No século XIX o quadro das condições econômicas, sociais, profissionais, sexuais e afetivas das mulheres evolui muito lentamente, distanciando-as ainda mais dos homens, que, apesar das dificuldades existentes, aprimoram, de alguma maneira, seu próprio estado geral. Na Espanha essas diferenças se fazem sentir e provocam a indignação das pessoas mais atentas, como no caso da nossa autora, que denuncia, em artigos publicados nos jornais de então, as atitudes retrógradas dos homens em relação às mulheres. É o que se pode ler no artigo “La mujer española”, escrito para La España moderna, em maio de 1890:
... el hombre no se conforma con que varíe o evolucione la mujer. Para el español, por más liberal y avanzado que sea, no vacilo en decirlo, el ideal femenino no está en el porvenir, ni aun en el presente, sino en el pasado. La esposa modelo sigue siendo la de cien anos hace. Detengámonos en profundizar esta observación, porque ello nos dará la clave de varias contradicciones y enigmas, a primera vista inexplicables, que ofrece la española contemporánea (PARDO BAZAN, 1999b, p. 87).
A imutabilidade das relações atende aos interesses dos varões, que não estimulam qualquer mudança nos vínculos pessoais existentes. Imobilizadas pelas escassas condições com que contam, as mulheres não podem deliberar sobre qualquer assunto que dependa de alguma formação intelectual, único instrumento provável para que se libertem do pantanoso terreno puramente doméstico e adentrem a vida pública, produtiva, em que o trabalho é reconhecido e rende independência financeira e prestígio social.
Dona Emília é veemente em afirmar que grande parte dos problemas da mulher e da sociedade em que está inserida se deve à crença de que homens e mulheres não devem receber a mesma instrução. A autora mostra sua indignação diante da rígida separação de papéis atribuídos por gênero, cabendo aos homens as
responsabilidades que dependem do intelecto e às mulheres os papéis de pouca exigência nesse campo. Essa divisão leva à crença de que o aperfeiçoamento intelectual é benéfico para as atividades masculinas, ao passo que para as obrigações femininas, que se atêm ao cuidado da família e da casa, o conhecimento no sentido intelectual será não só desnecessário como prejudicial. Toda a energia feminina deve concentrar-se no cultivo da felicidade e no bem-estar dos que a cercam, ou seja, a mulher se concentra no alheio, principal motivo de seus pensamentos e alvo de todos os seus esforços, ao passo que a energia do homem se destina ao cuidado de seu próprio crescimento e bem-estar.
Esses valores estão arraigados na sociedade espanhola e dificultam um olhar novo, parecendo ser natural a manutenção dos fatos. Mesmo homens cultos e sensíveis como Benito Pérez Galdós mostram atitude retrógrada, quando são chamados a opinar sobre a situação da mulher. Marina Mayoral registra que, em resposta não enviada, mas anotada no verso do questionário, à revista feminina La vie Heureuse, Galdós (apud MAYORAL, 2003, p. 104). escreve:
Farão feliz a uma mulher as qualidades que realcem e complementem ou supram as qualidades de um homem.
Todas as qualidades que a façam digna de um homem sem parecer com um homem.
O conhecimento do homem e a arte de possuir a ciência da vida e a arte de dissimular isso.
Parece conveniente levar-se em conta o fato de que não se publicou a referida opinião, ou por não ter sido aproveitada por iniciativa dos editores ou por não havê-la enviado o autor. Há sempre a hipótese de dom Benito ter repensado essa primeira opinião e ter decidido não fazê-la pública, acabando por abandoná-la em qualquer cajón, para ser encontrada mais tarde por seus estudiosos. De toda maneira, o episódio evidencia as idéias circulantes na Espanha de então, contra as
quais, a pesar de todos os entraves, se levantam algumas vozes e, entre elas, a de Emilia Pardo Bazán.
Como opina Marina Mayoral, não havia motivos para se acreditar que algo mudaria na situação vivida por parte da humanidade formada pelo gênero feminino:
Dona Emilia não era uma otimista. Não o era com respeito às possibilidades de ser feliz nesta vida, nem de viver um amor ditoso. Os seus romances são – com alguma escassa exceção – um mostruário de diferentes formas de fracasso amoroso. E tampouco era otimista em relação às possibilidades do feminismo na Espanha do seu tempo (MAYORAL, 2006, p. 62).
