1. INTRODUCTION
1.1. Background
Acompanhei também a oficina ministrada pelo mestre Felipe de Riachuelo. Em minhas visitas feitas a residência do mestre no sítio Lagoa do Sapo para conversarmos sobre o teatro e, algumas vezes, para assistir suas apresentações, ele me falou que participou do edital do Ministério da Cultura, edição Leandro Gomes de Barros, 2017, e ele que havia sido contemplado com o prêmio de R$ 10.000,00. Perguntei de que se tratava o projeto dele. Ele me informou que iria realizar um antigo sonho dele, formar novos brincantes. Falou que sempre se preocupou em conseguir aprendizes que venham a dar continuidade ao teatro de João Redondo, pois ele e seus amigos brincantes de João Redondo já estavam bastante velhos. Comentou:
Hoje é muito difícil ter jovens que queiram brincar com os bonecos. Eles só querem saber de televisão, videogame, celular. Não se importam com os bonecos, muitos torcem o nariz. Eu me preocupo com isso, com a continuidade do João Redondo. Nós já tá tudo velho. Eu, Raul, Tio João, João Viana. E tantos aí. Se não formar novos brincantes de João Redondo a brincadeira se acaba. Eu vou fazer uma oficina para ensinar mais gente. Esse é o meu sonho, formar mais brincantes. Mas eu vou fazer uma oficina completa, desde fazer o boneco até botar o boneco. Tinha duas meninas aí que tinha assim um interesse, mas agora cresceram e não querem mais. Eu tenho a vontade de ensinar, mas preciso de quem quer aprender. Aqui pela comunidade já olhei e não achei ninguém. Não querem!
O mestre Felipe de Riachuelo me convidou para acompanhar a oficina e me pediu para filmar e fotografar enquanto eu observava. No primeiro dia da oficina ele me apresentou os seus aprendizes: Erinaldo (43 anos), Alyana (32 anos), Yasmin (17 anos) e Pedro Paulo (16 anos). Todos já haviam assistido ao teatro de João Redondo feito por Heraldo Lins. Erinaldo conhecia também o teatro feito pelo mestre Francisquinho e mestre Alisson. Alyana disse que já havia assistido o mestre Felipe de Riachuelo em uma apresentação. Demonstraram encantamento com os bonecos e vontade de fazer o teatro.
A oficina iniciou com os aprendizes muito atentos a tudo o que o mestre Felipe de Riachuelo falava e demonstrava. Erinaldo, enquanto esculpia a sua primeira cabeça em madeira mulungu, comentou a todos: “Quando eu for fazer as minhas apresentações eu sempre vou começar dizendo com quem eu aprendi, com o mestre Felipe de Riachuelo”. O mestre o apoiou dizendo: “Isso mesmo. Você tem que dizer como começou. As pessoas precisam saber que você aprendeu com um mestre da tradição. Isso vai fazer as pessoas acreditar no seu teatro”.
A fala de ambos apenas reforçou a ideia de tradição como uma continuidade do passado. Algo que precisa estar presente na produção de elementos na atualidade como forma de legitimação de uma manifestação da cultura popular. Uma permanência do passado no presente, uma sobrevivência da obra criada, o legado de uma época. A tradição seria então o antigo persistindo no novo, concedendo-lhe credibilidade e sentido. Lembrando que o passado não é requisitado no presente em sua totalidade, mas sim pensado e selecionado a partir de um posicionamento do sujeito. A noção de tradição evoca a ideia de certo modo de transmissão, uma vez que é assim que ela se movimenta através do tempo e espaços. Como diria Lenclud (1987), “La tradition serait l’absence de changement dans um contexte de changement”. (a tradição seria uma ausência de mudança num contexto de mudança).
Imagem 32 – Erinaldo, Iasmyn e Pedro Paulo durante oficina com o mestre Felipe de Riachuelo.
