Recena (2011, pg. 61) define argamassa como “o material de construção obtido a partir da mistura de uma pasta com um agregado miúdo, podendo ainda haver o emprego de aditivos e adições”. Para esse autor, pasta é o material obtido da mistura de um ou mais aglomerantes de origem mineral com água, e a argamassa será obtida, então, incorporando um agregado miúdo, normalmente areia natural, à pasta. Deve-se anotar que, durante a mistura, pode ocorrer o aprisionamento natural ou intencional do ar, sendo este último pela ação de aditivos específicos.
Para Carasek (2010, p. 893), argamassas são materiais de construção, com propriedades de aderência e endurecimento, obtidos a partir da mistura homogênea de um ou mais aglomerantes, agregado miúdo e água, podendo conter ainda aditivos e adições minerais. Os materiais constituintes de uma argamassa de revestimento podem ser o cimento e/ou a cal, o agregado miúdo, a água, os aditivos e as adições.
O cimento tem a função de aglomerante hidráulico e de prover resistência. A cal tem as funções de aglomerante aéreo e de ajudar na trabalhabilidade e na consistência da mistura. O agregado miúdo tem a função de resistência, aumento ou diminuição da densidade da mistura e controle da contração e retração, bem como de redução de custo.
A água, nos instantes iniciais, de preparo da argamassa, tem a função de permitir o contato entre as partículas, participar nas reações de hidratação do cimento e de regular a consistência e fluidez da mistura. Segundo Pinto (1986, p. 11) a água, quando misturada ao cimento e/ou cal, formará um produto que recobrirá toda a superfície da areia, sem interposição de películas ou elementos estanhos os quais poderão dificultar a hidratação do cimento. Componente desejável ou indesejável pode ser o ar, que, na mistura, modifica a trabalhabilidade da argamassa no estado fresco, e afeta a porosidade no estado endurecido.
Argamassas ainda podem receber o emprego de adições e aditivos. Segundo a NBR 13529 (ABNT, 2013h, p. 8), adições são materiais inorgânicos naturais ou industriais adicionados às argamassas para modificar as suas propriedades, como pó calcário, saibro, materiais pozolânicos, por exemplo. A mesma norma define aditivo como o “produto adicionado à argamassa em pequena quantidade, com a finalidade de melhorar uma ou mais propriedades, no estado fresco ou endurecido”.
Carasek (2010, p. 896) aponta que, visando satisfazer às suas funções, algumas propriedades tornam-se essenciais para as argamassas, a saber:
a) trabalhabilidade, especialmente consistência, plasticidade e adesão inicial; b) retração;
c) aderência;
d) permeabilidade à água;
e) resistência mecânica, principalmente a superficial; f) capacidade de absorver deformações.
As principais funções de um revestimento de argamassa de parede, segundo Carasek (2010, p. 901), são:
a) proteger a alvenaria e a estrutura contra a ação do intemperismo, no caso dos revestimentos externos;
b) integrar o sistema de vedação dos edifícios, contribuindo com diversas funções, tais como: isolamento térmico (aproximadamente 30%), isolamento acústico (aproximadamente 50%), estanqueidade à água (aproximadamente 70 a 100%), segurança ao fogo e resistência ao desgaste e abalos superficiais;
c) regularizar a superfície dos elementos de vedação e servir como base para acabamentos decorativos, contribuindo para a estética da edificação.
Relativo à aplicação, Carasek (2010, p. 901) acrescenta que “a consistência e a plasticidade da argamassa deverão ser diferentes se a argamassa for aplicada por meio de colher de pedreiro (aplicação manual), ou se for projetada mecanicamente”.
A facilidade com que as argamassas podem ser misturadas, transportadas, aplicadas, consolidadas e acabadas, em uma condição homogênea, é determinada pela trabalhabilidade. Propriedade complexa, a trabalhabilidade é resultante da conjunção de diversas outras propriedades, tais como: “consistência, plasticidade, retenção de água e de consistência, coesão, exsudação, densidade de massa e adesão inicial” (CARASEK, 2010, p. 905). Essas propriedades estão relacionadas na Tabela 2.1.
Tabela 2.1 - Propriedades relacionadas com a trabalhabilidade das argamassas
Propriedades Definição
Consistência É a maior ou menor facilidade de a argamassa deformar-se sob ação de cargas.
Plasticidade É a propriedade pela qual a argamassa tende a conservar-se deformada após a retirada das tensões de deformação.
Retenção de água e de
consistência É a capacidade de a argamassa fresca manter sua trabalhabilidade quando sujeita a solicitações que provocam a perda de água. Coesão Refere-se às forças físicas de atração existentes entre as partículas
sólidas da argamassa e as ligações químicas da pasta aglomerante. Exsudação É a tendência de separação da água (pasta) da argamassa, de modo que
a água sobe e os agregados descem pelo efeito da gravidade. Argamassas de consistência fluida apresentam maior tendência à exsudação.
Densidade de massa Relação entre a massa e o volume de material.
Adesão inicial União inicial da argamassa no estado fresco ao substrato
Fonte: Carasek, 2010, p. 905.
A análise dessas propriedades mostra o complexo papel das argamassas nos revestimentos, visto que algumas dessas funções são antagônicas. Por exemplo, a argamassa de revestimento no estado endurecido tem que ser suficientemente rígida, com boa resistência mecânica para resistir aos choques e abrasão e, ao mesmo tempo, ter adequada flexibilidade para absorver deformações devidas aos movimentos da estrutura, da variação de temperatura e da umidade. A Tabela 2.2 mostra os principais requisitos que devem ter as argamassas.
Tabela 2.2 - Principais requisitos e propriedades das argamassas para as diferentes funções
Tipo da
argamassa Função requisitos/propriedades Principais
Chapisco Garantir ou incrementar aderência entre a base e o revestimento de argamassa Contribuir com a estanqueidade da vedação
Aderência Emboço e
camada única Proteger a alvenaria e a estrutura contra a ação do intemperismo Integrar o sistema de vedação dos edifícios,
contribuindo com diversas funções (estanqueidade etc.)
Regularizar a superfície dos elementos de vedação e servir de base para acabamentos decorativos Trabalhabilidade (consistência, plasticidade e adesão inicial) Baixa retração; Aderência
Baixa permeabilidade à água Capacidade de absorver deformações Resistência mecânica Argamassa colante (assentamento de revestimento cerâmico)
“Colar” a peça cerâmica ao substrato Absorver deformações naturais a que o
sistema de revestimento cerâmico estiver sujeito
Trabalhabilidade (retenção de água, tempo em aberto, deslizamento e adesão inicial) Aderência
Capacidade de absorver deformações (flexibilidade) – principalmente para fachadas Argamassa de rejuntamento (das juntas de assentamento das peças cerâmicas) Vedar as juntas
Permitir a substituição das peças cerâmicas Ajustar os defeitos de alinhamento;
Absorver pequenas deformações do sistema
Trabalhabilidade (consistência, plasticidade e adesão inicial) Baixa retração; Aderência Capacidade de absorver deformações (flexibilidade) – principalmente para fachadas Fonte: Carasek, 2010, p. 904, adaptado.
Para evidenciar a importância dos revestimentos aderidos aos substratos, a Figura 2.1 mostra uma parede de alvenaria que não recebeu revestimento, apresentando degradação dos blocos junto à base, comprometendo o desempenho da edificação.
Figura 2.1 - Alvenaria sem revestimento, apresentando degradação dos blocos