consenso mínimo em torno da ideia de que ela é a modalidade de educação em que as atividades de ensino e aprendizagem são geralmente desenvolvidas sem que alunos e professores estejam presentes no mesmo lugar e na mesma hora (Moore; Kearsley, 2007). O contexto das propostas pedagógicas que apresentamos na sequência refere-se ao Plano Nacional de Formação da Educação Básica Pública (Parfor), programa com vistas a atender a demanda por formação de professores em exercício que atuavam sem habilitação adequada. Por mais que as experiências que vivenciamos nesse contexto tenham sido relacionadas ao curso de Letras/Inglês, acreditamos que as propostas podem ser adaptadas para qualquer outra área do curso de Letras. Dentre as várias ferramentas da Web, optamos por discorrer sobre Wikis, Vídeos, Glossário e Quizzes.
4.1 Wikis: produção colaborativa de textos
A produção textual escrita é uma das tarefas mais importantes para o desenvolvimento das habilidades discursivas do educando, especialmente do professor em formação, que em sua atividade profissional terá como responsabilidade oportunizar o desenvolvimento do letramento de seus alunos, encontrando estratégias para o
desenvolvimento das capacidades e habilidades linguísticas dos educandos. Pensando nisso, propusemos várias atividades de produção colaborativa de textos, especialmente com base na leitura de textos teóricos, incentivando a co(e)laboração entre os professores em formação como um enfoque pedagógico importante para o desenvolvimento do diálogo e da autonomia.
Práticas colaborativas de produção escrita sempre existiram no contexto escolar e acadêmico. Mas, com o advento das tecnologias digitais e das ferramentas da Web 2.0, novas formas e espaços de comunicação, bem como novas configurações não apenas para leitura, mas, principalmente, para a escrita, se desenvolveram, ampliando as possibilidades de interação entre pares. Pensando nisso, propusemos atividades de produção colaborativa de textos utilizando a ferramenta
Wiki, do Moodle, para a escrita de sínteses, resumos e resenhas sobre
textos teóricos no curso de Letras/Inglês na modalidade EaD.
Essa atividade constitui-se em um importante recurso de entendimento e reflexão sobre os textos teóricos e, principalmente, em um exercício discursivo significativo de textualização dos gêneros propostos. Ela ainda se alinha aos preceitos da segunda geração da Web, que são a colaboração e a agência em favor do desenvolvimento de uma inteligência coletiva (Levy, 1998), e está ancorada nas recomendações de Doughty e Long (2003) para a EaD: a proposição de tarefa no sentido de promover a aprendizagem através de ações por meio de experiências colaborativas.
4.2 Vídeos: criação de aulas para microensino
A criação de videoaulas, que denominamos de microensino, foi uma das tarefas propostas nessa sequência didática. De acordo com Murta e Souza (2014, p. 48), “o microensino é uma técnica ou procedimento de formação de professores tendo como pressuposto básico a ideia de que, através da redução de complexidade dos fatores envolvidos no ensino – tempo, número de alunos, conteúdo de aula – aumenta-se a eficiência do treinamento”. Tal treinamento é então efetuado por intermédio de aulas curtas (de cinco a trinta minutos), que levam o futuro professor a adquirir, praticar e/ou desenvolver as habilidades técnicas necessárias ao ato de ensinar.
Orientamos os professores em formação para que elaborassem um roteiro para a gravação que fosse baseado na metodologia de seu plano de aula, que simulassem uma situação de sala de aula. Após a filmagem, que utilizassem um editor de vídeos, como o Moviemaker, para a edição da gravação, e, depois de editado, que o vídeo fosse hospedado em um site, como o YouTube, para facilitar a veiculação das videoaulas no Moodle. Disponibilizamos tutoriais no ambiente para que os discentes de Letras tivessem conhecimento das ferramentas sugeridas e os motivamos para que tentassem utilizá-las. Sugerimos, ainda, que os recursos tecnológicos utilizados na gravação fossem aqueles aos quais os alunos/professores tivessem acesso, como o celular e o computador. Estabelecemos alguns critérios para a análise dos microensinos no ambiente Moodle pela turma, que foram: 1. justificativa do tema; 2. objetivos da aula; 3. organização do conteúdo; 4. uso de exemplos; 5. utilização de recursos; 6. interação com o grupo; 7. clareza; 8. fechamento; 9. controle do tempo (Murta; Souza, 2014). Com base nesses critérios, os professores em formação desenvolveram a coavaliação de seus trabalhos. Lembramos que o mais importante era o desenvolvimento das etapas previstas na aula e os objetivos pedagógicos estabelecidos. Contudo, eles deveriam atentar-se para o fato de que a sala de aula é um sistema complexo e, por isso, imprevisível. Nesse sentido, deveriam ter sensibilidade e flexibilidade para reinventar sua prática mediante o surgimento de problemas e de acordo com as necessidades dos alunos.