A oficina foi dividida em etapas. No primeiro dia, 20 de maio de 2018, o mestre ensinou como cortar a madeira usando ferramentas improvisadas. Pediu para que cada um esculpisse uma cabeça durante a oficina e forneceu madeira para que eles fizessem outra cabeça em casa. Orientou-os para que em casa usassem DUREPOX para avolumar os detalhes do rosto. O mestre explicou aos seus alunos:
Eu faço os meus bonecos em madeira. Uso tanto a imburana como o mulungu. Mas tem brincante que faz com outras coisas, como Heraldo Lins, que faz com papel machê. E tem gente que faz até com plástico de garrafas. O boneco tradicional é de madeira, não de outros materiais, não. A tradição é em madeira, em pau mesmo. E o melhor é quando se faz todos os detalhes na própria madeira mesmo. Eu não sou contra os que fazem de outras coisas, não. Mas o meu tem que ser de pau mesmo, como na tradição. Porque antes era assim tudo de pau. Mas agora também a madeira está mais difícil, né? Os que vivem na cidade tem dificuldade de conseguir a madeira, talvez por isso eles
usem papel e plástico. Eu vou ensinar vocês como se faz na tradição, cabeça de madeira mesmo.
A fala do mestre cofirmou mais uma vez o seu apego aos elementos da tradição e a sua preocupação em transmiti-los da forma como eram utilizados outrora. A tradição se manifesta como um marco que aponta para onde o aprendiz deve caminhar e como deve utilizar o que aprendeu mantendo sempre suas amarras bem presas ao passado. Há uma vontade de tornar os elementos tradicionais permanentes dentro do teatro de João Redondo do RN por parte do mestre Felipe de Riachuelo que não desconsidera quem faz diferente.
No segundo dia da oficina, em 24 de junho de 2018, o mestre ensinou a pintar as cabeças, a cortar e costurar o tecido para o camisolo dos bonecos, como fazer os bracinhos e mãos do boneco, falou sobre as loas que ele conhecia, tanto as utilizadas por ele como as que outros mestres utilizam. Contou alguns casos interessantes que lhe aconteceram durante suas apresentações e falou algumas passagens que são consideradas pesadas nos dias de hoje e que ele raramente coloca em suas apresentações, somente quando é solicitado. Naquele dia à tarde, chegaram ao sítio o mestre Heraldo Lins, o professor Andre Carrico, o seu bolsista Wandeson Alves de Oliveira e a Dra. Graça Cavalcanti para uma apresentação que o mestre iria fazer logo mais a noite junto com o mestre Heraldo. À noite, o acompanhamos ao local onde iria acontecer a apresentação, no Bar do Zuza, na Serra da Melosa. Era uma ótima oportunidade de seus aprendizes vivenciarem o teatro de dois mestres diferentes, um que busca trabalhar o teatro mais calcado na tradição e outro que busca inovar e se ajustar aos fatores impostos pela sociedade moderna e seus contextos atuais. Fiquei encarregada de fazer os registros audiovisuais daquele encontro de mestres e plateia. Foi uma noite muito proveitosa para mim, pois foi possível sentir e vivenciar uma apresentação do teatro de João Redondo como acontecia em épocas passadas. Uma brincadeira feita dentro da comunidade do mestre para pessoas de seu convívio e que conhecem os códigos do teatro. A plateia participou com muitas gargalhadas e diálogos improvisados com os bonecos.
O mestre Felipe de Riachuelo se despediu de seus aprendizes naquele dia pedindo que eles terminassem os bonecos e começassem a pensar em alguma passagem para ensaiarem no próximo encontro com eles. Falou também da sua vontade em levar um dos aprendizes para
se apresentar junto com ele no VI Encontro de Bonecos e Bonequeiros do RN em setembro de 2018 na cidade de Currais Novos, RN. Erinaldo foi o aprendiz que se apresentou com o mestre Felipe de Riachuelo durante o VI Encontro de Bonecos e Bonequeiros do RN.
A transmissão da prática e do saber em sua forma direta oferece aproximação mais íntima entre os seus participantes: mestre e aprendiz. Essa proximidade física favorece não só o conhecimento do teatro quanto matéria palpável, mas também em sua dimensão representativa e simbólica, auxilia a compreensão dos sentidos.
