Para a Educação Ambiental e Sustentabilidade
Na pesquisa ora apresentada, constatou-se que as ações de educação ambiental desenvolvidas pelos projetos de modo geral tem buscado sensibilizar uma parcela significativa da população, sobretudo de crianças e jovens, para a importância do Rio Capibaribe e como a ação humana tem perturbado o equilíbrio do ambiente e a qualidade de vida da população, principalmente daquela situada em áreas ribeirinhas e que tiram o seu sustento desse ecossistema.
De modo geral, o perfil das ações caracteriza-se pela apresentação da realidade, a partir de visitas técnicas, estudos e articulação de ações educativas à arte e cultura, enfocando o problema da poluição do rio pelo lixo, esgoto, e a ocupação das margens em função da expansão imobiliária. No entanto, pouco se fala da relação do projeto de urbanização capitalista e os impactos causados por este, caracterizado pelo fracasso da democratização dos bens e direitos sociais, origem da carência de infra- estrutura urbana, como saneamento básico, energia, abastecimento de água, transporte, saúde, etc.
Parte dos projetos propõe solução isolada de uma das questões acima referente ao saneamento básico, a partir da implantação de um sistema tratamento adequado para resolver a questão da poluição do Capibaribe. O
caráter das atividades, a seleção dos problemas para combate e os valores
dos projetos de significativa parte das escolas analisadas apontam para a compreensão do problema ambiental como uma responsabilidade coletiva e que poderá ser solucionado a partir da lógica da técnica e da tecnologia, uma
idéia hegemônica de transferência de responsabilidade combatida por
Foladori (2001), que não contribuirá para solução das questões sociais, pressuposto para a sustentabilidade.
Segundo Santos (2008), o efeito dessa solução isolada gera uma nova especulação pela valorização do território e uma constante periferização da população carente, que não tem condições de pagar pelos serviços públicos implantados. Por outro lado, o processo de expansão urbana em Recife, regido por um sistema econômico mal regulado pelo Estado, tem levado à ocupação inadequada das áreas de preservação permanente para habitações e outros fins, tanto pela classe média alta como pela população de baixa renda. Isto significa que não há apenas uma classe social responsável, contudo há de se reconhecer que há uma apropriação e uma intervenção diferenciada sobre a natureza e consequentemente, as responsabilidades devem ser proporcionais. Essa é uma questão fundamental, que deveria ser elucidada nas atividades de educação ambiental dos projetos em desenvolvimento pela sociedade civil, para uma leitura mais crítica e complexa da realidade.
As experiências dos projetos em algumas instituições pesquisadas corroboram para a ruptura da leitura restrita e dissimulada da realidade, que desvirtua tanto o diagnóstico do problema, quanto a verdadeira solução para o alcance da sustentabilidade, que pressupõe a igualdade de direitos e condições democráticas de decisão sobre os bens ambientais, conforme abordado por Lenzi (2006) e Sachs (2007). Isso pode ser evidenciado nos projetos das três ONG´s e de duas escolas, Instituo Capibaribe e Escola Silva Jardim, que utilizam valores como justiça, cidadania e democracia, além de buscarem enfrentar problemas de ordem social como concentração de renda e desigualdade social.
Quanto às estratégias de abordagem do problema referente à questão
hídrica e ao Rio Capibaribe, as ONG´s são mais pragmáticas e buscam traçar
soluções para o problema, atuando no âmbito da proteção ambiental, ação social e pesquisa científica. Partem de atividades de educação ambiental de
caráter mais intervencionista, como oficinas de monitoramento da qualidade
da água, plantio de mudas, oficinas de cultura e meio ambiente, pesca do lixo, etc, e apresentam uma forte experiência de mobilização social, expandindo conhecimento e ações junto a outros públicos além da própria instituição.
As escolas, pela própria função social e pela carência de pessoal, recursos e disponibilidade de tempo para desenvolvimento dos projetos analisados, estão mais restritas ao campo da apresentação e discussão do problema ambiental. As atividades como as visitas técnicas e estudos sobre o rio tentam estabelecer um elo com a realidade e as atividades culturais são importantes por possibilitar liberdade para construção de conhecimentos e espaços de interpretação do problema, por meio de expressão artística. Nas escolas percebe-se, pelos relatos de professores, algumas mudanças de atitudes dos jovens, sobre os cuidados com o meio ambiente de forma geral e sobre sua percepção com relação ao rio.
