dos discursos); c) análise e interpretação dos dados (quando, de posse dos depoimentos de conteúdos mais predominantes, busca-se fazer as inferências e interpretações).
A análise de conteúdo pode ser utilizada tanto na abordagem quantitativa quanto na qualitativa. Na primeira, o(a) pesquisador(a) estará interessado(a) nos
dados estatísticos, quantificáveis através das frequências identificadas nas unidade de registro. A abordagem qualitativa deve contemplar: descrição, inferência e interpretação (COUTINHO, 2011).
A descrição está relacionada às características textuais, que deverão ser resumidas após tratamento inicial. A inferência consiste na “atribuição de sentido às características dos enunciados que foram levantados, enumerados e organizados”. A interpretação busca dar significação as características identificadas. Destas três etapas, a inferência, que se encontra entre a descrição e a interpretação, constitui o momento principal no qual o(a) pesquisador(a) deverá evidenciar seu domínio ao aporte teórico/metodológico e sua experiência. Este é o momento de revelação da “arte do pesquisador” (COUTINHO, 2011, p. 23).
Segundo Oliveira (2008), existem alguns conceitos-chaves que sustentam a realização da análise de conteúdo no sentido de poder instrumentalizá-la:
- Objetivação: a análise realizada pelo(a) pesquisador(a) deve ser clara e precisa, permitindo que outras pessoas possam realizar a mesma decomposição;
- Sistematicidade: deve ser considerado e analisado todo o conteúdo relacionado ao problema estudado e não apenas os relacionados com as teses do(a) pesquisador(a);
- Conteúdo Manifesto: requer não consideração das ideias e preconceitos que o(a) pesquisador(a) possui. A análise deve abordar, somente, os conteúdos manifestos;
- Unidades de Registro (UR): constitui os recortes necessários para segmentação do conjunto que irá fundamentar a análise do texto. A UR pode ser, desde uma palavra, até um parágrafo inteiro;
- Unidades de Contexto (UC): são unidades que possibilitam o entendimento da unidade de registro,possuindo dimensões maiores que esta;
- Construção de Categorias (CC): consiste em agrupar e reagrupar, a partir de um conjunto de critérios. Constituem classe que agrupa um conjunto de elementos com características comuns. Procura trazer uma nova organização, feita intencionalmente, as mensagens distinguindo-as do universo inicial;
- Análise Categorial (AC): Permite a classificação dos elementos significantes que constituem as mensagens. Procura considerar a totalidade do texto analisado;
- Inferência: constitui uma operação lógica a qual permite abordagem de uma proposição, desde que esteja relacionada a outras já aceitas como verdadeiras;
- Condições de Produção (CP): constitui-se da compreensão superficial dos textos, bem como, dos fatores que promoveram estas características, deduzidas de forma lógica, pelas correspondências existentes entre as estruturas semânticas ou linguísticas e as estruturas sociológicas ou psicológicas que integram os enunciados.
Nesta pesquisa, a análise de conteúdo seguiu as seguintes etapas:
1. Pré-análise: nesta etapa procurou-se colocar em ordem as ideias iniciais, que possibilitaram uma visualização simplificada do plano de análise a ser operacionalizado;
2. Leitura flutuante (constituição do corpus: dados oriundos de cinquenta TALP e cinquenta entrevistas). As leituras iniciais foram importantes para a aproximação com os dados levantados e para identificação dos materiais que pudessem fornecer informações sobre os assuntos a serem analisados;
3. Organização das informações levantadas. Registrada a primeira pergunta com apresentação sequencial de todas as respostas emitidas. E assim sucessivamente;
4. Leitura exaustiva, visando explorar o material oriundo das entrevistas;
5. Preparação do material: recorte e eleição das unidades de análise;
6. Elaboração de blocos de respostas por aproximação de conteúdos;
7. Recorte, classificação e codificação;
8. Elaboração das categorias e subcategorias.
A realização da análise temática de conteúdo possibilitou identificação dos núcleos de sentido que compuseram as comunicações a partir das significações existentes entre as falas e o objeto analítico usado.
em termos de aplicação, a análise de conteúdo permite o acesso a diversos conteúdos, explícitos ou não, presentes em um texto, sejam eles expressos na axiologia subjacente ao texto analisado; implicação do contexto político nos discursos; exploração da moralidade de dada época; análise das representações sociais sobre determinado objeto; inconsciente coletivo em determinado tema; repertório semântico ou sintático de determinado grupo social ou profissional; análise da comunicação cotidiana, seja ela verbal ou escrita, entre outros.
A realização da análise de conteúdo seguiu as fases recomendadas por Bardin (1997), conforme apresentado na figura a seguir.
FIGURA 2 - Plano de análise, Salvador-Bahia, 2013
P L A N O D E A N Á L I S E Pré-análise e construção dos corpus
Leitura flutuante:
leitura superficial das falas oriundas das entrevistas
Codificação:
Decomposição dos corpus e codificações das temáticas
Enumerações das unidades de análise
Elaboração/descrição das categorias e subcategorias
Interações com as representações sociais do cuidado e do HIV/AIDS
Na pré-análise/constituição do corpus procurou-se levantar os materiais a serem analisados, retomada a comparação dos objetivos da pesquisa com os dados levantados. Na constituição do corpus, organizou-se o material de tal maneira que permitisse identificação de respostas fundamentadas no conhecimento científico.
Na leitura flutuante, realizou-se leitura superficial das falas oriundas das entrevistas, no intuito de se deixar impregnar pelo conteúdo das falas e, posteriormente, proceder à leitura exaustiva, mais sugestiva, capaz de possibilitar novos olhares para o fenômeno estudado. Na codificação buscou-se transformar os dados brutos de modo que permitisse alcançar o núcleo de compreensão do texto. Assim, procederam-se os recortes do texto em unidades de registro, procurando seguir o que foi planejado na pré-análise. Em alguns momentos, por utilizar multitécnicas de análise, foram considerados aspectos quantitativos para classificação e agregação dos dados. Desta forma, foram elaboradas tanto categorização teórica quanto com base empírica nas apresentações das temáticas.
Na elaboração/descrição das categorias e subcategorias, procurou-se abranger elementos que estão correlacionados. Assim, ideias ou expressões foram agrupadas em uma categoria/subcategoria que permitisse abranger todo o conteúdo, procurando trabalhar com os significados do que foi apreendido.
Posteriormente, buscaram-se interações com as representações sociais do cuidado e do HIV/aids, por reconhecer suas contribuições na percepção da realidade que permeia o cotidiano das pessoas que vivem com o agravo, oportunizando explicar, justificar e, em alguns momentos, questionar essa realidade.