4.Transmissão indireta da prática e do saber
Na forma indireta de transmissão, é possível encontrar o uso de mídias, internet, pesquisas e eventos acadêmicos entre outros. Encontrei mestres que aprenderam através de pesquisas em livros, em internet, em DVDs e estudos com o teatro de João Redondo. São formas de aprendizagem da prática e do saber bastante diferente daquela considerada modelo dentro da tradição, de mestre para aprendiz. Compreendo que a forma de transmissão da prática e do saber, que marca o início de tudo para o mestre e que pode ser o definidor do seu teatro, vem desfazendo nós atados no passado quando a transmissão se dava de forma direta e somente pela oralidade. O que podemos vislumbrar na atualidade no RN é um processo de transmissão diversificado da prática e do saber.
O contexto atual do teatro de João redondo do RN apresenta múltiplas possibilidades de aprendizagem da prática e do saber favorecendo o aprendiz, que pode se tornar um pesquisador e que procura aprender sem ter necessariamente uma necessidade de contato pessoal com um mestre. A internet e o uso de DVDs são fatores novos que se incorporam na dinâmica da transmissão e compartilhamento da prática e do saber do teatro, favorecendo o aprendizado e que findou por acrescentar novas reflexões e análises em meu processo investigativo sobre o teatro de João Redondo do RN.
A internet, mais especificamente o youtube, foi um fator que surgiu durante a minha pesquisa de campo por acaso, mas que me fez ampliar o meu olhar e refletir sobre o quanto
este saber da tradição já se enredou pelas linhas que costuram a internet, seguindo caminhos, deixando rastros, atando nós, bordando paisagens e figuras que se estendem ao mundo. Um saber que se liberta de suas amarras e que se aventura a romper tempos e espaços, se arriscando a interpretações múltiplas e a traduções variadas, dependendo do olhar, experiências e subjetividades de quem entrar em contato virtual com ele podendo resultar numa prática e num saber construído na releitura da tradição. A questão é saber que teatro pode estar se formando neste novo processo de transmissão da prática e do saber?
A sociedade atual é a sociedade das urgências, da efemeridade, marcada pela descentralização do sujeito, como enfatiza Stuart Hall (2002). Na sociedade atual, as mudanças são aceleradas e constantes se comparadas às sociedades tradicionais, quando havia uma maior veneração pelo passado seus símbolos e valores. Não que hoje não haja tal veneração, sim, ela ainda existe, mas em menor profundidade e muitas vezes, imperceptível. Porém, se a tradição, seus sentidos e valores simbólicos ainda persistem nesta sociedade de mudanças rápidas onde a efemeridade encontra um campo fértil para seu desenvolvimento, é porque seus elementos ainda possuem sentido para o povo. Apesar da tecnologia ditar as normas e moralidades da vida social na atualidade, ainda estamos ancorados na tradição, por precisarmos dela para nos dar segurança e legitimidade às nossas ações e crenças, por normatizar e moralizar a sociedade.
Com uma manifestação da cultura popular não é diferente. Ela, quanto cultura produção de um povo, que se transforma e se ressignifica pelas suas mãos, marcada ainda pela oralidade, têm na tradição sua matéria prima para se reelaborar a cada novidade encontrada em seu percurso. Há de se tentar entender este percurso, os elementos que se articulam relacionando o tradicional e o atual.
Carvalho (1989) considera que hoje tudo está impregnado pela cultura de massa e compreende que esta também produz cultura popular. Para ele, o importante não é tentar compreender o produto gerado pelas expressões da cultura popular, mas sim, como são concebidos, representados e utilizados por seus produtores e consumidores. Carvalho (1989, p. 25) considera que devemos levar em consideração as articulações de diversos fatores que se relacionam com a cultura popular e que podem vir a dissolver fronteiras e espaços que pertenciam exclusivamente à cultura tradicional, como: as produções culturais vinculadas à comunicação de massa, o turismo, as migrações internas e a secularização das sociedades,
colocando ao indivíduo uma gama maior de escolhas. Eu acrescentaria aqui o fator internet. Que transformação é possível perceber no processo de transmissão da prática e do saber do teatro de João Redondo com o uso da internet?
