A crença na existência de habitantes na Lua e nos restantes planetas decorria da lógica e natural transformação de convicções prévias, acerca de outras criaturas residentes em cada um dos elementos aristotélicos.
O historiador da aviação Clive Hart destaca o facto de, após o Renascimento, a crença na essencialidade e potencialidade física das "criaturas do ar" se ter desvanecido gradualmente. Os invocados "demónios voadores" vão obtendo, gradualmente, um estatuto de seres espirituais, mais do que entes materiais das "regiões intermédias". À medida que o século XVIII se escoava e os aeróstatos e aeronautas começaram a elevar-se nos ares, o ser humano ia conquistando regiões desconhecidas e, em simultâneo, os seus míticos residentes iam-se diluindo como simples memória. 198
Cf. The Secret Doctrine. Calcutá, Theosophical University Press, 1888, passim.
Albert Einstein: Image and Impacts. College Park, Center for History of Physics, American
Institute of Physics, 2002. Não se esgota aqui o interesse dos físicos pela revisitação ao panteísta de Amsterdão: o investigador Rainer E. Zimmermann tem vido a estudar o conceito de "infinita substância" e comparando-a com as implicações filosóficas dos aspectos fundacionais da moderna física teórica, com destaque para a gravidade quântica e para a noção integrada de "observador" e "observado" que subjaz à teoria do conceito de campo unificado eisnteiniano. Cf. Loops and knots as Topoi of Substance. Spinoza Revisited. Comunicação pessoal, 27 de Abril, 2000.
Importa verificar que a "extinção" desses seres aéreos - ou pelo menos a rectificação ontológica e espacial - justapõe-se com a gradual emergência das criaturas noutros mundos solares. Na óptica da "grande cadeia do ser" que preconizava um espaço recheado de viventes, outros planetas, entretanto descobertos, deixariam de ser tão só miríades de luzeiros no firmamento. A razão tinha todos os motivos para as considerar, de igual modo, tantas outras sedes habitadas. 199
De registar, no entanto, que a adesão crescente à hipótese da pluralidade dos mundos habitados, se acompanhou o ascendente do sistema copernicano, não significa que dele tenha derivado, como resultante. Sabe-se das dúvidas de pioneiros como o próprio Copérnico e Galileu, esquivos e silenciosos quanto às consequências das suas descobertas. Daí que, o florescimento dos credos pluralistas, nas comunidades intelectuais, se deveu mais à divagação teorética, de fundo filosófico, do que a resultados de uma reflexão sobre dados observacionais e empíricos. 200
Ou seja, parece aceitável que as novas teorias pluralistas tenham ganham ênfase, analogicamente, por razões teleológicas, finalistas: a assunção de que "nada na Natureza é feito em vão" foi reinvestida na óbvia presunção de que, se a Terra foi feita para deleite da Humanidade, talvez então os outros orbes hajam sido criados para usufruto dos seus naturais habitantes. 201
Assinala-se, por outro lado, que o desejo de interrogar esses possíveis mundos além-Terra não conflituava, em excesso, com aquilo que era já vigente na Época das Descobertas. Antes ainda, a mente medieva havia-se lançado na demanda do mítico reino do Preste João e os grandes monarcas cristãos assediavam de perguntas os seus sábios, almejando atingir os
LOVEJOY, Arthur, The Great Chain of Being. Cambridge, Harvard University Press, 1964.pp.l01-2.
200 Ibidem, p. 111. 201 Ibidem.
misteriosos domínios dos Mongóis, antes dos seus súbditos se deleitarem com as maravilhas da India e da China. 202
Insistimos no facto de alguns dos mais notórios fundadores da ciência moderna, como Galileu Galilei, Tycho Brahe e Johannes Kepler, se terem remetido a "uma hesitação contínua, se não mesmo a uma resistência, face à ideia da pluralidade dos mundos".203 Admitindo, embora, a possibilidade de
outros mundos habitados, além da Terra, Galileu (1564-1642) viria a recusar a ideia da pluralidade dos mundos e negou - não se sabe com que sólida convicção - que os planetas do nosso sistema solar pudessem ser habitados:
"Concordo... como falsa e condenável a ideia daqueles que colocam habitantes em Júpiter, Vénus, Saturno e a Lua, querendo significar como habitantes, animais como nós e homens em particular".204
Longe da audácia conceptual de Bruno, porém, em 1610, Galileu anunciaria contudo, na obra Siderius nuncius, publicada em Veneza, que "a superfície da Lua não era diferente da terrestre" e que as suas partes brilhantes poderiam representar terras, ao passo que as escuras identificariam zonas líquidas. A invenção do telescópio deixava, agora, campo livre à especulação visual, e prova disso é a resposta de Johannes Kepler (1571- 1630), outro luminar da Astronomia empírica e matemática, o qual não só concorda com Galileu como leva por diante a imaginação: sugere que os
^ ULLENDORF, Charles; BECKINGHAM, The Hebrew Letters of Prester John. New York,
Oxford University, 1982. Da vasta ensaística portuguesa acerca da temática permitimo-nos destacar, a título indicativo: ANDRADE, António Alberto Banha, "Francisco Álvares e o êxito europeu da Verdadeira Informação sobre a Etiópia », in Actas do Colóquio sobre a
Presença Portuguesa no Mundo. Lisboa, APH, 1981 (reedição, Lisboa, AECA, 1982, separata
CXLV); MAURÍCIO, Domingos, "A carta do Preste João das índias e o seu reflexo nos descobrimentos do infante D. Henrique", Brotéria, 1960, p. 218-244.
