• Aucun résultat trouvé

Autres logos, labels, chartes…

cartes PASS

4. Autres logos, labels, chartes…

Quando solicitados a falar sobre experiências positivas de mobilização social no Caminho das Águas, os membros da micro-rede R-I-L e outros moradores

5

Retornando ao campo e acompanhando a eleição municipal de 2008, percebi que nenhuma mudança ocorreu no Caminho das Águas neste sentido. Cada “líder” comunitário apoiava um candidato que, por sua vez, só podia entrar na área específica comandada por sua associação. Os que não eram membros desta rede política interna não entravam no bairro, que continua sendo palco de chacinas e violência tanto do tráfico quanto da polícia.

se remetiam a um movimento anterior que resultou nas melhorias de infra-estrutura realizadas no bairro (final da década de 1990). Entretanto, imediatamente, ressaltavam que as poucas ruas que haviam sido cimentadas ou asfaltadas e o sistema de esgoto foram danificados pela lama dos desabamentos e desde então não podiam mais ir trabalhar pela manhã “limpos”.

De modo geral, andar descalço ou de “chinelo de dedo” pelas ruas, levando sacos plásticos para proteger a roupa foi apontada como uma situação particularmente humilhante para os moradores. E, principalmente para as mulheres que trabalhavam como empregadas domésticas, a situação implicava em atrasos constantes e necessidade de levar “mudas” de roupa.

Estas famílias não identificaram relação entre a participação na rede movimentalista e benefícios materiais imediatos. A rigor, sua rede interpessoal foi apontada como principal fonte de apoio.

O histórico de boas relações na família I foi importante para o fluxo de apoio social neste período em que foram necessários constantes deslocamentos para diferentes residências devido ao comprometimento estrutural das casas de vários membros. Da mesma forma, a família L se beneficiou o histórico de relações de afeto e cuidado recíproco entre seus membros, antes distribuídos em diferentes domicílios, pois tiveram que se reunir uma casa alugada e de pequenas dimensões, após terem suas casas interditadas. Neste sentido, embora estivessem convivendo seis pessoas no imóvel, não houve referência a desconforto ou dificuldade de organização dos membros da família neste novo ambiente.

Participar do movimento dos moradores para Sr. Ronaldo era, por sua vez, parte do seu “tratamento” da HAS. Pois acreditava que uma vez solucionada a questão da sua casa, que ficava a centímetros do muro, teria novamente sua

pressão sob controle. No entanto, até o momento de saída do campo, a única alteração realizada foi o aumento da altura do muro de contenção o que comprometeu a circulação de ar no local e gerou a elevação da temperatura nas casas.

Analisando a experiência destas famílias nos cuidados com a saúde e sua relação com a rede mais ampla do movimento, chama atenção que a forma como se referem à última sofreu alterações ao longo do tempo. Se no início esta participação estava diretamente associada a qualidade de vida e sua saúde, após alguns meses, pouca ou nenhuma referencia era feita a este tema ainda que continuassem a participar ativamente das ações grupais. De tal modo que, ao fim dos nossos encontros, os comentários sobre os “vizinhos”6 e “líderes” resumiam-se a críticas severas.

Para ilustrar seu descrédito quanto aos movimentos sociais e políticos no local, usavam como exemplo o fato de existirem várias associações de moradores no bairro da Boca do Rio e de nenhuma delas ser efetiva. Críticas contundentes eram direcionadas à associação de moradores do Caminho das Águas, em construção há anos, cuja sede “[...] não termina nunca. O dinheiro vai todo pro bolso” (Robson).

8.2 Violência e saúde

“Bom dia! Onde é o Caminho das Águas?”

Embora tenha recebido maior destaque entre os moradores da região 01, o tema violência acompanhou todas as etapas e discussões realizadas durante o

6

trabalho de campo. Desde os cuidados com a segurança da equipe e sigilo das informações no processo de produção e análise de dados, passando pelas experiências de presenciar incursões da policia e de traficantes.

A questão da violência esteve por trás da dificuldade que encontramos em delimitação o campo e de aceitação em participar do estudo, pois assumir-se como morador desta comunidade gerava o receio na identificação com os “marginais” da região. Por isso, quando perguntava “onde fica o Caminho das Águas?” As respostas freqüentes eram “fica perto da minha casa”, “na rua do lado”, “lá adiante”, “É lá, né, do outro lado”, mas dificilmente era onde “eu moro”.

Após algum tempo de convivência, foi possível compreender que associar-se a este contexto distanciava-os das aspirações de serem respeitados enquanto cidadãos. Vários moradores pareciam evitar a vizinhança destacada pela mídia local e bairros vizinhos como um “lugar perigoso, que nem a polícia entra”.

Ao localizarmos moradores que se assumiam do local chamou-nos a atenção a divergência entre a percepção destes e dos moradores de áreas vizinhas sobre esta comunidade. Foi comum entre membros das famílias e informantes a declaração de que este é um lugar “calmo” e “seguro para quem não se mete com drogas”, onde se podiam criar os filhos e convivia-se bem com a maior parte dos vizinhos.

No entanto, esta percepção variava entre as diferentes gerações de moradores. Os mais jovens afirmavam não gostar de morar no local, consideravam as melhorias realizadas irrelevantes e ansiavam pela possibilidade de se mudarem para áreas da cidade que consideram melhores.

Os mais velhos, por sua vez, davam “graças a Deus” por terem criado seus filhos neste contexto com ajuda de familiares e vizinhos. Reconhecem que houve modificações benéficas e importantes nos últimos anos como a chegada paulatina da distribuição de água, luz e telefone, o asfaltamento das ruas centrais, comércio, o maior policiamento na área e a implantação de posto de saúde.

A percepção de calma e relativa segurança variava, ainda, segundo as experiências pessoais com situações de violência e com a participação em redes sociais protetoras. O percurso etnográfico que segui para entrar no campo ilustra bem as regras e acordos necessários para fazer parte destas redes e “viver bem” no Caminho das Águas.

8.2.1 Sobre a violência: Conselhos práticos para os pesquisadores “de fora”

Documents relatifs