Mayoral registra, na passagem, o pessimismo de dona Emilia no tocante às personagens de seus romances; podem-se aplicar suas afirmativas, no entanto, à produção contística, pois também aí, como se mostrará no decorrer desta tese, campeiam o desamor, a desarmonia e a desilusão. Mas, embora no seu mundo ficcional não haja lugar para soluções fáceis, Pardo Bazán não desiste de lutar pela igualdade entre homens e mulheres durante toda sua vida. Essa reivindicação é feita para as mulheres em geral e para ela mesma, como no episódio da luta inútil que travou para entrar para a Academia de Letras.
No prólogo a Un drama nuevo de Tamayo y Baus (1984), Alberto Sánchez registra que, no período em que o dramaturgo espanhol foi secretário da Real Academia Española, a partir de 1874, dona Emilia recorreu a ele muitas vezes em suas pretensões, nunca atendidas, de fazer parte daquela congregação.
Juan Valera é um dos intelectuais espanhóis que faz oposição séria à entrada das mulheres às Academias. Embora reconheça que não há razão para que a mulher não possa ocupar esse espaço, alega que a Espanha será ridicularizada se permitir tal precedente. No entender do acadêmico cordovês dar um número de acadêmica à mulher será transformá-la em um “fenômeno raro”. Para Valera (apud
CHARQUES GÁMEZ, 2007, p. 16), a mulher foi designada por Deus para o papel de companheira do homem e seu espaço não deve exorbitar do recinto caseiro: “Na mulher Deus quis dar ao homem uma ajuda semelhante a ele (...) O afã de mostrar- se independente do homem e sobressair por si mesma é na mulher uma rebeldia pecaminosa contra os decretos da Providencia”. Persiste ao tempo de Valera e dona Emilia essa moral dupla, herança do romantismo: a mulher como figura, ao mesmo tempo, angelical e demoníaca.
Não falta tampouco, no calor das discussões, a acidez de Clarín (apud PENAS, 2003, p. 178). que, sobre a insistência da escritoa em querer ser acadêmica, assim se manifesta: “É melhor que fume [...] ¡Ser acadêmica! ¿Para quê? Isso é como se ela se empenhasse em ser guarda civil, ou polícia secreta”. Por trás do comentário do autor de La Regenta estão os limites para as pretensões profissionais das mulheres; além de não deverem ser acadêmicas tampouco devem desempenhar atividade ligada à segurança.
Falando dessa “candidatura reiteradamente frustrada”, Cristina Patiño (2004b, p. 133) lembra que desde 1886, quando Leopoldo García-Ramón propõe o nome da autora para ocupar uma cadeira, há muitas opiniões favoráveis a sua entrada mas há também “o contrapeso dos que trabalham, com meios e manhas conventuais” contra essa conquista. E segue Patiño (2004b, p. 135), anotando que os obstáculos não se dão por razões estritamente literárias, o que leva Pardo Bazán (apud PATIÑO, 2004b, p. 134) a expor sua indignação: “No teniendo acaso tiempo ni humor para analizar despacio mis escritos, aplicaban lentes ahumados al estudio de mi carácter, y hasta de mi físico, que nada tiene que ver, supongo, con las letras. Yo era así, yo era asá, yo usaba un peinado de otro modo [...].
É relevante a informação de que dona Isidra de Guzmán, marquesa Guadalcázar, é nomeada em 1784, acadêmica honorária, mas em 1853 Gertrudis Gómez de Avellaneda vê negado seu pedido para fazer parte da RAE, o que significa que é no século XIX que se fecham as portas para representantes mulheres (CHARQUES GÁMEZ. 2007, p. 14). Ainda segundo Charques (2007, p. 27), pouco antes da morte da autora os acadêmicos estão dispostos a fazer da Condessa de Pardo Bazán um de seus pares, mas ela morre sem ver realizado um dos seus grandes sonhos. O aborrecimento de Pardo Bazán frente à atitude machista de homens dos quais é de esperar outro comportamento é manifestado em várias outras ocasiões e textos, como por exemplo nos publicados em seções da sua revista Nuevo Teatro Critico, que se comentará em outro tópico desta tese.