JQ'2
The Extraterrestrial Life Debate, p. 10.
04 FLAHERTY, Robert, Pearson, ob. cit., p.18. No entanto, conforme sustenta Alexandre
Koyré, "é interessante notar que a concepção segunda a qual os corpos celestes estão habitados é mencionada por Galileu como "vulgarmente admitida". Cf. Do Mundo fechado ao
universo infinito, p.97, nota 2.
habitantes lunares se tenham instalado numa grande cratera, adaptando-a para habitação em pequenas grutas.206
Na obra Somnium, um relato ficcional de uma viagem à Lua, datado de 1609, Kepler ousa descrever os habitantes do nosso satélite, dividindo-os em duas raças (Subvolvianos e Privolvianos) em dois hemisférios distintos. Para Karl S. Guthke trata-se "do mais importante contributo para o tema da pluralidade dos mundos, constituindo uma peça de recorte mais literário que o poema didáctico De immenso, de Bruno". 207
A despeito da sua discordância com as assunções de Bruno sobre os "inumeráveis mundos", Johannes Kepler não se opunha à ideia da vida em, pelo menos, alguns planetas solares e na Lua.208 O silogismo é simples: a
Terra possui uma lua porque está habitada; então, se os planetas possuíssem luas também eles deveriam estar habitados. Para Kepler, não existe razão para negar esta possibilidade - lembra Alexandre Koyré.209
Na opinião de Karl S. Guthke, o autor de Somnium é "o primeiro escritor a identificar-se, pessoalmente, com a Revolução Científica do Renascimento, deixando trabalhar a sua imaginação por extrapolações lógicas,
206 Ibidem.
"" Esta digressão imaginária de Kepler foi recuperada pela investigadora Marjorie Nicolson que dela trata na obra Voyages to the Moon ( Nova Iorque, 1960), enaltecendo a sua influência sobre os escritores de viagens cósmicas durante os séculos XVII e XVITI. Cf. The Last
Frontier..., p.47. A tradução inglesa de Somnium foi assegurada, com aparato crítico, pela
Universidade do Wisconsin (Madison, 1967). Actualmente, esta narrativa é reconhecida pela generalidade dos ensaístas como uma obra pioneira da ficção científica universal, a primeira a ser escrita por um cientista digno desse nome. Cf. CHRISTIANSON, Gale E., "Kepeler's
Somnium: Science Fiction and the Renaissance Scientist", Science Fiction Studies 3, 1976,
pp.81-89; TUZET, Hélène, Le cosmos et l'imagination, Paris, 1965, p.225: "Esta obra é tão moderna que a linguagem dos anos 60 aflora incessantemente à ponta da pena para traduzir o seu saboroso latim".
Kepler's Conversation with Galileo's Sideral Messenger, trans. Edward Rosen, New York,
1965, p. 42. apud Crowe, Michael J., ob. cit., p. 11. Nessa mesma passagem , o autor refere-se aos habitantes de Saturno e especula acerca da existência de luas em redor de outros mundos solares.