As formas de transmissão da prática e do saber do teatro de João Redondo, assim como os seus elementos, seu jeito de fazer, de negociar e meios pelos quais circula, passam por transformações muito mais aceleradas em relação ao passado. Observei que as formas de transmissão da prática e do saber não acontecem somente dentro do âmbito familiar ou com pessoas da mesma comunidade. Hoje, o saber ganha novos espaços numa sociedade em que as inovações e as transformações acontecem com velocidade; alcançando também os locais de convivência mais duradoura que ora se modificam. A transmissão do saber pode se dar num clube, numa escola, na universidade, pontos de cultura, onde houver um mestre, seu teatro e espectadores. Pode acontecer através de uma gravação em DVD, em postagens na internet, em livros e pesquisas acadêmicas, em palestras sobre o tema, em eventos nas escolas, em trabalhos produzidos por alunos, etc. Mais do que considerar modelos de transmissão cristalizados e que chegam até nós, devemos observar outros canais onde esta prática e saber estão fluindo ao interagir com outros elementos presentes na sociedade atual.
5.Observando o grupo Flor do Mandacaru
Falando em transmissão indireta da prática e do saber do teatro de João Redondo do RN, trago um relato de uma experiência vivida durante o meu trabalho de campo. Descrevo esta minha vivência na intenção de promover uma maior compreensão de uma transmissão indireta categorizada por mim e do que vem a ser uma espetacularização da cultura popular.
Acompanhei o mestre Felipe de Riachuelo em uma apresentação na cidade de Ruy Barbosa/RN, próxima a Serra da Melosa/RN. Chegamos ao local da apresentação, por volta das 19 horas, uma praça coberta, com palco construído para as festividades e eventos da cidade. O evento que estava acontecendo naquele dia era a V Mostra Folclórica promovida pela Secretaria de Assistência Social. Sentei-me em um dos bancos aguardando o início do
evento. Logo, começaram a entrar na praça pessoas que iriam assistir as apresentações daquela noite e pessoas com suas fantasias coloridas. Eram idosos fantasiados com indumentárias da dança Boi de Reis e que circulavam por ali à espera da hora da apresentação. Ao meu lado, dois senhores conversavam em voz alta quando de repente escutei um deles dizer que o grupo do qual ele era coordenador também apresentava teatro de mamulengo72. Fiquei curiosa em saber mais sobre eles e me aproximei de Cassiano Pontes para saber mais sobre o grupo. Apresentei-me a ele como pesquisadora com interesse em estudar o teatro de João Redondo.
Cassiano Pontes é coordenador do Grupo de Idosos Maria Alves da Costa do bairro de Bom Pastor na cidade de Natal/RN, que funciona no Ponto de Cultura de Bom Pastor. O grupo de idosos apresenta o Boi de Reis, a quadrilha junina e o Pastoril. Naquela primeira e rápida conversa, ele me disse que além do grupo de idosos ele coordenava outro grupo, o Flor do Mandacaru, que trabalhava com mamulengos. Como ele precisava organizar os idosos que iriam dançar, ele me deu o seu cartão de visitas e eu fiquei de procurá-lo para conhecer melhor o grupo.
Adicionei-o em minha lista de WhatsApp e comecei a trocar mensagens com ele. Pedi a ele que me avisasse da próxima apresentação que o grupo Flor do Mandacaru iria fazer. No dia 11/10/2017, recebi mensagem dele avisando que o grupo iria se apresentar no dia seguinte no Condomínio Green Life Mor Gouveia às 16h. O evento seria uma comemoração do dia das crianças.
Fui equipada com uma câmera de vídeo e uma de fotografia. Cheguei cedo ao local e procurei observar o movimento e compreender o tipo do evento. Era uma comemoração do dia das crianças. Havia palhaço, homem fantasiado de Mickey, um animador de festa, guloseimas, brinquedos e muitas crianças, claro. Os adultos também se encontravam em bom número. Enquanto o grupo montava a tolda e arrumava os bonecos, procurei conversar com alguns integrantes do grupo Flor do Mandacaru. Falei primeiro com Jaqueline Mendonça, que me deu algumas informações sobre a formação do grupo, processo de aprendizagem, construção do teatro e de como começaram a fazer o teatro de mamulengos.
