Em consonância com a proposta deste estudo, que tem como objetivo estudar o ensino da Maquiagem Teatral para os cursos de Licenciatura em teatro, o presente capítulo discorrerá acerca de uma experiência metodológica prática no Curso de Licenciatura em Teatro do Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Sergipe, o qual apresento como um modelo de ensino para outras licenciaturas em teatro.
Com a intenção de que este estudo seja lido e se possível, aplicado por professores de maquiagem teatral em todas as esferas do ensino do teatro, por atores, diretores, pesquisadores de teatro e curiosos pelo assunto, esta experiência de ensino será descrita a partir de um plano de aula elaborado para a disciplina, abordando os fundamentos da maquiagem, uma descrição do estudo de volume, profundidade, cores e texturas; da anatomia facial; das técnicas básicas, dos resultados, dos processos avaliativos e do seu desdobramento, possibilitando um diálogo com outras disciplinas do currículo do curso, estimulando os alunos a dialogar com a maquiagem no ensino de teatro na educação básica, numa perspectiva transdisciplinar.
Esta experiência precede um método de ensino da Maquiagem Teatral desenvolvido em mais de vinte anos de docência, no qual o aprendizado das técnicas de maquiagem ensinadas em aula acontece com o exercício da auto maquiagem, onde os alunos absorvem os conteúdos de maneira mais rápida, assim como otimiza o tempo da aula, por se tratar de uma carga horária em que o programa da disciplina deve ser cumprido.
3.1.1 O termo método
A origem do termo método é grega, methodos, segundo o dicionário Aurélio, significa “caminho para chegar a um fim”. E também significa: “1. Caminho pelo qual se atinge um objetivo. 2. Programa que regula previamente uma série de operações que se devem realizar, apontando os erros evitáveis em vista de um resultado determinado. 3. Processo ou técnica de ensino. 4.Modo de proceder, maneira de agir, meio. 5.” (FERREIRA, 1999, p. 1328).
O termo método é utilizado no ensino do teatro desde há muito tempo, assim como nas artes em geral, desde o homem primitivo que produzia a sua arte seguindo os seus procedimentos. Se levarmos o nosso olhar para um passado não muito distante, encontraremos a aplicação do termo em algumas estéticas teatrais que, de fato, foram os primórdios do ensino do teatro, como, por exemplo, a contribuição de Stanislavski no Teatro de Arte de Moscou, no final do século XIX. De acordo com o Professor Arão Paranaguá,
Com o aparecimento das primeiras propostas pedagógicas para a arte dramática – algumas delas baseadas em pesquisas de artistas como Stanislavski e posteriormente em outros –, antenadas com o avanço da psicologia e da educação, foi sendo elaborada, aos poucos, uma concepção na qual o educando é visto como um ser em desenvolvimento, para quem se oferece a possibilidade de amadurecer potencialidades sensíveis e criativas, como forma de habilitá-lo ao uso e à apreciação da linguagem dramática (SANTANA, 2000,p.23)
Em seu método, Stanislavski propõe uma interpretação naturalista-realista para os atores do teatro. Método este que consiste em fazer com que o ator investigue as intenções da personagem a partir da interiorização dos sentimentos, para motivar as ações, os objetivos e as motivações que o fizeram estar em determinadas situações da peça a ser encenada.
O processo criativo do método criado por Stanislavski trabalha com os elementos da memória, imaginação, ação, concentração, verdade, objetivo e circunstancias dadas, entre outros. Estes elementos podem dar sustentabilidade para a investigação do ator no processo de criação de um personagem que pode surgir gradativamente no decorrer dos ensaios.
Segundo o método de Stanislavski, “todos os atores que são artistas, os criadores de imagens, devem servir-se de caracterizações que os tornem aptos a se encarar nos seus papéis” (STANISLAVSKI, 1996 a, p.53). Ou seja, buscar características interiores que possibilitem o ator encontrar a individualidade das personagens, e revelar os seus sentimentos de forma verdadeira, e exprimir o caráter do seu papel. Para este autor, o ator precisa se metamorfosear por dentro e por fora. Ainda sobre a caracterização enquanto uma máscara que oculta o ator e revela o personagem, Stanislavski afirma:
A caracterização é a máscara que esconde o indivíduo-ator. Protegido por ela, pode despir a alma até o último, o mais íntimo detalhe. Este é um importante atributo ou traço da transformação (...) a caracterização quando acompanhada de uma verdadeira transposição, é uma grande coisa (STANISLAVSKI, 1996 a, p.53)”
Ao longo de sua investigação, o ator pode lançar mão da caracterização externa, preferencialmente quando faz uso do seu imaginário e de fatos de sua vida real e ou da vida de outras pessoas, e calca-se na observação e intuição.