Do Mundo fechado ao universo infinito, p. 79. Koyré chama a atenção para o facto de
Kepler rejeitar a noção de infinidade do universo, que ele sabe oriunda dos filósofos pagãos da Antiguidade grega. Sobretudo, são razões metafísicas que o levam a prosseguir uma postura nitidamente aristotélica de finitude do universo. Cf. Epitome astronomiae
copernicanae. Lent is ad Danunium, 1618, in Opera omnia, vol. VI, lib. 1, pars II, p.136, apud KOYRÉ, Alexandre, ob.cit. p.81, nota 1.
mas concedendo, ao mesmo tempo, o devido peso às considerações práticas."210
Na esteira das sequelas renascentistas, o período de Seiscentos acumularia novos indicadores substantivos à tese de "outros mundos e outras gentes". Já no rigorismo do período barroco, Tommaso Campanella ( 1568-
1634 ), o utópico autor de A cidade do Sol (1623), aliando a sua condição de monge dominicano à de cientista, saía em defesa de Galileu. Na obra Apologia
pro Galileo (1622) não se exime a opinar sobre a existência de humanidades
plurais:
"Se os habitantes que possam existir noutras estrelas são homens, estes não tiveram origem em Adão e não estão contaminados pelo pecado. Nem estes habitantes precisam de redenção, a menos que tenham cometido outros pecados (...). Na sua carta sobre as manchas solares, Galileu nega expressamente que possam existir homens noutras estrelas, mas afirma que outros seres de natureza superior possam aí viver".2n
Ainda que a trama de A cidade do Sol não trate de encontros entre humanos e não- humanos, importa lembrar, como Karl S. Guthke, que "o único elemento extraterrestre é o patenteado na crença dos Solarianos, os cidadãos do Estado ideal, de que não estamos sós no universo". Não obstante as incertezas da cosmologia solariana sobre "se existem ou não outros mundos além do nosso", aceitam que será "loucura pensar que nada mais existe ( no espaço ). Voltamos de novo aos critérios da plenitude: esse "nada", esse vazio fora do nosso mundo é "incompatível com a Deus, o ser infinito".212
Até aqui, como facilmente se conclui, os imaginativos pensadores, que apostam no pluralismo dos mundos habitados, mostram-se capazes de
The Last Frontier, p.91.
211 "The Defense of Galileo", trans. Grant Me Colley, Smith College Studies in History, 22,
n°s 3 e 4, 1937, pp.66-7, apud CROWE, Michael J., ob. cit., pp. 12-13.
919
Traduzido da primeira edição de Civitas Solis, apud Campanella, Tommaso, Realis
Philosophiae Epilogistocae Partes Quatuor. Frankfurt, 1623, p.457. Cf. GUTHKE, Karl S., ob. cit. p. 137. Este autor recorda-nos que estas deduções de Campanella sobre a pluralidade
dos mundos foram escritas na prisão de Nápoles, onde o pensador utópico passou 27 anos da sua vida à ordem da Inquisição espanhola.
contornar as dificuldades dogmáticas tradicionais, alegando que as suas teses em nada afrontam as Escrituras, pelo menos numa interpretação mais "liberal". De qualquer modo, a Igreja Católica mostrava-se gradualmente mais atenta a estes "desvios", que floresciam sob formas pós-copernicianas e pós-galilaicas: em 1616, o Papa denunciara, como herética, a proposição de Copérnico sobre o movimento planetário, conceito-chave para as ideias da pluralidade, atitude a que se seguiu a decisão relativa a Galileu, em 1633.
A consequente popularidade destas ideias, apropriadas pelos heréticos, tornou-as apetecíveis para alimento especulativo do pensamento autónomo, crítico da obstinação eclesial que dogmatizara a questão. A visão aristotélica haveria de sofrer novo desgaste, agora propiciada pelo ambiente menos constrangido da Inglaterra anglicana. Não espanta, pois, que surjam novos argumentos pró-pluralismo dos próprios luminares eclesiásticos.
Foi o caso do bispo Francis Godwin (1552-1633), de quem se publicou, em 1638, a primeira história de ficção científica, em inglês, que trata de um voo para a Lua. A obra, intitulada The Man in the Moone, foi editada postumamente. Nela, o herói era transportado para o nosso satélite natural numa carruagem puxada por um bando de gansos.214 Godwin povoa a Lua
com seres inteligentes, similares aos humanos. Aliás, a natural eleição do pequeno orbe, como sede de vida fora da Terra, prossegue uma tradição já inaugurada pelos pitagóricos, prosseguida com Nicolau de Cusa, Bruno, Kepler, entre outros. Com a difusão da obra de Godwin, como assinala Michael Crowe, "vai tornar-se um campo de batalha para a guerra secular em torno da vida lunar". 215
Estimulado pelos mesmos cenários, e amparado pelas ideias subscritas por Campanella e Kepler, o jovem reverendo inglês John Wilkins (1614-
1672), cunhado de Oliver Cromwell, iria publicar, anonimamente, também em
Idêntica condenação teológica, proposta por Santo Agostinho e outros Padres da Igreja, impende sobre a existência dos antípodas, crença vista por alguns autores em paralelo com a dos mundos plurais. Cf. GUTHKE, Karl S., ob.cit. p. 11.
