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O que caracteriza uma obra como romance de formação? De acordo com Bakhtin (2011), são bastante heterogêneas as obras que se enquadram nesse estilo de romance90.

90De acordo com Bakhtin (2011, p. 217-

chamada romance de educação (Erziehungsroman ou Bildungsroman). Aíse costuma incluir (em ordem cronológica) os seguintes protótipos básicos dessa modalidade de gênero: Ciropédia de Xenofonte (Antiguidade), Parzival e Wolfram von Eschenbach (Idade Média), Gargântuae Pantagruel de Rabelais,

Simplicissimus de Grimmelshausen (Renascimento), Telêmaco de Fénelon (Neoclassismo), Emílio de

Rousseau (uma vez que nesse tratado de pedagogia existe um considerável elemento de romance0, Agathon de Wieland, Tobias Knaut de Wetzel, Biografias em linha ascendente de Hippel, Wilhelm Meister de Goethe (os dois romances), Titã de Jean Paul (e alguns outros romances seus), David Copperfield de Dickens, O pastor da fome de Raabe, Henrique, o Verde de Gottfried Keller, O felizardo Pierre de Pontoppidan,Infância, Adolescência e Juventude de Tolstói, Uma história comum e Oblômov de

Algumas são de natureza biográfica, outras enfatizam a ideia puramente pedagógica de educação do homem, outras levam em conta o aspecto cronológico pelo qual passa a personagem em detrimento do enredo e das aventuras. Contudo, em todas, há uma personagem central que, ao longo de sua trajetória, exibe o desenvolvimento de sua formação. Conforme ainda nos esclarece Bakhtin (2011), o tipo dominante desses romances de formação se caracteriza pela imutabilidade da personagem, com a imagem da personagem pronta. Caso ocorra algum movimento, esse se dá no aspecto da hierarquia social, por exemplo, de miserável ele se torna rico. O que evidencia que são os elementos da vida que o rodeiam, que sofrem variação, já a personagem permanece constante. No entanto, há também, ainda segundo esse autor, outro tipo de romance que não é predominante, mas que produz a imagem do homem que, por meio dos eventos que lhe ocorrem, se modifica, se transforma. De modo que a grande variável na trama é o personagem:

O próprio herói e seu caráter se tornam uma grandeza variável na fórmula desse romance. A mudança do próprio herói ganha significado de enredo e em face disso reassimila-se na raiz e reconstrói-se todo o enredo do romance. O tempo se interioriza no homem, passa a integrar a sua própria imagem, modificando substancialmente o significado de todos os momentos do seu destino e da sua vida. Esse tipo de romance pode ser designado no sentido mais amplo como romance de formação do homem (BAKHTIN, 2011, p. 219-220, grifos do autor).

Esse estilo de romance de formação (Bildungsroman) pode ser encontrado entre os autores do fim do século XVIII e início do XIX, principalmente no romance Os anos

de aprendizado de Wilhem Meister de Goethe91. Esse tipo, ao nosso olhar, se aproxima mais da perspectiva apresentada em Assim falou Zaratustra92. Nessa concepção, o que

Gontcharov, Jean-Christophe de Romain Rolland, Os Buddenbrook e A montanha mágica de Thomas

91 Bisldungsroman, nesse subgênero narrativo que tem seu modelo no

Wilhelm Meister, de Goethe, e que se apresenta como o relato exemplar do processo pelo qual um indivíduo singular, em geral um homem jovem, de boa família, terminados os seus estudos, abandona sua própria casa junto com o destino que lhe está previsto e viaja até si mesmo, até seu próprio ser, em um itinerário cheio de experiências, um uma viagem de formação que reproduz o modelo da escola da vida ou da escola do mundo. Essa viagem é, também e ao mesmo tempo, uma viagem interior de autodescobrimento, de autodeterm

92De modo análogo ao romance de formação, Julião (2011) interpreta a obra Assim falou Zaratustra como

prevalece é a mudança, a transformação do herói que, mediante sua trajetória trágica na experimentação da vida, se educa, torna-se o que se é. Nesse sentido,

Assim falou Zaratustra narra a história do aprendizado de Zaratustra trágico que segue uma trajetória marcada por dúvidas, angústia, terror, momento em que ele assume alegremente o pensamento trágico por excelência: o pensamento do eterno retorno (MACHADO, 1997, p. 30).

