' Chambre d'Agriculture
AVIS DE LA CHAMBRE DE COMMERCE
Ao propor uma restauração na cultura alemã27, Nietzsche examina as
instituições de ensino responsáveis por administrar as diferentes etapas de formação dos jovens. O ginásio, a escola técnica e a universidade demonstram a decadência de uma cultura apressada e uma formação rápida destituída de concisão e rigor. Neste sentido, Nietzsche inicia suas críticas ao ginásio, pois, é neste ambiente que irá refletir as fases posteriores de aprendizado de uma renovação cultural, a qual era a sua preocupação na época sob forte influência das ideias de Schopenhauer.
A língua é destacada como o primeiro elemento propulsor de uma autêntica cultura, pois possibilita o aluno a exprimir seu pensamento de diferentes formas, aprimorando constantemente. Segundo Nietzsche, a tarefa dos estabelecimentos de ensino de alta qualidade é a de levar a língua a sério. Por isso, a crítica de Nietzsche à defasagem da linguagem diante do movimento jornalístico com “pretenso estilo elegante”, ou seja, umas escritas na quais todos escrevem e falam mal:
26Cf.SE, §2, p. 81.
27Observemos que no Ecce Homo, Nietzsche se reportando a terceira e no texto da quarta
Extemporâneas, dirá que elas indicariam “um mais elevado conceito de cultura, para a restauração do conceito de “cultura”, duas imagens do severo amor de si, cultivo de si, tipos extemporâneos par
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Se vocês não chegarem a experimentar um desgosto físico por certas palavras e jargões, aos quais os jornalistas nos habituaram, então, devem renunciar à aspiração da cultura: pois é aqui, bem perto de vocês, a cada momento em que falam e escrevem, que têm uma pedra de toque para compreender a dificuldade, a imensidão da tarefa do homem culto e a improbabilidade que deve haver para que muitos de vocês alcancem uma cultura autêntica (EE. §II, p. 81).
É preciso, para a formação do homem cultivado, o domínio de sua língua através do hábito e da obediência, pois para Nietzsche a educação começa pelo “hábito linguístico”. É a partir do hábito linguístico que o professor deveria chamar a atenção dos seus alunos para a inadequação vocabular de determinadas expressões e palavras dos “lugares comuns” da imprensa jornalística. Seria tarefa de o mestre levar aos seus estudantes a “leitura dos clássicos linha por linha” e estimular “seus alunos a exprimir o mesmo pensamento várias vezes a fim de melhorar a cada momento” (EE, §II, p. 82).
O que está em pauta é a crítica à instrução puramente prática com a qual os professores conduziam o ensino da língua materna como um idioma morto. O hábito, ao qual Nietzsche se refere, não é domesticação e acumulação de saber. O “hábito linguístico” seria o requisito para uma “autêntica cultura" e a partir dela, os jovens poderiam continuar a construir uma língua artística, a partir dos trabalhos daqueles que procederam, tornando-se assim, senhores de sua língua. Os educadores deveriam habituar seus estudantes a uma “severa ‘educação de si’ no domínio da língua”.
Trata-se de considerar a “língua um organismo vivo”, complexo. Por isso, a linguagem deve ser vivida e não apenas colocada ao âmbito do falar, ou seja, a expressar apenas palavras que relacionam a um determinado fato. No entanto, o que se percebe, segundo Nietzsche, é que o estudante do ginásio é levado por seus mestres ao acúmulo da erudição puramente histórica, pois, os mestres tratam o corpo vivo da língua como algo morto. É preciso extrapolar a concepção burocrático- cientificista do ensino, por exemplo, superando as noções de estudar a língua apenas como objeto sem vida:
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(...) mas a cultura começa justamente quando se começa a tratar o vivo como vivo, e a tarefa do mestre da cultura começa justamente pela repressão de um ‘interesse histórico’ que em todo lugar procura penetrar, lá onde é preciso antes de tudo agir adequadamente, e não conhecer. Ora, a nossa língua materna é um domínio no qual o aluno deve aprender a operar convenientemente: e é somente deste ponto de vista prático que o ensino alemão é necessário nos nossos estabelecimentos de ensino (EE, §II, p. 83).
É imprescindível atentarmos para o fato de Nietzsche vivenciar grandes transformações em seu país, particularmente relacionadas às questões políticas e culturais do contexto histórico de sua época e que influenciaram as suas conferências e o modelo de educação ao qual critica.
Até o final do século XVIII a cultura alemã estava ligada aos ideais neo- humanista28. A concepção neo-humanista começa a se modificar a partir do processo
tardio de uma Alemanha particularista e patriarcalista à Alemanha capitalista e industrial. Segundo Marton (2006), se no final do século XVIII, a cultura manifestava um ideal de criação desligada de questões utilitaristas, a partir de 1870 passa a vincular-se às exigências e designíos da moda que lhes são convenientes. Os institutos profissionais e as escolas técnicas se proliferam por todo o país e as universidades passam a oferecer cursos especializados:
Agora, ela está atrelada às exigências do momento, aos caprichos da moda, aos ditames da opinião pública. Antes, o ensino deveria ser puro, desvinculado de objetivos práticos. Agora, com a proliferação dos institutos profissionais e escolas técnicas e com o desfalecimento das universidades em cursos especializados, ele converte-se em ensino de classe (MARTON, 2006, p. 18).
Nietzsche ao criticar a cultura de sua época entende que há um antagonismo existente na modernidade, sendo o Estado e a Cultura adversários que vivem se beneficiando um a expensas do outro. Em detrimento de uma formação humanística, há uma instrução alicerçada pelo excesso histórico e científico. É interessante
28Segundo a autora Marton (Cf. 2006, p. 18.), os neo-humanistas consideravam a cultura e a civilização
gregas a realização mais acabada e perfeita do gênero humano; Pretendendo resgatar antigos ideais, eles identificam de alguma forma, o espírito grego e o alemão.
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destacarmos que no arcabouço das teses e temas gerais que perpassam as críticas nietzschianas, fica evidente segundo Weber (2009);
1º. criação de um Sistema Nacional de Educação, caracterizado pela padronização e destruição das diferenças regionais; 2º interferência excessiva do Estado nos assuntos da cultura; 3º. Contraposição entre a cultura científica e a cultura clássica; 4º a filosofia universitária como destruição da verdadeira filosofia; 5º contradição entre os objetivos das instituições para a cultura e das instituições para a sobrevivência; 6º centralidade do ginásio para o desenvolvimento da cultura; 7º obediência como princípio fundamental do ginásio; 8º importância do cultivo da língua pátria; 9º a importância das escolas técnicas; 10º crítica da liberdade acadêmica29.
Assim, é preciso questionar: como se relacionariam a cultura, educação e o Estado neste cenário identificado por Nietzsche? A este respeito, é preciso entender duas tendências que estão em vigor na Alemanha do século XVIII: a ampliação e a redução da cultura que, a nosso ver, repercute no cenário brasileiro.