PROTOCOLE SANITAIRE - CORONAVIRUS
AUTORISATION DE PRISE DE CONTACT AVEC MÉDECIN(S) ET/OU SPÉCIALISTE(S)
A guerra que sempre fora um universo exclusivamente masculino, nas lutas pela
independência do Brasil travadas na província da Bahia, houve a relevante participação
feminina, face aos discursos elaborados pela elite baiana, que se estendeu pelas camadas
populares, como elemento ideológico da supra estrutura
232, Althusser afirma que
229(Idem, p.81)
230(AMARAL B. , 1957, p. 184; «…nome tirado do daquele célebre negro que tanto se destinguiu no período da guerra holandesa» em Pernambuco)
231(CARDOSO & FRANÇA, 2008, pp. 164-165)
232(ALTHUSSER, 1980, pp. 57-58 - «Existia também um Aparelho Ideológico de Estado político (as Cortes, o Parlamento, as diferentes facções e Ligas políticas, antepassados dos partidos políticos modernos e todo o sistema político das Comunas francasa e, depois, das Cidades). )
Na ideologia, o que é representado não é o sistema das relações reais que governam a existência dos indivíduos, mas a relação imaginária destes indivíduos com as relações reais em que vivem233.
Importante salientar a força dos discursos antilusitanos que contagiavam às classes
populares. Neste sentido, três mulheres se destacaram no processo de lutas, a abadessa
soror Joana Angélica de Jesus que ficou reconhecida como mártir, Maria Quitéria e Maria
Felipa.
A soror Joana Angélica foi brutalmente assassinada no dia 19 de fevereiro, através
de golpes de baionetas, por um grupo de soldados portugueses, que invadiram o Convento
da Lapa, com a justificação de prender militares brasileiros que ali se esconderam. Diz a
tradição que ela teria exclamado: “Para trás bárbaros! Respeitem a Casa de Deus! Só
penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver!». Ela viria falecer no outro dia,
o que deixou comovida toda a cidade. Neste incidente o capelão Daniel Lisboa foi ferido
a golpes de coronhadas pela fúria da tropa lusitana
234.
O contágio de lutar contra os europeus que pretendiam recolonizar o Brasil, levou
a mulher cachoeirana Maria Quitéria de Jesus, a cortar seus cabelos bem baixo, se
travestir de homem com roupas do seu cunhado José Cordeiro de Medeiros, e se alistar
no batalhão dos Periquitos com o nome de soldado Medeiros. Esta mulher que se tornou
símbolo de guerreira do Recôncavo, nasceu no povoado de São José das Itapororocas,
zona rural da vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, hoje cidade da
Feira de Santana. Como toda mulher da sua época, no período da guerra, se encontrava
noiva se preparando para casar, quando resolveu participar, na condição de soldado, da
guerra. Quando foi descoberta que era mulher, foi mantida na tropa, com um fardamento
mais feminilizado, pelo comandante major José Antônio da Silva, popularmente chamado
de Periquitão, avô do maior poeta romântico do Brasil, Castro Alves. Participou de
inúmeros combates ao redor da Baía de Todos os Santos, e foi uma das protagonistas que
entrou em Salvador no dia 2 de julho de 1823. Foi condecorada pelo Imperador com a
233(Idem, p.82)
Ordem Imperial do Cruzeiro, no grau de Cavaleiro, em 20 de agosto de 1823, pelos
relevantes serviços prestados a causa da Independência. Ela foi pioneira de ser a primeira
mulher a fazer parte das Forças Armados do Brasil
235. No percurso em que anos se faz
para celebrar a data do 2 de julho, no seu início, na Lapinha, foi erguida uma estátua desta
heroína erguendo em um de seus braços uma espada.