Emilia Pardo Bazán é uma entusiasta das mudanças e aponta, incansável, a introdução da mulher no mundo da educação e do trabalho como uma possibilidade de reversão do perverso quadro instalado. Uma educação sistemática, em igualdade com a que era recebida pelos homens, poderia dar às mulheres condições de disputar um lugar no mercado profissional e com isso alcançar a independência financeira e o direito de tomar decisões sobre seu presente e seu futuro. Claro que não cabe dizer que os homens vivem, na época, uma situação ideal, mas a eles é permitido e estimulado o crescimento pessoal; e a melhora advinda daí acaba acontecendo, de uma forma ou de outra.
No trabalho intitulado La educación del hombre y de la mujer: sus relaciones y diferencias, discurso lido no Congreso Pedagógico, em outubro de 1892, Pardo Bazán deixa claro mais uma vez o modo como concebe a educação. Advoga que todos são iguais perante o direto pedagógico, já que todos nascem sem nenhum conhecimento e as diferenças sociais não influem no aprendizado. A autora
reconhece que costumeiramente a condição social indica os caminhos educacionais que o individuo vai ter, mas só pela educação pode-se mudar essa realidade: se um lavrador ou artesão tiver educação, poderá acessar a outra escala social no que diz respeito ao trabalho e à posição.
A escritora assinala as inexplicáveis diferenças que separam a educação da mulher daquela que é dirigida aos homens. Segundo ela, a única coisa que aproxima os dois sistemas são “as afinidades de métodos e programas de ensino e as inevitáveis identidades de matéria docente”. Para a autora, enquanto a educação masculina é tomada como totalmente benéfica, produtiva e bem vinda, a educação feminina é vista com desconfiança e rechaço:
Mientras la educación masculina se inspira en el postulado optimista, o sea la fe en la perfectibilidad de la naturaleza humana, que asciende en suave y armónica evolución hasta realizar la plenitud de su esencia racional, la educación femenina derívase del postulado pesimista, o sea del supuesto de que existe una antinomia o contradicción palmaria entre la ley moral y la ley intelectual de la mujer, cediendo en daño y perjuicio de la moral cuanto redunde en beneficio de la intelectual, y que –para hablar en lenguaje liso y llano – la mujer es tanto más apta para su providencial destino cuanto más ignorante y estacionaria, y la intensidad de educación, que constituye para el varón honra y gloria, para la hembra es deshonor y casi monstruosidad (PARDO BAZÁN, 2006b, p. 86).
Ainda segundo dona Emilia, essa equivocada visão pessimista da educação intelectual condena a mulher à imobilidade, deixando-lhe como única alternativa de atuação a que se liga à procriação e aos cuidados da casa, do marido e dos filhos, sendo relegada, portanto, a papel coadjuvante. A mulher deve encontrar sua realização no fato de seu marido/ filhos se realizar(em). Não é necessário ter vida própria; como um satélite gira em torno do astro, a mulher existiria em função de outra(s) pessoa(s). Para dar força a seus argumentos Pardo Bazán recorre aos autores que defendem a igualdade da educação para ambos os sexos, e cita
explicitamente idéias que não se devem seguir, como as de Luis Vives y Fray Luis de León, que amaldiçoam as mulheres que desenvolvem qualquer atividade fora de casa, considerando-as “andariegas, desvengonzadas, y semejantes a las públicas cortezanas y cantoneras” (PARDO BAZÁN, 2006b, p. 91). A autora lamenta que se siga tomando o refrão espanhol “la mujer casada y honrada, pierna quebrada y en casa” como o mais adequado para a mulher que deseja parecer séria. A mulher casada deve-se movimentar o mínimo possível.