214 ASEVIOV, Isaac. Extraterrestrial Civilizations, London, Pan Books, 1981, p. 38.
1638, o livro com o bem explícito título The Discovery of a World in the
Moone, or, A Discourse Tending to prove That 'Tis Probable There May Be Another Habitable World in That Planet em que a hesitação e prudência
galilaicas eram pura e simplesmente arredadas. Advogado de Copérnico, Wilkins concordava com as observações de Galileu sobre a Lua e aceitava que as manchas negras apontavam para a existência de água.217 Curiosamente, ao
passo que Godwin escolhera um espanhol para interpretar as sua descobertas - por certo, uma "aculturação" óbvia da precedência exploradora da Espanha imperial à época - pelo contrário, Wilkins afirma o seu nacionalismo e impõe um inglês na tarefa de colher as primícias de pisar o solo selenita.218
Explicitamente, observa a sua preferência pela
" conjectura de Campanella de que os habitantes da Lua não são homens
como nós (...) e há uma grande diferença entre a natureza dos homens e a dos anjos: pode acontecer que os habitantes dos planetas sejam de uma natureza mista entre ambos. Não é impossível que Deus tenha criado espécies de muitos géneros, para que possa ser ainda mais glorificado".
219
O impacto da obra de Wilkins, em toda a Europa, é reconhecido pelos críticos. Marjorie Nicolson define-a como "indiscutível", elegendo-a "mais influente de todas as obras de "astronomia popular" editadas em Inglaterra
John Wilkins estudou em Oxford e foi mestre do Trinity College, em Cambridge. Mais tarde, em 1668, acedeu ao cargo de bispo de Chester, integrando como co-fundador e secretário a prestigiada Royal Society, nos anos de 1660, a grande "Internacional" do saber europeu da época . Embora anónimo, o seu livro mereceu o imprimatur do bispo de Londres. Cf. GUTHKE, Karl S., ob. cit., p. 144.
217 DICK, Steven J., Life on Other Worlds, p. 12. Desta obra existem duas edições, publicadas
em 1638, seguidas por outras nos anos de 1640, 1707 e 1802, além de reimpressões da primeira edição em 1972 e 1973. De igual modo a obra foi vertida para o francês e o alemão, o que representa uma notória sequela de contributos na formação do imaginário público desde o século XVn. Cf. GUTHKE, Karl S., ob. cit. p. 144, nota 48.
218 ASEVIOV, Isaac, ibidem.
durante o século dezassete". Este pensador inglês revelou-se, também, um pioneiro no que concerne às futuras possibilidades de viagens no espaço, algo que Kepler havia vagamente esboçado: na terceira edição do seu livro (1640), Wilkins discute as diferentes formas de transporte interplanetário, lançando os caboucos da ficção científica.221
Possivelmente, segundo as mesmas opiniões, "é bem possível que The Discovery tenha exercido uma extensiva influência na futura redacção nas Conversas sobre a pluralidade dos mundos, de Bernard le Bovier de Fontanelle, em 1686, de facto, a expressão literária mais conseguida de uma nova temática que granjeava crescentes leitores e extravasava os círculos filosóficos.
A expressão timorata de Blaise Pascal (1623-1662), atrás referenciado, representa uma interessante incursão do pensador nos domínios da pluralidade
999
dos orbes. ' O receio dos espaços infinitos e do seu silêncio retrata "a insegurança provocada pela cosmologia da "nova ciência".223 Tido como uma
das mais refinadas sensibilidades religiosas do seu século, Pascal enfrenta o problema da isolamento do ser humano, que ele julga "humilhado", quando em confronto com os "abismos do infinito e do nada".224 Nos seus
Pensamentos, dá largas ao terror pânico na eminência de ser "absorvido" pelo universo. A sua ânsia em perceber a imensidade, em detectar "quantos
"English Almanacs and the 'New Astronomy' ", Annals of Science, 4, 1939, pp. 1-33, apud CROWE, Michael J., ob. cit. p. 13. Por sua vez, Karl S. Guthke situa Wilkins "no centro do debate intelectual deste período, do qual ele se tornou um típico representante", chamando a atenção para o seu papel de difusor da ideia de pluralidade dos mundos nos círculos da ciência popular e da literatura da Inglaterra do século XVII. Ob.xit. p. 145. Sobre o mesmo autor cf. também VOISÉ, Waldemar, "John Wilkins, sur la science et le voyage dans la lune, à l'époque de la mécanique celeste postcopernicienne", Revue de synthèse 94, 1973, 44; MCCOLLEY, Grant, "The Ross-Wilkins Controversy", Annals of Science 3, 1938, pp. 153-
188, apud GUTHKE, Karl S., ob. cit. p.145..