Na construção da caracterização externa, quando o ator faz uso da maquiagem teatral, como já vimos no primeiro capítulo deste trabalho, ele a utiliza como um signo visual que o ajuda a compor as características externas da sua personagem, amplificando ou ocultando os seus traços até encontrar a máscara, pintada em seu rosto, com o uso dos cosméticos e das suas habilidades com as técnicas. Segundo o Professor Marcelo Denny Leite,
A maquiagem não cria sozinha o personagem, somente ajuda a revela-lo, nenhuma maquiagem está completa sem um ator por baixo, e uma maquiagem concebida dentro de um espetáculo deve ser pensada, analisada sobre sua importância e efeito comunicativo, do contrário a maquiagem pode destruir a caracterização do ator. (LEITE, 2004, p.187)
O rosto do ator é uma estrutura tridimensional, ou mesmo um espaço primeiro da ação espetacular, no qual a maquiagem é utilizada para realizar as suas funções: ampliar, reduzir, camuflar, revelar, transformar o rosto do ator na caracterização a qual está a serviço. Mas não é a maquiagem que compõe o personagem no ator, ela é um dos elementos que fazem parte da sua caracterização externa concebida para agregar ao ator, expondo as suas características internas.
O ideal é que todo espetáculo tenha um profissional especializado para a concepção da maquiagem e que esta aconteça em conjunção com o texto encenado, com a ideia do encenador e quando possível, em parceria com o ator que vai usá-la. Acredito que o maquiador deve ouvir o ator e estar presente nos ensaios, para acompanhar e entender o seu processo de criação.
Sobre a sistematização do seu método, que pode ser desenvolvido em qualquer lugar do mundo, Stanislavski declara que este é o resultado de um trabalho desenvolvido por toda a sua vida de teatro. A matéria bruta deste foram os seus estudos sobre a natureza do ator, a partir das quais concluiu: não existem fórmulas para tornar alguém um ator, que só sendo verdadeiro o ator atingirá a verdadeira
interiorização dos sentimentos para melhor executar as ações de uma peça e que a organicidade do ator é o único meio para alcançar os verdadeiros sentimentos.
Sobre as descobertas de Stanislavski e posteriormente outros encenadores que se debruçaram sobre o trabalho do ator, o professor Arão Paranaguá Santana, aponta estas como uma das importantes contribuições para o trabalho do ator e consequentemente para o ensino do teatro:
No bojo da revolução cênica que marcou a virada do século, foram concebidas propostas que deram novos rumos à arte dramática como um todo e especialmente à arte do ator, muitos fatores de natureza estética e técnica tornaram mais complexo o fazer teatral, exigindo um procedimento novo. (SANTANA, 2000, p.66)
Como afirma Santana na citação acima, as propostas estéticas de teatro surgidas a partir do advento do método de Stanislavski e de outros artistas, como Brecht, Artaud, Grotowski, entre outros, foram de grandes contribuições para o ensino do teatro, assim como para outros artistas surgidos posteriormente no cenário teatral mundial, que se tornaram inspiração na inovação na forma de fazer e ver o teatro, tornando-se também, uma base teórica importante na formação de professores de teatro, assim como para atores, diretores e outros profissionais de teatro.
A professora Monica Magalhães aponta o método de Richard Corson63 como o único ensino didático da maquiagem, de que se tem conhecimento. Em seu método, Corson orienta a pensar a maquiagem para o personagem, com precisão de detalhes, partindo de uma observação do rosto do ator que vai usá-la. Sobre este autor, afirma Magalhães:
Este método faz com que se pense em cada área do rosto e, consequentemente, para cada personagem que se cria, de forma a não deixar escapar qualquer detalhe. O método da reprodução de uma obra é limitador, pois a cópia impede a originalidade. (MAGALHAES, 2014, p.15)
A experiência de ensino da maquiagem teatral para os alunos de Licenciatura em Teatro da UFS, desenvolve-se com um estudo das principais técnicas, estimulando os alunos a um processo de criação partindo de seu imaginário, baseado nos seus conhecimentos de arte e da observação do mundo, possibilitando maior conhecimento sobre o tema, para um melhor aproveitamento desta, como futuros
63 Maquiador de teatro e cinema.
professores de teatro, em sua práxis educacional, tornando-a uma aliada em situações diversas, que serão apresentadas no corpo deste capítulo.
3.2 A experiência de ensino da Maquiagem Teatral na Licenciatura em Teatro da