No terreno da educação moral estende-se ainda mais a distância entre o que é adequado aos homens e o que deve ser aplicado às mulheres, segundo dona Emilia. O que num representante do sexo masculino se enaltece como qualidade e atitude positiva, na mulher é defeito que se deve evitar a qualquer custo. Segundo suas palavras:
... el valor; la dignidad personal; la firmeza de carácter; el fuerte sentimiento de la independencia; la fecunda ambición de descollar entre sus semejantes y señalar con rastro de luz su paso por el mundo; la energía del pensamiento, que quiere afirmarse a si propio investigando la verdad y reconociéndola libremente; la lealtad amistosa, la franca veracidad, la iniciativa, la noble altivez, el amor al trabajo […] La mujer se ahoga, presa en las estrechas mallas de una red de moral menuda, menuda. Debercitos: gustar, lucir en un salón. Instruccioncita: música, algo de baile, migajas de historia, nociones superficiales y truncadas. Devocioncilla: prácticas rutinarias, genuflexiones, rezos maquinales, todo enano, raquítico, como los albaricoqueros chinos. Falta el soplo de lo ideal, la línea grandiosa, la majestad, la dignidad, el brío (PARDO BAZAN, 2006b, p.93).
O diminutivo usado serve para dar a noção da pequenez do mundo feminino. Sem perspectiva, a mulher se contenta com pouco e contribui com pouco em todos os níveis, no tocante ao social, aos afetos, à vida intelectual e, inclusive, no que se refere à religião. Chama a atenção o tratamento irônico que este assunto recebe da autora, católica fervorosa, e intransigente na defesa de sua religiosidade.
Ela mostra ainda sua indignação diante da idéia de que o fato de ser mãe impede as mulheres de desenvolverem outras potencialidades. É preciso, segundo ela, rever o conceito de que a maternidade, por si só, preenche todas as expectativas femininas. Pardo Bazán tem a coragem de lembrar que nem todas as mulheres querem ou podem procriar, não sendo, portanto, justo ou lógico que esse seja o objetivo principal de uma vida:
Es preciso además considerar serenamente la cuestión de la maternidad. La maternidad es función temporal: no puede someterse a ella entera la vida. La protección a que tiene derecho el niño no ha de prolongarse más allá de la niñez. Además de temporal, la función es adventicia: todas las mujeres conciben ideas, pero no todas conciben hijos. El ser humanos no es un árbol frutal, que sólo se cultive por la cosecha (PARDO BAZAN, 2006b, p. 102).
A autora não pode concordar, enfim, com o estado de inferioridade e de dependência que caracteriza a parte feminina da população. Está ciente de que tal precariedade se deve a uma realidade mais abrangente, que não é uma circunstância limitada a indivíduos ou a grupos, mas que se trata de uma questão conjuntural. O país tem uma concepção fortemente retrógrada em vários setores e não é diferente em seu olhar para a mulher. No prólogo ao livro de Pardo Bazán, La mujer española, Guadalupe Gómez_Ferrer (1999b, p. 33) lembra que nos artigos que escreve, em 1889, para a revista inglesa Fortnightly Review, a autora chama a atenção para o fato de a revolução liberal não ter resultado em mudanças diretas nas condições de vida das mulheres. No artigo que dá nome à compilação, dona Emilia insiste em que a distância social entre homens e mulheres é maior no seu tempo do que era na Espanha antiga, porque as conquistas sociais só alcançam os varões. A autora argumenta:
Cada nueva conquista del hombre en el terreno de las libertades políticas ahonda el abismo moral que le separa de la mujer, y hace el papel de ésta más pasivo y enigmático. Libertad de enseñanza, libertad de cultos, derecho de reunión, sufragio, parlamentarismo, sirven para que media sociedad (la masculina) gane fuerzas y actividad a expensas de la media femenina (PARDO BAZÁN, 1999b, p. 89).
A sociedade manipula de tal maneira os fatos que o quadro se reverte no discurso hegemônico: o subjugo em que a mulher era mantida se transforma em proteção, cuidado, carinho. A idéia corrente é a de que o homem espanhol venera a mulher. Afastando-se consideravelmente dessa crença, em opinião que emite em uma conferência proferida em Paris, em 1899, diz dona Emilia (apud CLÉMESSY,1982, p. 569-570).
