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A época de Gierek começa com a tentativa de recuperação da economia. Na viagem para Moscou, o primeiro secretário do POUP consegue os créditos, utilizados para injetar no mercado polonês maior quantidade de artigos de consumo imediato. O líder viaja pelo país e mobiliza os trabalhadores para o esforço máximo, enfatizando que dele depende a melhoria da qualidade de vida da população. Gierek faz críticas à política econômica de Gomułka, mas evita falar no massacre do levante operário nas cidades portuárias. De fato, poucos poloneses têm opinião formada sobre os acontecimentos em Gdańsk54.

Gierek consegue dinamizar a economia do país no início da década. Aproveitando a atmosfera do abrandamento das tensões no palco da política internacional, o líder polonês viaja freqüentemente para os países do bloco capitalista, em busca dos financiamentos. Os créditos concedidos pelos bancos ocidentais são empregados na compra de modernas tecnologias e investidos na indústria. O governo gasta as reservas monetárias na importação dos bens de consumo imediato. O polonês médio encontra, no mercado, atraentes artigos considerados exóticos na época passada: cacau, café, frutas cítricas e luxuosos eletrodomésticos com preços acessíveis. Ao mesmo tempo, cresce o salário mínimo e congelam-se os preços da cesta básica. A melhoria da qualidade de vida gera um ambiente de bem estar. A propaganda governamental mantém a imagem do primeiro secretário como estadista providencial e criador do socialismo mais humano. As comemorações do trintenário da democracia popular na Polônia (1944-1974) ocorrem em ritmo de crise superada.

53 Ou um “socialismo de fartura” - dois slogans lançados no início da época de Gierek.

54 A população está mal informada. Todos os meios de comunicação, rigorosamente controlados pelo

regime, fornecem uma visão tranqüilizadora da situação política e econômica no país. Os proibidos programas das emissoras de rádio estrangeiras, que emitem notícias na língua polonesa, sofrem interferências técnicas, e a distribuição da imprensa ilegal é muito precária. No início dos anos setenta, são relativamente poucas as pessoas que têm acesso à informação não-controlada pelo regime. A distribuição da informação alternativa intensifica-se ao longo da década de setenta.

Paralelamente à abertura na política exterior, a política interna do governo caracteriza-se por gradativo fechamento - intensifica-se o controle do Estado sobre o cidadão, e crescem as forças policiais no país. No dia primeiro de agosto de 1975, a Polônia está entre os 35 países assinantes do documento final da Conferência em Helsinque. Gierek assina a parte do acordo sobre a solução não violenta dos conflitos internacionais, e sobre a soberania e a igualdade dos estados europeus, com plena convicção de que atendem aos anseios da política polonesa. O terceiro pacote do arranjo de Helsinque, referente aos direitos humanos, e em especial, sobre o monitoramento externo das liberdades individuais e dos direitos do cidadão, apresenta um problema para o regime.

No país, cresce a oposição ao regime comunista, de modo particular, após a divulgação das mudanças no texto da constituição, planejadas pelo governo55. As

reações surgem dos círculos da elite intelectual e da Igreja Católica. O governo leva em conta as considerações expressas pela sociedade e desiste das formulações propostas originalmente. A nova constituição é proclamada em 10 de fevereiro de 1976.

A segunda metade dos anos setenta é marcada pela crescente crise econômica. O congelamento dos preços da cesta básica desde 1971, os investimentos equivocados na indústria, os juros gerados pelos empréstimos dos bancos estrangeiros, a crise do petróleo e a recessão da economia mundial desequilibram a economia do país (DAVIES, 1981, p. 627). O regime decide elevar os preços, a partir da segunda-feira, de 28 de junho de 1976, e o primeiro ministro Piotr Jaroszewicz (1909-1992) é designado para dar a notícia à população. O premier anuncia o aumento dos preços da cesta básica, em média de 75%, na quinta-feira, no dia de 24 de junho. Na segunda-feira seguinte, 40 fábricas em todo o país param a produção e deflagram a greve. Contra os grevistas e os manifestantes nas ruas das cidades, o regime lança reforçadas formações da polícia56, que pacifica as manifestações obedecendo à ordem de não

usar as armas de fogo. Restabelecida a disciplina nas cidades atingidas pelo

55 As alterações propostas introduzem na constituição a menção da indissolubilidade da aliança com a

URSS, a ratificação da posição privilegiada do POUP enquanto líder da política da RPP, e a limitação dos direitos humanos, atrelando os direitos do cidadão ao cumprimento dos deveres perante o Estado.

56 No início da década de Gierek, reestruturaram-se as forças da polícia, chamada em polonês, desde

sua criação em 1944 até a dissolução em 1990, de Milicja Obywatelska (Milícia Cidadã). Em 1972 foram reforçadas as unidades policias do combate às manifestações, criadas em 1956 (WIELKA, 2006).

movimento grevista, Jaroszewicz anuncia na segunda-feira, em dois de julho, que tendo o governo atendido ao resultado da consulta popular realizada entre os operários, decide retirar do parlamento a proposta do aumento dos preços da cesta básica. No sábado seguinte, os meios de comunicação relatam os acontecimentos de junho, como tumultos provocados pelos marginais. A propaganda do regime começa a ação contra os elementos subversivos, com manifestações de apoio em todas as partes da Polônia. As represálias atingem os organizadores da greve e os manifestantes detidos nas ruas. Os tribunais sentenciam altas multas pecuniárias e penas, de cinco a dez anos de prisão. Os condenados são sumariamente demitidos.