Jaqueline Mendonça ajuda o grupo, mas não bota bonecos. Passou-me algumas informações que foram confirmadas posteriormente por Cassiano Pontes. Disse-me que o grupo pertence ao Ponto de Cultura de Bom Pastor/Natal/RN e que eles construíram o teatro de mamulengos deles a partir de uma demanda do Edital do SESC/Natal/RN, no ano de 2016. O grupo foi premiado com o edital e depois de cumpridas as obrigações com ele continuaram a utilizar o teatro em apresentações. O projeto deles consistia em fazer 22 apresentações em escolas públicas com fins didáticos.
Perguntei a Jaqueline como eles haviam aprendido a fazer o teatro, se já o conheciam antes do edital. Ela disse que o Cassiano Pontes conhecia o teatro de Chico Daniel, mas que ela e seus dois amigos, que colocam os bonecos, não tinham conhecimento:
Quando elaboramos o projeto para concorrer ao edital, nós fizemos pesquisa na internet e Cassiano Pontes deu algumas dicas de como era o teatro, quais os seus personagens centrais e como eles falavam. Fomos pesquisando tudo o que aparecia na internet e fizemos o nosso. Desde então estamos apresentando. No nosso teatro não tem palavrões, foi uma exigência do SESC na época. O mamulengo mesmo, o original, tem palavrões, nós vimos nas pesquisas. Mas o nosso não. Nós apresentamos para crianças.
Percebi que a forma de aprendizado do grupo era diferente daquelas que encontramos comumente neste tipo de teatro. Eles aprenderam não na experiência com o teatro, mas na visualização de vídeos e escrituras sobre o teatro na internet. Não por empatia com o teatro, mas por uma necessidade de atender a um edital de uma instituição. Eu estava ansiosa para ver a apresentação e observar os elementos do teatro que eles estariam utilizando.
Quando terminei de conversar com Jaqueline, os dois membros do grupo que entram na tolda e botam os bonecos já haviam terminado de montar a tolda e organizar os bonecos. Conversei então com eles. Diogo Mateus Lopes da Silva e Alexsandro Rodrigues da Silva confeccionaram os bonecos e atuam com eles. Quem os ensinou a confeccionar os bonecos foi um senhor chamado Lavoisier, que mora no bairro das Rocas, Natal/RN, é artista plástico e restaurou a escultura de Iemanjá da praia do Meio. Alexsandro é coreográfo, dançarino e arte
educador, pedagogo e professor. Diogo escreveu todo o texto que ambos falam decorado durante a apresentação. Assisti a apresentação e combinei de encontrar novamente com Cassiano e o grupo. Marcamos para nos encontrar na Associação dos Idosos em Bom Pastor.
Em nosso encontro na Associação de Idosos de Bom Pastor, Cassiano Pontes fez uma rápida trajetória sobre o grupo Flor do Mandacaru. O interesse em trabalhar com o TBPN surgiu da mesma forma que das demais expressões da cultura popular que eles fazem: vontade de trabalhar a cultura popular. A primeira peça que fizeram foi A Princesa de Bambuluá. Nesta peça, os personagens que caracterizam o teatro de TBPN não se fizeram presentes. A peça era linear com começo, meio e fim. Um enredo a ser desvendado no final. Um boneco maior ia narrando a historinha enquanto os outros atuavam. Não assisti a peça, mas pela descrição dele se trata de um teatro de bonecos comum, sem as características que dão identidade ao TBPN.
Observei que a tolda construída por eles se aproxima muito mais dos modelos de toldas utilizadas em Pernambuco pelos mamulengueiros. Aqui no RN, a tolda simples, sem estrutura acima dos bonecos, é mais comum. O grupo iniciou a apresentação seguindo uma sequência de entradas dos bonecos, que é fixa, segundo me relatou Cassiano Pontes em nossas conversas. O texto foi todo escrito com fins didáticos deixando espaço para a inserção de algum tema solicitado pelo contratante. A improvisação das falas é pobre e quase não acontece.
A apresentação começou e a plateia se acomodou como pôde sentando-se no chão ou ficando em pé mesmo. Os personagens Baltazar, João Redondo, o boi e uma boneca fizeram parte da apresentação. Depois de 20 minutos de apresentação as crianças começaram a