221 SHAPIRO, Barbara J.. John Wilkins, 1614-1672: An Intellectual Biography, Berkeley/Los
Angeles, 1969, apud GUTHKE, Karl S., ob. cit., pp. 152-3. 111
No entendimento de Alexandre Koyré, a famosa confissão "não exprime os sentimentos próprios de Pascal, como supõem habitualmente os historiadores, mas os do "libertino" ateu". Cf. Do Mundo fechado ao universo infinito, p.50, nota 1.
223 GUTHKE, Karl S., ob. cit, p. 118. 224 Ibidem, p. 117-118.
domínios saberão de nós", as razões "por que me encontro aqui e não noutro local", perpassa por alguns dos seus dilemas.225
Um exame dos escritos de René Descartes (1596-1650) leva-nos, também, a descobrir fecundas pistas acerca do seu papel no debate setecentista. Interessa anotar que o filósofo francês evitou considerar a noção de "infinito", segundo ele desnecessária, adoptando em seu lugar a ideia de "infinidade" para o mundo. "Descartes reserva o qualificativo de Infinito para Deus".226
Nos seus Principia Philosophiae (1644), onde Descartes recupera a herança atomista, oferece um sistema filosófico mecanista no qual os átomos em movimento articulam a lógica de uma cosmologia racional: "o universo cartesiano é um plenum, recheado de átomos e, uma vez posto em movimento por Deus, as partículas do plenum formam vórtices, ou seja, sistemas análogos ao nosso sistema solar, centrados em torno de cada estrela".227
Contudo, recorda Steven Dick, "por razões religiosas foi cuidadoso em não especificar se esses "vórtices" consistiam em planetas habitados".228 O
filósofo é omisso em comprometer-se nos seus Principia, embora na primeira versão da sua "teoria dos vórtices", Le Monde (escrito entre 1629 e 1632), deixe escapar um "se Deus tiver criado muitos mundos...".229
As dúvidas cartesianas, relativas ao pluralismo dos mundos, revela-se numa missiva do filósofo a Pierre Chanut, embaixador francês em Estocolmo, que o havia questionado sobre tal matéria, em nome da rainha Cristina da Suécia. Após recordar que o sangue de Cristo havia remido muitos homens, Descartes acrescenta:
Cf. Pensées, ed. Zacharie Tourneur et Didier Anzieu. Paris, Bibliothèque de Clunny, 1960, n° 197. A propósito destas minudências do autor do Método, Alexandre Koyré sustenta que o qualificativo indefinido seria tão só "um eufemismo diplomático" para infinito e remete-nos para a carta de Descartes a Pierre Chanut, em 6 de Junho de 1647, adiante referida. Cf.
Oeuvres des Descartes, ed. Charles Adams et Paul Tannery, Paris, 1903, vol.V, pp. 51.
226 KOYRÉ, Alexandre, ob.cit., p. 107. 227 DICK, Steven J., ob. cit. p. 12. 228 Ibidem.
"Não vejo que o mistério da Incarnação, e outras vantagens que Deus possa ter trazido ao homem, o impeçam de ter obtido outras infinitas e notórias vantagens numa infinidade de outras criaturas. E se com isto não pretendo dizer que possam existir criaturas inteligentes nas estrelas ou em qualquer outra parte, também não vejo motivos para provar o contrário; prefiro deixar em suspenso questões deste género, ao invés de negar ou afirmar algo. " 230
Indecisões à parte, aceitam a generalidade dos críticos que a arquitectura cosmológica de Descartes deixa uma porta entreaberta a futuras audácias, como as de Fontanelle. A hipótese atomista do vórtice haveria de exercer uma considerável atracção sobre outras obras setecentistas, envolvidas nesta discussão.231
O legado cartesiano atravessa, por exemplo, o canal da Mancha, e instala-se na respeitável Inglaterra. Nomes como Henry More (1614-1687), um neoplatónico, de Cambridge, atraído pelo atomismo grego, compôs o poema Democritus Platonissans, em 1646, apoiando-se na física de Descartes - "esse sublime e subtil Mecânico" - e deixa exarado o seu credo pluralista:
"Há muito tempo outras Terras haviam sido povoadas por homens e animais antes desta Terra, e depois desta outras o serão de novo e outros homens e animais nascerão....outro Adão receberá um novo sopro uma e outra vez numa repetição sem fim até tudo acabar numa conflagração final" (estância 76).232
Cf. Oeuvres des Descartes, pp. 54-55, nota 55 supra.
231 GUTHKE. Karl S., The Last Frontier, cap. 4, item 2; DICK, Steven J., Plurality of Worlds,