Chegamos à escola para o início da pesquisa citada anteriormente no mês em que se comemorava, semana da Páscoa99. Como em todo o espaço público onde o estado laico ainda não é efetivo, fomos convidados a assistir às comemorações referentes à morte e ressurreição de Cristo. A escola buscou a inovação com uma ação que pode ser considerada potente em relação à diversidade da pessoa
98Projeto de pesquisa em desenvolvimento. Vitória/ES: Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq); PPGE-UFES, 2010/2013. Projeto vinculado aos grupos de pesquisa cadastrados no Diretório de Pesquisas do CNPq: Currículos, Cotidianos, Culturas e redes de conhecimentos e Formação de professores e práticas pedagógicas – PPGE-CE-UFES. Coordenadora pela Profª Drª Janete Magalhães Carvalho.
humana existente naquele contexto.
Na quadra, um aluno negro, portador de necessidades especiais representava o Cristo (personagem mais importante naquela celebração). Com as dificuldades em função de seu problema físico, carregava a cruz alusiva à via sacra com todas as estações. As estações eram representadas por cadeiras que faziam um cercado que representavam portas de casas onde o “Cristo” batia, pedia algo e não era ouvido ou atendido.
A expressão de felicidade estampada no rosto do “Cristo” era contagiante. Os colegas pareciam compartilhar com ele aquele momento tão especial. Ao questionarmos o motivo da escolha daquele aluno, uma professora empolgadamente diz que ele representava, de forma completa, o excluído na nossa sociedade, era negro e deficiente. Aqui a escola reconhece o excluído. Nesse momento reportamo-nos à escola “esperança”. Se Angeli estivesse vivendo sua infância nesse tempo presente, seu sonho desejante já estaria mais próximo de ser realizado100.
Enquanto a cena acontecia, uma professora narrava todos os passos e sofrimento do Cristo que “apanhava” enquanto caminhava em direção ao local destinado à “crucificação”. Depois desta reflexão acerca da morte de Cristo, chegou a vez do Coral de Libras101 apresentar canções, louvores gospel que falavam da ressurreição e da vida com o ressuscitado.
Nossa mania de interrogar surgiu e mais uma vez nos perguntamos: onde estão os surdos dessa escola? De acordo com a professora do laboratório de informática responsável pelo projeto, apesar de a escola não ter matriculado estudantes com deficiência auditiva, seu projeto ajudou a levantar a autoestima de estudantes estreitando, assim as relações entre eles. Depois do projeto melhoraram em todos os aspectos na escola e na família. Para além das atividades na escola, o coral se apresenta em outros espaços, outras escolas e instituições do município. A escolha das músicas se dava em função de a professora, assim como a maioria dos
100 Darei destaque todas as vezes que me reportar aos Primeiros Passos: Caminhos Anteriores à
Pesquisa, parte introdutória deste trabalho dissertativo.
101 Para a apresentação todos os adolescentes se vestem de preto e utilizam luvas brancas para que
estudantes serem evangélicos.
Com relação à escolha do repertório a ser cantado e interpretado sob a forma de libras, o que antes era um bloco hegemônico onde a religião católica era parâmetro, agora se divide em duas frentes amplas que anulam outras possibilidades religiosas que não seja a fé católica e ou a fé evangélica. A fé cristã, chamada de forma distorcida de ecumenismo, é pregada de forma veemente pelas escolas públicas102.
Aparentemente, a intolerância em relação aos evangélicos diminuiu, entretanto, continua a rejeição a outras possibilidades religiosas. A escola está longe de ser aquilo que propõe o Estado laico.
Após o término da celebração, fomos convidados a conhecer a escola. Ao entrar, pudemos ver um mural de aproximadamente 3,50m na parede do corredor e uma faixa afixada sobre o vidro de acesso à secretaria desejando a quem chegasse uma Feliz Páscoa! Será que Páscoa tem o mesmo significado para todos os estudantes e demais atores da escola? Será que ali só existiam católicos e evangélicos?
No corredor também estava em exposição um cartaz em homenagem ao dia Internacional da Mulher. Mais uma vez constatamos que existiam apenas duas figuras de mulheres negras em meio ao quadro repleto de figuras de mulheres brancas (modelos). A julgar pelo quesito cor das estudantes presentes na instituição, aquelas figuras estavam longe de representá-las. Será que continuamos discursando sobre a diversidade, mas agindo, planejando, organizando o currículo como se os estudantes fossem um bloco hegemônico e um corpo abstrato? (GOMES, 2008, p. 26).
Mesmo nesse contexto de falta de novidade com relação às práticas do cotidiano, algo que consideramos muito importante nos chamou a atenção. Se por um lado existiam as ausências da diversidade em várias atividades elaboradas na/pela escola, por outro, naquele momento de celebração, os professores pareciam acreditar no que estavam fazendo. Dava a impressão de que existia uma vontade contagiante de fazer um trabalho bonito.
102 Cito escola pública em função de estarmos fazendo nossa pesquisa na escola pública, porém,
As atividades elaboradas por eles, em conjunto com os alunos, tinha um nível de organização muito grande. Os professores falavam sobre os trabalhos que estavam apresentando com empolgação. No entanto, o discurso sobre o tema da comemoração/celebração, explicitava uma falta de argumentos e/ou conhecimentos teóricos com relação ao tratamento da diversidade de raça, credo etnia, cultura que habita o chão da escola.
No ano seguinte, depois das discussões feitas nos estudos quinzenais realizados nos horários de planejamentos com o citado grupo de pesquisa, foi possível verificar algumas mudanças com relação às comemorações. No corredor principal não apareceu mais o cartaz referente à Páscoa, a comemoração foi discreta e envolveu apenas os professores, restringiu-se à sala de professores e ao corredor do segundo piso, agora com cartazes bem menores.
Foto 7: Cartaz sala dos professores. Foto 8: Mural do segundo piso