De início, chama atenção a diferença entre a língua falada pelos ítalo-paulistas e a de seus pais italianos. Uma das marcas da escrita de Alcântara é a reprodução da oralidade dos diálogos descritos. Via de regra, em seu livro o nativo da Itália traz fortes marcas da língua italiana no seu modo de falar, enquanto o filho do italiano fala o português brasileiro. A expressão mais evidente desta diferença está em Nacionalidade, o conto que encerra Brás,
Bexiga e Barra Funda. Ele narra a história do barbeiro Tranquilo Zampinetti, um italiano
radicado no Brás que trabalhava na rua do Gasômetro, na região do Mercado Municipal de São Paulo. Um dos traços marcantes de sua personalidade era uma exaltada paixão pela Itália, acompanhada pelo desejo de voltar para a terra natal. Seu fanatismo era frustrado pela recusa da língua italiana por parte de seus filhos:
Mas tinha um desgosto. Desgosto patriótico e doméstico. Tanto o Lorenzo como o Bruno (...) não queriam saber de falar italiano. Nem brincando. O Lorenzo era até irritante.
— Lorenzo! Tua madre ti chiama! Nada.
— Tua madre ti chiama, ti dico! — Inútil.
— Per l'ultima volta Lorenzo! Tua madre ti chiama, hai capito? Que o quê.
— Stai attento que ti rompo la faccia, figlio d'un cane sozzaglione, che non sei altro! — Pode ofender que eu não entendo! Mamãe! MAMÃE!
MAMÃE! Cada surra que só vendo.65
Outro exemplo flagrante de contraste entre a língua falada por pais italianos e por filhos ítalo-paulistas é o diálogo de Lisetta com sua mãe, dona Mariana :
— Olha o ursinho que lindo, mamãe! — Stai zitta!
jogadores ítalo-paulistas); Notas Biográficas do Novo Deputado, que fala sobre a adoção de um ítalo-paulista órfão, pelos seus padrinhos, patrões de seu falecido pai; O monstro de rodas, que fala sobre a comoção de uma família ítalo-paulista após a morte de uma criança, atropelada por um rapaz rico da elite paulistana; Armazém
Progresso de São Paulo, que fala sobre a vida trabalhadeira de um casal de ítalo- paulistas donos de um armazém,
numa narrativa que se encerra no anticlímax de sua possível ascensão social, proporcionada por uma informação privilegiada a respeito do fornecimento de cebolas; Por fim, Nacionalidade, que fala sobre um barbeiro que torna- se cabo eleitoral do Partido Republicano Paulista, saudoso a Itália, cujos filhos lhe davam desgosto por não querer saber das coisas desse país. Quando um de seus filhos se formou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sua primeira ação como advogado foi providenciar naturalização de seu pai, então afastado de sua visão patriótica e saudosista da Itália.
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— As patas também mexem, mamã. Olha lá! — Stai ferma!
— Deixa pegar um pouquinho, um pouquinho só nele, deixa?
— Ah! — Scusi, senhora. Desculpe por favor. A senhora sabe, essas crianças são muito levadas. Scusi. Desculpe.
(...)
Dona Mariana, escarlate de vergonha, murmurou no ouvido da filha: — In casa me lo pagherai!66
Há outros exemplos, como a mãe do protagonista do conto Gaetaninho : “- Eh! Gaetaninho!Vem pra dentro! (...) Subito!”; o do tripeiro Giuseppe Santini, em Carmela: “-
Spengni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!”; o do Cav. Ufficiale
Salvattore Melli, do conto A Sociedade: “— Parlo assim para facilitar. Non é para ofender (...) Domani, dopo domani, na outra semana, quando quiser. lo resto à sua disposição”. Os filhos de italianos não reproduzem o idioma de seus pais. No máximo, de maneira indireta, aparece algum italianismo em sua fala. É o caso que se observa no conto Gaetaninho, quando se fala da repercussão da morte do personagem principal, por atropelamento: “— Sabe o Gaetaninho? (...) Amassou o bonde!”. Uma vez que há impacto entre o corpo de Gaetaninho e o bonde, “amassar” pode ter o sentido imediato que captamos em português. No entanto,
amazzare em italiano significa “morrer”, portanto a menção poderia também ser um
italianismo usado pelas crianças que contavam umas às outras que Gaetaninho fora morto pelo bonde.67 Outro caso de italianismo em filhos de italianos está em Carmela: Bianca usa
a palavra “máquina” como sinônimo de carro, e usa a expressão “andiamos”, como sinônimo para “vamos” – o plural da língua portuguesa é aplicado aqui ao vocábulo que em italiano seria “Andiamo”. Pequenos italianismos, incidentais, símiles da gíria, em contraste com o restante da fala das personagens que os enunciam, não nos parecem relevantes para serem tomados como sintoma de dificuldades de integração destas personagens.