Para a Participação Social
Os avanços para a participação social são diferenciados entre os projetos e mesmo entre as categorias de instituição. Considerando os níveis de participação da equipe e do público-alvo dos projetos em análise, há de se destacar as experiências da SNE e do Instituto Capibaribe, em que o direcionamento das atividades é planejado e decidido de forma coletiva e democrática com os envolvidos. Ou seja, é estabelecido um nível de co- responsabilidade e parceria entre a instituição e seus colaboradores internos e externos, o que leva ao exercício da participação e da democracia, princípio básico da sustentabilidade.
O projeto Rios do Mundo desenvolvido nas escolas Maciel Pinheiro e Damas, apesar de ser interessante no que diz respeito às ações de sensibilização e troca de experiências entre escolas de países distintos, apresenta um baixo nível de participação, pela classificação de Arnstein (2002). Uma das razões diz respeito à formatação do projeto que já vem definido pelo órgão financiador, sem margem de diálogo para alteração. As ações são voltadas para uma intervenção educativa em artes e pesquisas sobre os grandes rios, mas envolve um número bastante reduzido de alunos por escola (aproximadamente 25), que são apenas convidados a participar, configurando uma comunicação de mão-única e não um processo democrático de construção coletiva.
Pela capacidade mobilizadora de um movimento coletivo conjunto, com potencial de capilaridade e inovação, um dos eixos formativos da Educação Ambiental comentados por Guimarães (2004), identifica-se as experiências da Escola Ambiental Águas do Capibaribe, Movimento Recapibaribe e da Sociedade Nordestina de Ecologia, com o Reflorestágua.
De modo geral, as ONG´s possuem mais experiência e tempo de
atuação na causa ambiental que as escolas pesquisadas. São mobilizadoras
de ações coletivas, enquanto as escolas são boas parceiras, porém coadjuvantes quando se trata de participação política e coletiva. Elas têm dificuldades de agregar outras funções à educação formal e envolver-se com projetos de responsabilidade social e ambiental, que não estão inseridos em seu plano político-pedagógico e, por conseguinte em geral atuam de forma pontual de acordo com o calendário escolar ou a partir de iniciativas voluntárias de professores e alunos. Na pesquisa, a exceção dessa conjuntura é do Colégio Mater Christi e da Escola Ambiental Águas do Capibaribe. A primeira por participar do projeto Salve o Capibaribe, que envolve toda a comunidade escolar, além de parceiros externos, e o barco- escola da prefeitura que foi criado com a finalidade de trabalhar a educação ambiental, com foco para a proteção do Rio Capibaribe.
No contexto da articulação dos atores sociais para participação política foi realizado, como atividade integrante da pesquisa em andamento, um evento em comemoração ao Dia da Água, nos dias 20 e 21 de março de 2009, promovido pelo Comitê de Bacia Hidrográfica do Capibaribe (COBH Capibaribe) e pela Universidade Federal de Pernambuco, com apoio do governo do Estado da Prefeitura do Recife e do CNPq, um dos financiadores desse estudo, chamado Vivendo o Capibaribe.
Foram mobilizadas 26 instituições da sociedade civil, entre elas, todas que fizeram parte dessa pesquisa. Os objetivos das ações foram difundir e apoiar as boas práticas e experiências de proteção do rio, refletir sobre os usos múltiplos da água e a importância do Rio Capibaribe, além de mobilizar e integrar as entidades que atuam no baixo trecho Rio Capibaribe.
Enquanto produtos, o evento apresentou uma exposição fotográfica sobre as ações dos projetos, os usos e a situação do rio símbolo pernambucano, que encontra-se no Capibar, sede do Movimento Recapibaribe, um Mapa de Mobilização pelo Capibaribe, no qual constam as entidades pesquisadas e suas boas práticas, com localização georreferenciada em imagens satélite de Recife (Apêndice II), e uma Carta Propositiva pela Recuperação do Rio Capibaribe, produzida coletivamente pelos envolvidos no evento (Anexo I). O registro do Vivendo o Capibaribe foi feito também em vídeo, o qual se encontra no Anexo II.
Apesar de constatado um princípio de articulação em rede e parceria das instituições pesquisadas, Ortiz (2008) destaca algumas questões para melhoria dos níveis e condições de participação que reflete a conjuntura encontrada nesta ação, como a flexibilidade no relacionamento coletivo, equilibrando as tensões pela representação de interesses distintos, a importância de admitir a alteridade, independente do nível de instrução e facilitar os processos de aprendizado social, para as pessoas e organizações menos experientes. Tudo isso, associado à melhoria das condições para tomada de decisão e ações coletivas, contribui substancialmente para a transformação de pessoas e mudança da realidade.