2. Cadre théorique
2.4. Autorégulation
2.4.2 Autorégulation et motivation
IMAGEM 11: Meninas brincando de “bolinha de sabão”. Fonte: Registro de campo.
A rotina das crianças é bem variada. Está vinculada a atividades da escola, mas também a outros aspectos, como o fato de muitas crianças freqüentarem projetos sociais.37 Há também casos de crianças que trabalham na rua como vendedoras de balas e ainda crianças responsáveis por tarefas domésticas: cozinhar, lavar roupa e cuidar de irmãos menores.
Ao longo do trabalho de campo, foi possível fazer contato com diferentes grupos de crianças desse bairro, em espaços públicos, ruas, lotes vagos, praças e campos de futebol, bem como organizar registros de seus brinquedos e brincadeiras e de seus espaços preferidos para brincar.
Os brinquedos são construídos pelas próprias crianças: carrinhos, papagaios, aviões, apitos etc. Cabe destacar que o grupo pesquisado foi formado por crianças que em algum momento da sua rotina freqüentavam a rua. O grupo observado foi se constituindo informalmente e teve variações em razão da disponibilidade de as crianças poderem estar na rua nos dias e horários em que a observação aconteceu.
37
Foi possível fazer contato com 52 crianças desse grupo, e uma média de 18 foi recorrente em todos os dias de observação.
As condições da infância têm relação com direta com a violência que marca o cotidiano desta comunidade. Desde a forma como os espaços públicos são ocupados pelas crianças até em alguns casos, a identidade das “lideranças” de um grupo de crianças ou jovens, por exemplo, tem influências dessa realidade. A letra de Hip-Hop do grupo Crime Verbal38 exemplifica essa realidade da violência no bairro:
A Voz do Taquaril
Só que é vai curtir, quem não é vai saber.
Para nós do Taquaril tem que até contar coma sorte, pra que na madrugada não encontre com a morte.
Esgoto a céu aberto, descendo a viela, não quero dar tiro pra encher minhas panela.
Sou cria dos humilde, meu clima é diferente,passo através do verbo pois a minha chapa quente.
Não dá para se envolver crime é necessidade, os mano mete bronca por passa necessidade.
Com filho pra criar, sistema demolidor, faz do pai de família um terrível matador.
Sem saúde sem escola sem futuro garantido, por morar no Taquaril ser chamado de bandido.
Cachorros do governo defendendo patrimônio quando invade os barracos é a face do demônio.
Buraco do Brasil, playboyzinho mimado,lembra do quilombo, isso é que foi passado.
Favela é meu refúgio, Taquaril é meu lugar,crime verbal a família veio reivindicar.
A mídia sob o morro olha tudo e acha graça, whisk é melhor com o Ibope da nossa desgraça.
Hip hop é cultura, eu sei o um valor, aprendi de outro jeito, a rua foi minha escola, preferi o hip-hop que um saco de cola.
A lei é do silencio ninguém aqui vê nada, abre boca para ver e toma pá de rajada.
Toda o hora o balaio tudo está lotado, o povo da quebrada só anda pendurado.
Construir um barraco com suor e sacrifício seu sonho se acaba em uma área de risco.
Isso aqui é uma guerra quem entrou pede socorro, o sonho dos
moleque é comandar o morro.
No boteco da esquina um vacilo foi cobrado, Pego e não pagou amanheceu furado.
38
Letra e música: Haper Mom, Drak, Blitz, Vinil e Dj Tinino e. Moradores do Taquaril Castanheira, grifos nossos.
Moleque pivetada seu almoço de domingo, pode tudo se acabar pela merda um cachimbo.
Apenas quatro malucos que a favela aplaudiu. Represento a minha quebrada Zona leste Taquaril.