Sobre os italianos radicados na capital paulista, uma exceção em relação ao conjunto dos contos aparece em Armazém Progresso de São Paulo. Os personagens Natale Pienotto e Dona Bianca, provavelmente italianos, falam português sem italianismos óbvios. Mesmo em diálogo com a dona Bianca, na intimidade do quarto, a conversa corre em português:
Natale entrou.
— Vem aqui no quarto. Natale foi meio desconfiado.
— Que é?
66MACHADO, A de A.1927 Op. Cit. 67MACHADO, A de A.1927 Op. Cit.
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Bianca quando dava para falar era aquela desgraça.
— José Espiridião, o mulato, o do Abastecimento, ora, o da Comissão do Abastecimento...
— Já sei. ... estava ali no quintal assistindo a uma partida de bocce. Conversando Com o Giribello, o sapateiro, o pai da Genoveva...
— Já sei.68
Outra possível exceção encontra-se em O monstro de Rodas, quando vemos Dona Nunzia lamentando a morte de sua filha usando a expressão “— Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora”, e depois “- que linda que ela era”. Não temos marcadores o suficiente para afirmar se D. Nunzia era nascida ou não na cidade de São Paulo.
Assim, mesmo com as exceções apontadas, de forma geral observa-se que António de Alcântara Machado escolhe representar os filhos de italianos nascidos em São Paulo como personagens que falam português, o que pode ser entendido como um indício de sua integração ao local de nascimento. Há outras dimensões da integração do ítalo-paulista narradas ao longo do texto, como, por exemplo, a do relacionamento entre personagens ítalo- paulistas com não descendentes de italianos. É o caso descrito em Carmela e também em A
Sociedade.
1.2.1.2. “Do consórcio com a gente indígena”: ítalo-paulistas” e “nativos”
No conto Carmela, a protagonista flerta com um paulista que dirige um carro moderno. Aceita dar uma volta de carro com ele, com a condição de que sua amiga Bianca os acompanhasse. Convidada para um segundo passeio, Carmela aceita sair a sós com o paulista. Antes de ir para o segundo encontro, a protagonista é retratada em sua casa lendo um romance de cavalaria, com castelos e heróis a cavalo. É insinuado que Carmela teria começado a ver o cavalo do príncipe se transformando num carro e o castelo numa igreja, o que é abruptamente interrompido pelo grito do pai ordenando sua filha a apagar a luz. Carmela chama Bianca para um passeio, para despistar seus pais, e pouco antes de chegarem ao carro do paulista pede que ela a espere voltar para o ponto de encontro - a Igreja de Santa Cecília. Bianca então anda pela cidade enquanto espera, “imaginando cousas”, até encontrar uma colega e “dizer tudo” para ela. Quando questionada sobre o que seria do relacionamento de Carmela com Ângelo - um ítalo-paulista pertencente à mesma classe social que Carmela,
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que também flertava com ela -, Bianca responde que o Ângelo era outra coisa, que “ele era para casar”. Bianca, portanto, apresenta a relação entre Carmela e o paulista como uma aventura, sem futuro. A natureza do relacionamento entre Carmela e o paulista fica em aberto. No entanto, como a última fala do conto é a da conversa em que Bianca insinua que Carmela estava em uma aventura amorosa, uma ideia que fica insinuada ao final da leitura é a de que Bianca tenha a função de revelar ao leitor o contraste da fantasia de Carmela com uma visão pragmática e provavelmente realista deste relacionamento entre uma ítalo-paulista modesta e um paulista abastado.
O outro conto que fala do envolvimento entre ítalo-paulistas e nacionais estabelecidos há gerações é A Sociedade. A narrativa começa mostrando o conflito vivido por Teresa Rita, filha do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda, que, para desgosto e oposição de sua mãe, se apaixonara pelo filho do Cav. Uff. Salvatore Melli, novo rico, ex- comerciante. Alcântara estrutura o texto de modo que se entenda que a tradicional família paulistana do Conselheiro teria cedido a mão de sua filha para seu amado Adriano Melli - o filho do Cav. Uff. em questão -, em decorrência da proposta de investimento financeiro por parte de Salvatore em um terreno herdado por José Bonifácio. Aqui há a união entre ítalo- paulistas e uma família tradicional paulista mediada por interesses mútuos: juntam-se o capital do novo rico Salvatore Melli e a inserção social oferecida pelo nome da família tradicional e decadente do Conselheiro José Bonifácio. O relacionamento afetivo entre paulistas e não paulistas, neste conto, acompanha a integração econômica dos ítalo-paulistas às estruturas tradicionais de poder, que não detinham capital, mas trânsito político e propriedades. O convite de núpcias que encerra a história, reproduzido integralmente no conto, indica 19 de fevereiro de 1927 como data do enlace. A partir desta observação, nos interessa tecer uma pequena reflexão sobre datas e referências históricas mobilizadas por Alcântara e sua relação com a questão da integração
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