Nesse aspecto, o que dá sentido e movimento na obra é o processo de transformação de metamorfose pelo qual o protagonista passa e, ao comunicar suas experiências, oportuniza ao leitor um exemplo de vivência e experimentação formativa,

convidando- 93. Como nos diz o filósofo no aforismo

outros; é preciso utilizar as mesmas palavras para a mesma espécie de vivências interiores, é preciso, enfim, ter a experiência em comum com o Dessa maneira, a obra Assim falou Zaratustra, como romance de formação, narra o percurso de Zaratustra, enaltecendo as experiências singulares de seu personagem, mas que, por sua vez, são comuns a nós, na medida em que somos seres que estão em constante processo de aprendizado. O modo como cada um experimenta a solidão, os desafios, o medo, e, assim, os supera, pode ser diferente; contudo, é inegável que não há a experiência dessas vivências. Ademais, ao comunicar suas experiências/vivências, Zaratustra/ Nietzsche quer evidenciar uma forma de conhecimento não centrada especificamente na

forma poética ou poético-prosaica. No primeiro, a trama gira em torno da personagem central, em seu aprendizado de vida; enquanto que, no segundo, a trama não se dá, necessariamente, em torno do aprendizado de um indivíduo. Mas, em ambos os casos, há uma pretensão de serem ensinamentos da humanidade. O jovem Nietzsche tinha um grande interesse por esses estilos, tanto na versão moderna romanceada, experimentada por Goethe, Schiller e Hölderlin, quanto na versão mais antiga, expressa no poema de Hesíodo Os trabalhos e os dias, nas tragédias gregas, no Mito de Sísifos, também no poema de Parmênides e ainda no De rerum natura

93Conforme salienta Brito Bildunsroman

ideia de uma narrativa exemplar do processo pelo qual um indivíduo abandona sua casa, sua família para ir à viagem de si mesmo. E o seu itinerário está repleto de acontecimentos, o que requer também uma viagem interior, uma auto-determinação, uma procura, uma autorealização, exigências de quem experimenta 16).

racionalidade e na linguagem conceitual. Mas, sim, trazer à luz uma educação que considera várias possibilidades do aprender, trazendo para o campo do saber a arte, o jogo, a linguagem poética, como elementos primordiais para o desenvolvimento (formativo) integral do humano.

O que torna possível interpretar a obra nietzschiana como um romance de formação é notadamente a ação e as atitudes da personagem, assim como as vivências que ele experiência, ao longo de seu trajeto, e que são responsáveis pela sua transformação para, enfim, chegar a ser o que se é. O romance é a narração desse processo formativo do herói, mas é também formativo na medida em que possibilita ao leitor , interpretando-os a partir de suas próprias experiências. Nesse sentido, a formação abrange, a partir desse estilo, um duplo significado. A respeito dessa ação significativa, Stegmaier nos diz:

A

algo é narrado, via de regra, quando há um início, um enredo e um final, portanto, quando apresenta uma sequência perceptível no tempo; somente com isso se produz sentido. O sentido, contudo, não está ainda fixado com isso e, via de regra, não vem a ser exclusivamente fixado. O encanto das Histórias está justamente no fato de que cada um pode entendê-las a seu modo, e qualquer um as compreenderá conforme a propensão de suas próprias experiências e vivências (2009, p. 16).

Ao tomar o Zaratustra de Nietzsche como romance de formação, queremos interpretá-la como uma obra que possui um caráter pedagógico, mas não nos moldes de

uma educação atrelada à moral, onde com o qual se

forma o maior número possíveis de pessoas massificadas. Também não se trata de uma educação para a formação de pessoas unicamente hábeis para o trabalho, para atender ao mercado e/ou ao Estado. Ao apresentar as experiências trágicas pelas quais passa Zaratustra, o filósofo alemão nos indica a dureza e superação de si que é necessária para o enfrentamento da vida, convida o leitor a aprender a seguir a si mesmo e a ter sensibilidade e olhar crítico para desconfiar daquilo que é posto como algo determinado. Zaratustra, quando comunica seus discursos, convida ao movimento de superação, ao exercício, à atividade de se colocar diante do mundo, experimentando diversas possibilidades. Há, na obra, o exemplo de uma formação não formatada em grades curriculares e disciplinas, mas que trás, para o cenário da educação, o cultivo e

experimentação de si, as vivências cotidianas, os desafios, a coragem, a arte, a dança e o riso e, sobretudo, a afirmação e o amor à vida.

Fato é que a obra Assim falou Zaratusta não deixa de ter o seu caráter filosófico, ela aborda em seu todo o conjunto dos principais conceitos e doutrinas da filosofia de Nietzsche. Todavia, essas doutrinas no Zaratustra podem ser tomadas também como uma

antidoutrina94, pois não pretendem ser uma verdade que se impõe para ser seguida, como algo que deve ser apreendido sem alteração de sentido. Pelo contrário: Zaratustra sempre exorta a seus discípulos para que eles o abandonem, para que sigam o caminho por si mesmos, para que sejam criadores. A reflexão filosófica, aqui, está intimamente relacionada com a experiência singular, com as vivências, com a experimentação em relação ao próprio pensamento. Pensamento este, por sua vez, próprio e autêntico.

3.3 A experiência formativa de Zaratustra a partir do prólogo: o primeiro

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