No trabalho de campo, inúmeras situações de privação de direitos e precariedade das condições e vida das crianças foram presenciadas. A aproximação dessa realidade de infância emociona, revolta, causa impotência e indignação:
A V. morreu, la tinha 9 anos, [...] foi uma bala perdida, [...] ela pediu para mãe compra cachorro quente, no sábado elas subiram para comprar e a bala acertou ela, quando ela estava com o cachorro quente na mão. (depoimento de uma criança falando da morte de uma menina moradora da comunidade). (Registro de campo nov.
2005)
O quadro a seguir apresenta a população vulnerável por faixa etária e aponta como as crianças de 6 a 14 anos estão em maior numero diante das outras categorias geracionais.
QUADRO 1
População vulnerável por faixa etária
NOME COMPOSIÇÃO (BAIRROS, VILAS E/OU CONJUNTOS) POPULAÇÃO DE 6 A 14 ANOS POPULAÇÃO DE 15 A 17 ANOS POPULAÇÃO DE 6 A 14 ANOS X IVS POPULAÇÃO DE 15 A 17 ANOS X IVS IVS Taquaril
Alto Vera Cruz, Favela Taquaril, Alto Vera Cruz (parte), Caetano Furquim (parte), Vila da Área, C.H.Taquaril 6743 1969 5192 1516 0,77
Uma imagem de criança na escola ou na rua, nos limites da sobrevivência ou na violência e até no trafico poder ser um gesto trágico, frente ao qual não cabem nem políticas sociais compassivas nem didáticas neutras. E menos, ainda, autoritárias posturas de condenação. Diante da barbárie com que a infância e a adolescência populares são tratadas, o primeiro gesto deveria ser ver nelas a imagem da barbárie social. A infância revela os limites para sermos humanos em uma economia que se tornou inumana. (ARROYO, 2004, p.119)
O quadro de vulnerabilidade da infância do bairro Taquaril não difere da realidade de grande parte da das crianças no mundo, categoria geracional que mais sofre os efeitos da globalização. Há, portanto, percentualmente mais crianças pobres em situação de privação que adultos ou pessoas idosas. (SARMENTO, 2005)
Mesmo na situação de precariedade e apesar da privação de oportunidades em que se encontra esse grupo, as crianças expressam sua ludicidade na relações entre pares e com seu entorno, praticando inúmeros brinquedos e brincadeiras. Nas palavras de Benjamin (1984, p. 18) sobre as crianças berlinenses, essas crianças também “constroem suas histórias com o lixo da história”, ainda que sobrevivam no limite das precariedades, materiais e em muitos casos afetivas.
3.2 “Você vai brincar com a gente?”39 – O tempo, o espaço e a experiência no campo
Que relações seriam estabelecidas entre mim, investigador, e as crianças com as quais passaria a conviver durante um significativo período? Já que intencionava conhecê-las de perto como poderia entendê-las e dar-lhes voz no processo da pesquisa?
Segundo Borba (2006, p. 62), [...] “o pesquisador precisa se despir de preconceitos, o que não implica neutralidade. Todavia, para entrar no mundo das crianças e nas suas culturas de pares, é necessário ser aceito.”
39
Minha intenção foi aproximar-me dos mundos das crianças sem despojar-me de condição de adulto, mas também sem identificar-me com o adulto que as dirige e fiscaliza, e, ao mesmo tempo, relativizando as certezas que impregnam o meu olhar adulto sobre as crianças, pois só assim seria possível enxergá-las como um outro, em sua radical diferença e diversidade.
Essa atitude, em alguns momentos, exigiu-me uma prática interativa e participativa no grupo de pares e uma atitude de permanente de interrogação. Minha tentativa foi aproximar-me do mundo de compreensão das crianças, considerando suas reflexões, falas, perspectivas e comportamentos. Tentei entender as crianças como colaboradoras da pesquisa, ajudando-me, com suas falas, ações e interpretações, no processo de investigação e no próprio objeto de estudo, seus brinquedos e brincadeiras. Em razão disso, minha tentativa foi a de ser como sugere ser um adulto atípico, “ou contrário de um adulto que fala à criança o que fazer ou tenta controlar seus comportamentos.” (CORSARO, 1997, 2003 apud COLL, 2003, p. 51).