No processo de análise dos dados, foi interessante notar nas falas dos participantes, prioritariamente, a expressão dos sentimentos positivos. Parece que
esses são os que potencialmente podem provocar a saída de um estado de inércia em busca de movimento. Semelhante constatação pode ser observada, por exemplo, nas emissões abaixo:
Ela veio trazendo alegria. (Raposa, usuário. Filme: Chocolate)
Ele teve a inteligência e sabedoria, o otimismo, o entusiasmo, a simpatia...tudo pra aprender, né! Se esforçou, aprendeu algumas coisas, evoluiu, ficou mais inteligente. (Leão, usuário. Filme: Meu
nome é Rádio)
A constância da expressão de sentimentos positivos, no decorrer do trabalho, não parece ser algo estranho quando centramos nossas leituras e nossos direcionamentos teórico-filosóficos nos ensinamentos deixados por Deleuze e Guatarri. No entanto, foi necessário refletir sobre o que entendemos por sentimentos no contexto desta pesquisa. Os sentimentos seriam manifestações subjetivas emocionais que ocorrem de dentro pra fora, a partir de estímulos recebidos, manifestações que não estão ao alcance do poder individual de cada um. Os sentimentos aparecem e desaparecem sem o nosso controle, sem que possamos definir quando, como e onde será.
Alguns sentimentos já são previamente conhecidos e nomeados, outros surgem pela primeira vez e não sabemos bem o que são e muito menos como se chamam. O importante disso tudo é que esses sentimentos provocam reações individuais que modificam o estado inicial do sujeito e, consequentemente, do grupo ao qual ele pertence. Essas modificações buscam um sentir-se melhor, contribuem na construção de processos criativos e possibilitam o encontro com linhas de fuga que traçam caminhos de desconstrução da repetição.
Para melhor entender o que significavam os sentimentos, foi necessário recorrer a outros autores além dos da filosofia da diferença e também a instrumentos conceituais utilizados pela sociedade, os dicionários. Com a ajuda de todos esses elementos, é que foi possível entender um pouco mais do significado de sentimentos e construir o que de fato ali foi vivenciado.
O Moderno Dicionário da Língua Portuguesa (Michaelis Online, 2009) define sentimento como:
Ação ou efeito de sentir. Faculdade ou capacidade de sentir, de receber impressões mentais. Sensação psíquica, tal como as paixões, o pesar, a mágoa, o desgosto etc. Disposição para ser
facilmente comovido ou impressionado. Emoção terna ou elevada, tal como o amor, a amizade, o patriotismo. Atitude mental a respeito de alguém ou de alguma coisa. Exibição ou manifestação de sensibilidade ou sentimentalismo, ou propensão às emoções ternas em literatura, arte ou música. Pressentimento, suspeita. Opinião. Faculdade intuitiva de perceber ou apreciar as qualidades ou méritos de uma coisa. Conjunto de emoções. Conhecimento imediato.
Para Chauí (2000) e Milred (2008), os sentimentos são experiências de sensações pessoais, baseadas nas histórias de vida de cada sujeito, provocadas por algo externo. São as percepções geradas por estímulos de fora que podem se manifestar de diferentes formas, aceitas ou não socialmente. São situações transitórias, intransferíveis e pessoais.
Goleman (1995), em seu famoso livro da década de 1990, Inteligência
Emocional, fala que os sentimentos “dão sabor ao intelecto”, são eles, os
sentimentos, que dão poesia às representações mentais concretas e duras da razão. Nietzsche (s/d), em Aurora, fala que os sentimentos são muito mais aprendizados, juízo e apreciações que os sujeitos herdam de seus familiares do que propriamente algo unicamente pessoal.
Percebemos que esses diferentes autores, com os mais variados referenciais, não conceituam de forma clara, objetiva e concreta o termo sentimento. Na verdade, não se pretende que exista uma unanimidade conceitual ou que todos sintam, percebam ou entendam os sentimentos e suas derivações da mesma forma. Cada sujeito é único e carrega em si uma única vivência, uma configuração rizomática formada pela interferência constante do estar no mundo. Assim, compreende-se sentimento como sendo pessoal e subjetivo.
Durante o desenvolvimento desta pesquisa, foi trazida, em diversos momentos, a importância de se utilizar os sentimentos de forma positiva para que se possam aprimorar os modos de existência de forma criativa. Não foi possível, durante as oficinas e a análise de dados, tratar os sentimentos separados do afeto, pois eles se tornaram um único entendimento. A palavra afeto, conforme o mesmo dicionário citado acima, é conceituada como: “sentimento de afeição ou inclinação para
alguém, amizade, paixão, simpatia” e tem sua origem no latim, de affectu.
Deleuze, em uma aula dada em 24/01/1978, que falava sobre Spinoza, discursou sobre a questão do afeto e colocou que ele é um modo de pensamento
não representativo. O afeto seria uma variação das potências de agir ou das forças de existir, determinado por uma ideia. Os maus encontros levam a uma diminuição ou destruição das potências de agir, enquanto os bons encontros aumentam as potências de agir. Os intercessores trazidos pelo grupo como potenciais promotores de mudança são os afetos positivos, aqueles que aumentam as potências de agir. O afeto seria a variação de forças entre esses dois polos de existência, alegria-tristeza, como pode ser observado na fala abaixo:
Eu acho que ele conseguiu, consegui. Porque ele foi feliz, né!
(Fantasia, usuário. Filme: Meu nome é Rádio)
A categoria sentimento-afeto é, para esta pesquisadora, um encontro entre os sentimentos e os afetos. Não como sobreposição de conceitos ou aglutinação de duas palavras. É uma sensação, uma força pessoal que motiva a continuidade do existir. É algo que auxilia na construção da história de vida de cada um, possibilita um aumento das potências de agir, conforme os entendimentos, as ideias e as vivências pessoais. Os sentimentos-afetos permitem que se enfrentem as dificuldades, rompendo com modos de existência cristalizados, tristes e doentes.