Outra mulher com um perfil extraordinário que participou da campanha pela
independência foi a negra Maria Felipa de Oliveira. Era marisqueira, considerada
estabanada, descrita como alta e corpulenta, gostava de usar um lenço preso da cabeça,
que protegia seus cabelos, e de saias rodadas, típica indumentária das baianas, supõe-se
que tenha nascida em 1799. Era uma exímia capoeirista, portanto, lutava muito bem, até
melhor do que certos homens. Residia na antiga rua da Gameleira, na povoação da Ponta
das Baleias, celebrava como religião o candomblé. No período da guerra ela exerceu com
outras mulheres negras a função de “Vedeta”, que era uma espécie de sentinela ou vigia,
nas praias de Itaparica, em que ficava em alerta das embarcações portuguesas que se
aproximassem dos seus aliados
236. Nas investigações para elaboração do livro “Maria
Felipa de Oliveira, Heroína da Independência da Bahia”, nomeadamente na utilização do
método de história oral, no processo de coleta de dados, a autora afirma que
Nas pesquisas de Interpretação do Património Com Comunidade na Ilha de Itaparica, destacou-se, enquanto património histórico cultural, Maria Felipa de Oliveira, que aparecia sempre como heroína da Independência da Bahia nos diálogos com pescadores, marisqueiras, líderes comunitários, comerciantes, vendedores ambulantes, professores e outros237.
A heroína negra é interpretada como património cultural, face ao sentido de herança
e ao legado histórico. A memória de Maria Felipa está presente na oralidade de uma
tradição coletiva como símbolo étnico dos insulanos.
Segundo reza a tradição, a ilha de Itaparica foi invadida pelos portugueses em 10
de Junho de 1822, quando fora organizada a resistência na Ilha de Itaparica, Maria Felipa
235(Idem, p.107)
236(FARIAS, 2010, p. 75)
apresentou-se como voluntária, fazendo proezas nos combates aos invasores. Tinha muito
prestígio entre os negros, nomeadamente, entre as mulheres negras. Liderou um grupo de
40 mulheres e homens durante os combates de 7 de janeiro de 1823, quando construíram
trincheiras durante as lutas, e conseguiram incendiar várias embarcações portuguesas,
contribuindo para a vitória final de João das Botas que chefiava a força marítima
brasileira
238naquele momento. Não foi encontrada nenhuma fonte primária escrita que
comprove sua existência, mas a vida de Maria Felipa está presente no imaginário da
memória coletiva da população itaparicana e dos membros do movimento negro, que
narram as proezas desta corajosa guerreira. No episódio em que ela com um grupo de
mulheres negras incendiou as embarcações portuguesas, diz a lenda que este grupo de
mulheres seduziram os portugueses que se encontravam na praia da Ilha de Itaparica,
deixaram-nos despidos como estivessem preparados para fazer uma grande bacanal, se
dirigiram à uma mata vizinha a praia para promover a diversão. As mulheres pegaram nas
moitas ramos de cansanção
239que já estavam previamente preparados e surraram os
portugueses desprevenidos, facilitando o ataque as suas embarcações, com tochas de fogo
feitas com cascas de coco seco
240. Deste grupo de mulheres lideradas por Maria Felipa, a
maioria ficou no anonimato da história, Farias em suas investigações conseguiu resgatar
algumas poucas, como, Marcolina, Joana Soaleiro e Brígida do Vale. Farias assevera que,
Sóror Joana Angélica, Maria Quitéria de Medeiros, Marcolina, Brígida do Vale, Joana Soaleiro e Maria Felipa de Oliveira vêm recuperar, em parte, a identidade social e construir discursos contra o calar-se sobre as lutas femininas e rejeições às pesquisas a respeito de mulheres guerreiras na Independência do Brasil241.
238(OSÓRIO, 1979, pp. 304-305; PORTO FILHO & CARVALHO JÚNIOR, 2015, p. 109)
239Arbusto das Urticáceas, também chamado urtiga-brava, urtiga-fogo, urtiga-grande, urtiga-vermelha e urtigão (Urera baccifera). Planta silvestre dos campos, da família das Loasáceas (Blumenbachia urens), cujos pêlos são urticantes; pega-pega-trepadeira. Arbusto das Urticáceas também chamado caracasana (Urera caracasana). Arbusto das Euforbiáceas (Jatropha vitifolia). [Zoologia] Nome dado na Bahia a algumas espécies de águas-vivas, bastante urticantes. Cansanção-de-leite: arbusto euforbiáceo, também chamado arre-diabo, pinha-queimadeira, urtiga, urtiga-de-mamão, urtiga-cansanção (Jatropha urens). https://www.dicio.com.br/
240(FARIAS, 2010, pp. 98-99)