Essa atividade revelou-se como um momento lúdico e de maior envolvimento e criatividade na formação dos professores. Constituiu-se em uma oportunidade de os professores em formação normalizarem em sala de aula (Bax, 2003, 2011) ferramentas digitais que já estão naturalizadas em seu cotidiano, como o celular, propiciando o desenvolvimento de seu multiletramento pelo fato de terem utilizado diferentes linguagens e mídias. Configurou ainda um momento de desenvolvimento de experiências bem projetadas (Gee, 1992) e significativas, pois os alunos tiveram a oportunidade de analisar e testar criteriosamente conteúdos e ferramentas compreendendo as possibilidades que as várias mídias podem ter para o processo de aprendizagem.
4.3 Glossário: colaboração e retroalimentação no ambiente
virtual
A metalinguagem, o tipo de linguagem cujo propósito é descrever ou falar da própria linguagem ou de qualquer outra, e o jargão, terminologia técnica comum a um grupo específico, são compreendidos como conceitos importantes em um curso de Letras. Os licenciandos podem ser informados por intermédio de bons dicionários e sites de consulta, mas acreditamos que a construção colaborativa de um glossário poderá constituir-se mais engajante e significativa. Essa atividade tende a propiciar a emergência da inteligência coletiva, que, como bem aponta Lévy (1998), revela a contribuição dos indivíduos em suas especificidades. Nossa proposta de construção de glossário (Souza; Murta, 2014) através de ferramenta disponibilizada no ambiente Moodle permeou o todo da disciplina em diferentes unidades de estudo. Para iniciar, levantamos a reflexão sobre a estrutura de um glossário e como este poderia contribuir para a formação dos licenciandos. Elencamos os critérios de participação na atividade e oferecemos uma lista de termos que poderiam servir como ponto de partida para a seleção do termo que iriam definir. Além da palavra ou expressão, seguida de sua definição, a ferramenta permite que sejam acrescidos comentários no termo definido por outro estudante. Em uma instância, pedimos que os estudantes acrescentassem exemplos de uso do termo, e, em outra, que tecessem críticas construtivas de como a definição poderia ser melhorada. Seria possível, ainda, como fizemos em outras experiências, pedir que o comentário fosse a tradução do termo, ou mesmo uma representação imagética.
Ao final, os alunos tinham uma compilação útil de termos que aprenderam de forma colaborativa. A cada nova unidade temática, eles foram incentivados a postar novos termos e a tecer novos comentários, de forma que estavam retroalimentando o sistema que eles próprios criaram. Essa compilação podia ser consultada e também convertida em arquivo PDF para impressão, caso desejassem. Faz-se necessário dizer que nossa experiência ocorreu via Moodle, mas há ferramentas gratuitas disponíveis para que glossários sejam produzidos, como o Glossary Maker (Wordsmith, 2018).
4.4 Quizzes: feedback pontual
Por mais que a Web, especialmente em sua segunda e terceira gerações, constitua-se em um espaço para interação e colaboração, é importante considerar o desenvolvimento individual do aprendiz de línguas e garantir que ele tenha oportunidade de construir conhecimento em seu próprio ritmo. Para Doughty e Long (2003), como apontado previamente, encorajar a aprendizagem indutiva e fornecer correção direta fazem parte de um design apropriado para a educação a distância na área de línguas. A utilização de quizzes, tarefas fechadas com correção automática, que produzimos apoiados em diferentes temas que compunham o currículo delineado, garantiram essa possibilidade. Diferentemente do contexto presencial em que o professor pode corrigir seus alunos assim que a dúvida surge, contribuindo para a sua não perpetuação, as ferramentas em plataformas para EaD tendem para a assincronicidade, o que pode contribuir menos nesse aspecto.
O design de quizzes no Moodle demanda dedicação de tempo por parte do professor formador, mas a partir do momento em que um quiz está completo, fica fácil sua (re)utilização. Há muitas opções de formatação, como questões de associar, de múltipla escolha, de colocar em sequência, de respostas curtas, dentre outras. É interessante atentar para a alternativa de que a resposta correta não precisa necessariamente ser apresentada ao estudante, pois o designer pode fornecer feedback e propor que o usuário tente outra vez. Além disso, é possível dar um feedback explicativo e detalhado tanto no caso de acertos quanto de erros, para que se entenda o porquê de cada resposta.
Uma forma de ampliar o protagonismo dos licenciandos em Letras seria propor atividades em que eles mesmos pudessem gerar seus quizzes, o que pode ser feito com a utilização de plataformas como o Moodle, assim como por meio de sites gratuitos na Web, como o Online Quiz Generator, que apresenta versões em diferentes línguas, inclusive português (Easy LMS, 2019). Com esse tipo de produção, podemos ampliar nossas ações de
download de quizzes criados por outros usuários da Web, ação típica do
período da Web 1.0, e nos tornarmos criadores de conteúdo Web para compartilhar com outros usuários, perfil comum da Web 2.0 (Delich; Kelly; Mcintosh, 2008).