Na primeira metade do século XIX, chegaram à região hoje ocupada pelo município de Rio das Flores os primeiros grupos de colonizadores, que se dedicaram desde logo, à cultura do café, cujas plantações, em breve, recobriram vastas extensões até essa época ocupadas pela mata virgem. Em 1815, a localidade foi capela curada, sob a invocação de Santa Teresa, subordinada à freguesia de Nossa Senhora da Glória, Vila de Valença, atual município de Marquês de Valença, recebendo, quatro anos mais tarde, o predicamento de freguesia. Já no período republicano, foi a localidade emancipada da tutela de Valença. Localizando-se a sede da nova comuna fluminense na vila de Santa Teresa, que foi elevada à categoria de cidade em 1929 (IBGE, 2017).
Rio das Flôres é uma pequena cidade situada no interior do Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente, no sul do estado. Atualmente, a cidade tem uma população estimada de 9.222 pessoas, com uma densidade demográfica de 17,90 habitantes por quilômetro quadrado, sendo a 88ª (octogésima oitava) cidade no ranking populacional, entre as 92 do estado (IBGE, 2017).
Pela densidade demográfica apresentada, trata-se de uma cidade em que há poucos habitantes, de modo que é comum que "todos/as se conheçam", o que, para o contexto dessa pesquisa, não é um dado aleatório, uma vez que a pessoa trans que vive em Rio das Flôres tem sua vida "conhecida" por toda a cidade, de modo que há implicações subjetivas nisso, principalmente para os processos de assumir e transicionar, já que para além de contar para a família, essas pessoas têm que lidar com as expectativas e reações de "uma cidade inteira".
A média salarial dos moradores é de 1,4 salários mínimos, sendo que 33,4% da população vive com renda mensal per capita de até meio salário mínimo, estando a cidade em último lugar no ranking de salário médio mensal de todo o estado, o que aponta que a população rioflorense é a que menos ganha, mensalmente, ou seja, trata-se de uma população, maiormente, pobre (IBGE, 2017). Segundo dados do site "Prefeitura Municipal de Rio das Flôres" (2019), atualmente, a cidade tem sua economia baseada na agropecuária e no turismo.
Com relação à educação, a cidade tem uma taxa de escolarização de 98,5% da população entre 6 e 14 anos frequentando a escola, sendo os resultados do IDEB para os anos iniciais do ensino fundamental, de 5,3 e para os finais, de 3,9, estando em 21º (vigésimo primeiro) lugar no estado,
Para além das questões que se baseiam em dados e estatísticas, apresento uma análise sociológica, feita como pesquisadora e moradora da cidade de Rio das Flôres e frequentadora da cidade vizinha, Valença (RJ).
Rio das Flôres se ergueu economicamente a partir da economia cafeeira. A cidade faz parte do "Vale do Café", do qual compartilham os municípios de Paty do Alferes, Volta Redonda, Piraí, Barra do Piraí, Miguel Pereira, Paracambi, Mendes, Paraíba do Sul, Barra Mansa, Engenheiro Paulo de Frontin, Pinheiral, Rio das Flores, Valença e Vassouras, todos no estado do Rio de Janeiro.
O "Vale do Café" é assim denominado uma vez que essas cidades tiveram importante papel na economia do estado e do país, por meio da produção e exportação do café e utilizam dessa herança do passado para tentar promover o "turismo do Vale do Café". Segundo a FECOMÉRCIO (2010, p. 73):
A herança do período cafeeiro, representada por seu patrimônio material, suas fazendas, igrejas, praças e casario antigo, e imaterial, sua gastronomia, história, costumes, entre outros são elementos utilizados pelos municípios para recuperar suas economias
fragilizadas (com a decadência do café e diminuição de atividades posteriores a esse período) a partir do turismo.
Ocorre que não apenas o turismo tornou-se a herança do período cafeeiro, mas também diversas outras características da cidade. Sendo assim, percebe-se, ainda hoje, uma perspectiva coronelista, que dá grande importância aos nomes de "grandes famílias", herdeiras dos senhores das grandes fazendas.
Neste contexto, as relações sociais, de gênero, sexualidade e raça na cidade, ainda guardam alguns "resquícios" deste período, sendo comum, por exemplo, uma pessoa ser conhecida (e bem aceita nos grupos sociais) devido a seu sobrenome, que retoma um passado de "classe social" economicamente bem-sucedida, que nem sempre condiz com a realidade do presente, mas, ainda assim, garante status.
Outro fato "curioso" é que, o atual prefeito, Vicente Guedes, já foi eleito por quatro vezes na cidade e que, entre todos os que passaram pelo executivo, apenas uma foi mulher, Soraia Graça, eleita no ano de 2012. A representação feminina na câmara dos vereadores foi também muito pequena. Desde o ano 2000, até o presente momento, apenas 4 mulheres foram eleitas para a câmara de vereadores, em anos diferentes, sendo consideradas as reeleições, de modo que em 2000, foram eleitas 2 mulheres, em 2004, também 2, e em 2008, 2. Depois de 2008, nenhuma mulher foi eleita para vereadora11.
Rio das Flôres nunca teve um/a representante LGBTQI+ ocupando cargo no governo, seja no legislativo ou no executivo, e não tem conselho municipal de direitos da mulher ou LGBTQI+. Hoje, a câmara municipal é formada por 9 homens anunciados héteros e, em sua maioria, brancos.
Portanto, trata-se de uma cidade com características rurais, que ainda carrega muito de seu passado coronelista, heterocentrado e escravagista, o que faz com que haja, não como via de regra, mas ainda assim haja, algumas expressões racistas, machistas e LGBTQIfóbicas que são, ainda, por muitos, consideradas "brincadeiras inocentes".
Também pertencente ao Vale do Café e carregando a mesma "herança ideológica" citada acima, Valença é uma cidade maior que Rio das Flôres e muito mais populosa. Sua população estimada pelo IBGE (2017) é de 76.173 pessoas,
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Pesquisa feita no site do TRE. Disponível em: https://www.tre-
rj.jus.br/site/eleicoes/index.jsp?vmenu=dados_historicos/busca_dados/index.jsp&vmenu_aux=historic os Acesso em 15 de maio de 2019.
com densidade demográfica de 55,06. O salário médio da população é de 1,8, estando em 55º no ranking do estado. Com relação à educação, a cidade teve média 5 no IDEB de 2015 para os primeiros anos do Ensino Fundamental, e 4,5 para os anos finais. A média de alunos/as estudando entre 6 e 14 anos é de 97,7%.
A cidade apresenta características parecidas com Rio das Flôres, porém, destaca um avanço maior na urbanização e em questões relacionadas ao público feminino e LGBTQI+, pois conta com um conselho municipal de direitos da mulher, um Conselho Municipal de políticas LGBTQI+ (CMLGBT) e um Núcleo de Atendimento à pessoa Trans (NAT).
O contexto político é mais amplo, com mais grupos e partidos, e mais ações políticas e de protesto nas ruas. Porém, o cenário político local ainda é predominantemente tomado por homens brancos e héteros.