Parte 2 Istruzioni per l'uso
2.3 Modalita di lavoro
2.3.4 Azzeramento
Segundo os pressupostos de Bourdieu, a escola tem importância no aprendizado dos códigos de comunicação entre os agentes sociais. A comunicação pedagógica, assim como qualquer comunicação cultural, exige para sua plena realização e aproveitamento que os receptores dominem o código utilizado na produção dessa comunicação. Este fato pode ser compreendido pelas condições sócio-culturais dos entrevistados, pertencentes às camadas populares, que dificilmente irão desenvolver esses códigos no meio familiar, e a incorporação destes tem maiores oportunidades de ocorrer no universo escolar. As trajetórias escolares dos jovens acadêmicos sinalizaram o sentido da escola e sua função na constituição de suas vidas.
O jovem/acadêmico (1) teve toda a sua vida escolar em Gurupi, onde cursou o ensino básico em escola pública estadual. Durante o ensino fundamental, foi convidado para estudar em uma escola conveniada, devido as suas habilidades esportivas no futebol. Integrou a equipe na quinta e sexta séries para disputar campeonatos estudantis. A partir da sétima série, retornou para a rede pública estadual, onde permaneceu até a conclusão do ensino médio. Afirmou ele:
Durante a maioria do tempo, estudei em escola pública. E, depois de um tempo eu ganhei bolsa em escola conveniada pra jogar pra equipe da escola, mas quando acabaram os campeonatos, eu voltei pra escola pública (JOVEM/ACADÊMICO 1).
Pelo fato de o jovem/acadêmico (1) ter estudado em escola pública e pública conveniada, afirma que obteve melhor aproveitamento em relação à aprendizagem na segunda, pois havia cobranças de notas como requisito para permanecer como aluno atleta. Sob a ótica do jovem acadêmico 1:
(...) na escola conveniada é... Apesar de ser aluno atleta não tinha trato diferente, pelo menos no meu caso, então se eu era atleta eu era obrigado a ter aquelas notas pra poder jogar, enquanto na escola não tinha esse apoio, então na escola conveniada eu aprendia mais.
A jovem/acadêmica (3) relatou que sua trajetória escolar foi em escola conveniada, e diz ter sido uma experiência interessante. Em relação ao ensino fundamental julga ter sido tranqüilo e considera que o ensino médio foi mais puxado,
porém valeu a pena, pois foi aprovada no primeiro vestibular que prestou. No ensino médio (...) eu me dediquei mais aos estudos, prestava mais atenção em todas as disciplinas. No final, quando eu prestei o vestibular, já foi direto. (JOVEM/ACADÊMICA 2).
O jovem/acadêmico (4) teve um percurso misto, durante um período estudou em escola particular e depois freqüentou escola pública. Ele acredita que teve uma formação de qualidade.
O ensino fundamental fiz todo no colégio particular, o ensino médio fiz em colégio público, porque onde eu morava não tinha ensino particular, mas foi um ensino de qualidade. (JOVEM/ALUNO 4).
Os demais entrevistados estudaram somente em escolas públicas, sendo que a jovem/acadêmica (2) fez o ensino fundamental em escola da zona rural, e, segundo ela os alunos dessas escolas são prejudicados, pois estão distantes de muitas coisas que podem contribuir para o desenvolvimento da aprendizagem. O ensino médio foi cursado em Gurupi, que ela considera uma cidade grande, se comparada com a realidade anterior.
Sempre estudei em escolas públicas, mas até o ensino fundamental nunca tinha chegado perto de uma piscina, mas assim era na fazenda o único contato que nos tínhamos era com os matos e bichos lá, depois que fui conhecer a cidade. Que mais marcou minha vida foi o ensino médio em Gurupi assim que eu cheguei aqui foi onde eu conheci tudo, porque na
verdade saí do interior (...) não tinha noção e não sabia de quase nada e conheci coisas diferentes (JOVEM/ACADÊMICA 2).
Em estudos sobre trajetórias escolares, Nogueira (2004) diz ser consenso que essa trajetória não é completamente determinada pelo pertencimento a uma classe social e, portanto, que ela se encontra associada também a outros fatores, como as dinâmicas internas das famílias e as características pessoais dos sujeitos, ambas apresentado certo grau de autonomia em relação ao meio social.
Em outro estudo sobre arbitrário cultural dominante, Nogueira (2007), defende que, ao tratar de modo igual quem é diferente, a escola privilegia, de maneira dissimulada, quem por sua bagagem familiar, já é privilegiado:
Uma vez reconhecida como legítima, ou seja, como portadora de um discurso universal (não arbitrário) e socialmente neutro, a escola, na perspectiva bourdieusiana, passa a exercer, livre de qualquer suspeita, suas funções de reprodução e legitimação das desigualdades sociais. Essas funções se realizariam, em primeiro lugar, paradoxalmente, por meio da eqüidade formal estabelecida pela escola entre todos os alunos. (NOGUEIRA, 2007, p.37 e 38).
Mesmo tendo estudado todo o período em escolas públicas, a jovem/acadêmica (6) avalia positivamente a experiência, apesar de considerar que poderia ter aprendido mais.
Eu diria que a gente só dá valor depois que perde, eu tenho muita saudade (...) eu diria que foi uma época muito boa na minha vida, mas que eu até descobri um pouco tarde, mais que valeu a pena (JOVEM/ACADÊMICA 6).
Com exceção do jovem/acadêmico (4), todos os entrevistados estudaram somente em escolas públicas ou públicas conveniadas, e assim que concluíram o ensino médio, já prestaram o vestibular para Educação Física e foram aprovados.
Considerando que essa faculdade cobra uma determinada mensalidade, esses jovens/ acadêmicos podem ser comparados a aqueles que fazem parte do que Romanelli (2000) chama de circuito vicioso, o estudante freqüenta o ensino fundamental e médio em escolas públicas e ensino superior em instituição privada ou conveniada. E esse percurso está relacionado à situação social e econômica da família e influencia tanto no ingresso ao ensino superior, quanto ao futuro profissional.