Diante da retaliação do regime que atinge os operários e suas famílias, a sociedade polonesa reage espontaneamente. As colaborações vêm dos círculos sociais mais variados: cooperam os intelectuais e estudantes, artistas e escritores, os escoteiros e a Pastoral da Caridade da Igreja Católica, organizando arrecadações entre seus simpatizantes. Paralelamente à ajuda material, organiza-se a assessoria jurídica para os detidos manifestantes e grevistas. No início, a ação desenvolve-se em sigilo, com precaução, para despistar a polícia secreta57.

No decorrer do tempo, alguns organizadores do movimento decidem apresentar ao parlamento polonês uma carta aberta de protesto. Assinada por 14 intelectuais, a carta é entregue ao presidente da assembléia, pelo conhecido escritor Jerzy Andrzejewski (1909-1983), no dia 23 de setembro de 1976. A carta informa sobre a criação do independente Comitê de Defesa do Trabalhador58. O Comitê exige anistia

para os operários presos, readmissão de todos os demitidos e apuração das responsabilidades pela violência praticada durante a pacificação das manifestações. O Comitê pretende exercer suas atividades publicamente. De início, o regime parece não saber qual posição deveria tomar diante da assumida tentativa de oposição. Gierek pretende pedir mais empréstimos aos bancos europeus e norte-americanos, e diante do recém assinado Acordo de Helsinque, teme ser impedido pelas organizações de defesa dos direitos humanos. A polícia secreta adverte os organizadores do Comitê, que em

57 Em polonês, Służba Bezpieczeństwa. Criada em 1944, para a proteção dos interesses do estado, a

polícia secreta serviu para detectar e destruir todas as formas de oposição ao sistema comunista. A formação responsável pelos assassinatos e seqüestros foi reestruturada e renomeada em 1990.

seguida sofrem todo tipo de restrições: demissões, interdição das publicações, buscas minuciosas nos apartamentos. Ninguém, porém, é detido. Diante de tanta passividade do regime, multiplicam-se as formas organizadas da oposição, que na sua maioria atuam permanecendo na clandestinidade. Todos os grupos começam a publicar semiclandestinamente59 seus informativos e boletins.

Em 1978, na região industrial de Silésia60 e na cidade de Gdańsk os operários

realizam uma tentativa frustrada de criar os sindicatos independentes. Um dos organizadores dos sindicatos na cidade portuária é membro do comitê dos grevistas de 1970, eletricista do estaleiro de Gdańsk, Lech Wałęsa.

Os acontecimentos do final do ano de 1978 dificultam mais ainda a situação do regime comunista polonês. No dia 16 de outubro, o cardeal polonês Karol Wojtyła (1920-2005) é escolhido líder da Igreja Católica no mundo. João Paulo II expressa logo a vontade de visitar seu país, e recebe o convite do governo polonês. A primeira peregrinação, que acontece nos dias de 2 a 10 de junho de 1979, é um sucesso da Igreja e da oposição, tanto do ponto de vista organizacional, como também do ponto de vista da participação das mais variadas camadas da sociedade nos encontros com Wojtyła. O surgimento da oposição e o fortalecimento da Igreja colaboram diretamente para o nascimento do Sindicato Independente Solidarność, depois da greve geral, no mês de agosto de 1980.

Depois do inverno extremamente rigoroso, que provocou a falta de energia elétrica e dos combustíveis, demonstrando, desta maneira o despreparo da administração pública, o ano começa com dificuldades em fornecimento dos artigos da cesta básica. O governo reage com o ajuste dos preços que provoca greves isoladas, amenizadas logo com o pagamento de indenizações às categorias mais importantes para a economia do país. Mas no mês de agosto, a Polônia inteira pára. A greve geral é coordenada pelos comitês da greve de nível territorial, que por sua vez, elegem suas representações para o Comitê Interfabril de Greve61, presidido no estaleiro de Gdańsk,

por Lech Wałęsa. No dia 20 de agosto, quando o Comitê Interfabril representa já 300

59 Os grupos de oposição são ilegais e não possuem a licença de editar seus periódicos, embora os

autores dos textos, na sua maioria, assinem os artigos.

60 A região sudoeste da Polônia, em polonês: Śląsk. 61 Em polonês: Międzyzakładowy Komitet Strajkowy.

fábricas e empresas de todo o país, uma delegação dos intelectuais poloneses chega a Gdańsk, com a carta assinada por 64 celebridades das ciências, das artes e do jornalismo, solidarizados com a greve dos operários. A delegação permanece no estaleiro até o final da paralisação, assessorando o Comitê Interfabril. Esta é a primeira vez na história da Polônia do pós-guerra que os operários e a intelligentsia formam uma só frente, em oposição ao regime. No final do mês de agosto de 1980, as partes assinam um acordo, em que o governo compromete-se a realizar todos os 21 postulados dos grevistas, começando pelo primeiro, o registro do Sindicato Independente Solidarność62. Os acontecimentos do assim chamado agosto polonês

levam à queda o Primeiro Secretário do partido. A decisão é tomada no Plenário do Comitê Central do POUP, e o afastamento de Edward Gierek é justificado por razões de saúde.