He hablado de la estabilidad, o mejor dicho, estratificación social que tienen por ideal difuso tantos españoles: tratándose de la mujer, se acentúa la tendencia: toda evolución escandaliza en la mujer. Para el español la mujer es el eje inmóvil del planeta… Error profundo, imaginar que adelantará la raza humana mientras la mujer se estacione. Al pararse la mujer, párese todo; el hogar detiene la evolución, y como no es posible estancarse enteramente vendrá el retroceso.
Para Clémessy os trabalhos de Pardo Bazán mostram que para a autora a situação das mulheres espanholas era menos grave na Idade Media, no Renascimento e no Século de Ouro do que no século XIX, porque “cada conquista do homem no terreno das liberdades abriu um abismo moral entre ele e a mulher, uma vez que o espírito liberal foi sempre privilégio do sexo masculino e só dele.” (CLÉMESSY,1982, p. 570). Essa evolução de conseqüências perniciosas para as mulheres e conseqüentemente para o país, no entender de dona Emilia, não se teria feito sentir com tanta força nas populações dos povoados, porque seu conservadorismo mantém um certo equilíbrio, e permite a essas mulheres preservar
“sua originalidade e espontaneidade” (CLÉMESSY,1982, p. 570). Para Pardo Bazán o século XVIII se registra como o período em que se restringe a quase nada a instrução feminina, o que provocaria as conseqüências sérias vistas no século seguinte.
Clémessy (1982, p. 571) pondera, no entanto, que se devem matizar as afirmações da escritora, que teria interpretado de maneira bastante livre a realidade histórica. Na verdade, no Século de Ouro e no Renascimento não se brindam as mulheres com liberdades pessoais ou intelectuais significativas, e pode-se afirmar que dona Emilia olhava com desconfiança o século das luzes. Mas Cleméssy reconhece o correto da afirmação que a escritora faz no seu trabalho sobre São Francisco de Assis: na Idade Média a mulher pode instruir-se com inteira liberdade e ninguém se escandaliza de vê-la consagrar-se a estudos avançados. Anota, porém, a crítica francesa que as contradições pardobazianas podem-se ver também nas suas reivindicações dos direitos das mulheres, onde se mostra bastante moderna por um lado, mas segue fiel à religião que professava, por outro. Ao mesmo tempo liberal e católica, dona Emilia opina que os que estavam ligados ao cristianismo contribuíram mais efetivamente para a evolução feminina do que os intelectuais do século das luzes, ajudando no desenvolvimento de sua personalidade e assegurando sua liberdade moral (CLÉMESSY,1982, p 571).
Na sua luta pelo acesso da mulher à cidadania, Pardo Bazán não duvida em atribuir os problemas psicológicos sofridos pelas filhas de Eva à falta de ocupação produtiva, à falta de um trabalho que lhe desse prazer e independência material. Com as teorias psicológicas que se firmam na segunda metade do século XIX, as enfermidades femininas são atribuídas pela medicina à condição mesma da mulher, facilmente tachada de histérica. O adjetivo histérico(a) é relacionado essencialmente
às mulheres, uma vez que a palavra tem origem no grego hustéra,a – útero. Para o próprio Freud (1980), como se vê no capítulo “Histeria”4, o fato de ligar a doença às mulheres é resultado de um preconceito que vem desde os primórdios da medicina e que só é superado no seu tempo. Ainda segundo Freud, é com Charcot que os estudos sobre a histeria tomam outra direção, deixando-se de tratar com desdém, como se simulassem o próprio mal, os histéricos, que são tratados como bruxos em séculos anteriores.
A campanha de dona Emilia pela reversão do quadro estabelecido se faz tanto em produções jornalísticas, em cujas colunas de opinião defende sua postura de feminista avant la lettre, quanto na feitura de personagens ficcionais que defendem pontos de vista coincidentes com os da autora real. Em ensaio crítico que escreve sobre o romance Tristana, de seu contemporâneo Galdós, Pardo Bazán aborda várias facetas da obra, observando-lhe os aspectos internos e externos. Em sua crítica dona Emilia discute a simplicidade, a trama, a conveniência do assunto ali tratado, a relevância do amor como tema de um romance. São ainda objeto de sua atenção a forma como esse tema deve ser conduzido pelo autor para que goze do