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Quando John Middleton Murry, o marido de Mansfield, publicou postumamente “The Dove’s nest and others stories”, uma compilação de contos não publicados da autora onde constavam os seus contos inacabados, escreveu uma nota introdutória onde afirmava acreditar que este conto continha um dos últimos trechos escritos pela autora:

There is a reason (…) to believe that the passage of the story called “Six years after” which ends with the words: “Can one do nothing for the dead? And for a long time the answer had been – Nothing!” was actually the last piece written by her. It seems to belong to the autumn of 1922, when she had, for a time, practically abandoned writing.” (John Middleton Murry, 1923)

Mais do que em qualquer um dos restantes contos inacabados de Mansfield, em “Seis anos depois” são claramente percetíveis referências autobiográficas. É bastante evidente, em partículas, a referência feita ao falecimento do seu irmão mais novo, como veremos mais adiante.

Estamos perante um conto poderoso e carregado de simbolismo. No início da história, duas personagens são apresentadas ao leitor: trata-se de um casal de meia- idade, casado há vinte e oito anos, que realizava uma viagem de barco.

A imagem do barco sempre foi bastante importante na vida da escritora. Quando era criança, ouvira a sua mãe referir que desejava nunca ter casado e ter tido a oportunidade de viajar (Wright, 1955:128). A própria Katherine sempre desejara sair da sua terra natal rumo à Europa, e vira sempre portanto o barco como um veículo de escape e de mudança.

Em diversos contos de Mansfield esta imagem está presente como um elemento simbólico. “At the bay”, “Prelude”, “A Dill Pickle” e “The Wind Blows” são alguns exemplos de contos onde o barco se afirma como um importante símbolo. Na maioria destes contos, o barco funciona como uma metáfora para a vida, para o escape, representando a fuga de um lugar para outro (seja ele físico ou psicológico) e o triunfo sobre o medo da morte.

Em “Seis anos depois” podemos relacionar a viagem de barco deste casal de meia-idade com a própria viagem de Katherine anos antes, desde a Nova Zelândia até à Inglaterra. Esta viagem não fora apenas física mas também psicológica, na medida em que provocara uma profunda mudança nos seus valores, na sua escrita e na sua vida pessoal.

A viagem do casal de “Seis anos depois” simboliza, da mesma forma, uma mudança espiritual: a passagem da vida para a morte – não a deles, mas a do filho.

O ambiente apresenta-se sombrio e apático, quase fantasmagórico. A personagem masculina, ao contrário da sua mulher, não parece incomodada com o tempo e deseja continuar no convés, pois trabalha muitas horas fechada num escritório e, por conseguinte, viajar funciona como um agradável escape. A mulher, apesar de não partilhar da paixão do marido, acompanhava-o, sem contestar, nas suas viagens.

Neste ponto da história, através dos pensamentos do marido, temos uma perceção dos valores sociais e familiares do início do século XX, que ditavam que a mulher deveria submeter-se à vontade do marido. Apesar de a sua esposa ser uma mulher com pensamentos e personalidade próprios, era forçada pela sociedade a seguir as exigências do marido, o que causava ao último um sentimento de culpa.

Ao longo do conto são feitas várias referências ao mar e aos sentimentos por ele suscitados nas personagens. Essas referências são quase antagónicas: inicialmente, o mar é visto como um Locus amoenus, um lugar que transmite paz e tranquilidade;

contudo, mais à frente na história, o mar é caraterizado como um lugar sombrio e solitário, onde há apenas gaivotas a pairar e a chuva a cair.

A paisagem sombria despoleta na personagem feminina pensamentos mórbidos. Ao fitar o mar, a mulher julga ver uma presença longínqua: a do seu perecido filho. De repente, ela vê-se a segurar este débil rapazinho e a confortá-lo, como se ele não tivesse morrido, mas sim acordado de um terrível sonho. Contudo, o rapazinho havia, de facto, falecido e, por muito que a sua mãe desejasse ir atrás dele e salvá-lo, tal não seria possível.

Ao longo deste conto deparamo-nos com vocabulário carregado de simbolismo. Quase na reta final, identificamos uma metáfora poderosa para a morte quando a narradora compara o final de uma peça de teatro com o final da vida, quase relembrando Shakespeare que, na peça As you like it, afirmara: “All the world's a stage,/ And all the men and women merely players:/They have their exits and their entrances” (Shakespeare, 2000: 10).

Através de algumas referências que indicam que o rapazinho terá morrido na I Guerra, percebemos que este poderá ser uma representação do irmão de Katherine, Leslie, que foi, também ele, vítima deste conflito mundial, tendo morrido, bastante jovem.

A mãe do rapazinho acaba por imaginar, agora, uma presumível vida para o filho: imagina-o casado e com filhos, o que causa no rapazinho um grande sentimento de angústia, pois ele está consciente de que a sua vida terrena terminou e que nunca será capaz de realizar estes propósitos.

O conto reflete a tristeza e o sofrimento que Mansfield experienciou aquando da morte do seu irmão (Morrow, 1993: 4).

É de salientar que este conto foi escrito sete anos após a morte de Leslie e quatro anos após a morte da sua mãe, o que justifica a sua natureza mórbida, assim como as saudades de Katherine teria dos seus entes queridos e da sua terra natal, na fase final da sua própria vida. Em 1922, quando a escritora redigiu este conto, encontrava-se já numa fase terminal da sua doença, sendo pois natural esta sua obsessão por retratar e abordar o tema da morte.

Apesar de o conto se caraterizar por um relativo subjetivismo, termina com uma mensagem realista. Enquanto a mãe se senta a pensar nas palavras do seu filho, observa o pequeno barco a vapor a avançar, como se o final da viagem estivesse a terminar, o que de facto, aconteceu em 1919, ano do falecimento da autora.