Castaldi inicia por falar da temporalidade, espacialidade e propósi- tos do seu trabalho de campo realizado entre o dia 1o de agosto de 1953 e junho do ano seguinte, na ilha de Itaparica, material que deveria ter sido elaborado de uma forma “acadêmica” para sua tese de PhD. que seria defendida no Departamento de Antropologia da Columbia University de Nova Iorque, onde naquele mesmo ano fizera seus exames de qualificação e se dirigira à Bahia para realizar o estudo que o tornari- am doutor em Antropologia.
Os motivos de não ter terminado seu trabalho, diz ele, foram vári- os: “primeiro, e talvez o mais importante, foi devido ao fato que no final dos meses transcorridos na ilha (quase um ano) eu estava tão envolvido com a própria ilha e com seus habitantes que não conseguia me colocar no lugar de um “participant observer” objetivo e nem considerar os meus amigos como “informants”. Finaliza esta confissão por dizer que “Precisava deixar que tudo decantasse.”, condição que parecer ter obti- do com o afastamento do campo indo para o Rio de Janeiro”.
Voltou ao Rio, onde, diz: “escrevi nos três meses seguintes, um primeiro (aliás, único) esboço de todo o material recolhido em Itaparica, que corresponde ao esboço de tese que entreguei ao professor Caroso.” Para terminar a tese, ao invés de iniciar novos trabalhos, deveria ter voltado à Columbia University, para discutir o material coletado com seu orientador, Prof. Charles (Chuck) Wagley e então voltar para Itaparica para preencher as lacunas presentes nesta versão.
O texto etnográfico que ele elaborou e me confiou para fazer uso aca- dêmico é constituído de quatro partes, porém existe pouca preocupação em relacioná-las e demonstrar que fazem parte de um complexo terapêutico
religioso mais amplo, exceto no que se refere à quarta parte que é constitu- ída de rezas comuns aos vários sistemas de práticas terapêuticas religiosas populares, assim como lhe falta um arcabouço teórico interpretativo. O trabalho também carece de uma introdução ao tema e ao objeto do estudo que leve o leitor a ver claramente seus objetivos, limitando-se a dizer que o “O propósito do projeto foi de tentar elaborar uma tipologia de alguns das figuras religiosas e cultos que são encontrados no Recôncavo.” Escolheu para esses estudos três localidades na costa sudeste da ilha de Itaparica, sua escolha é justificada com base em dois aspectos: “a) a ilha é habitada quase exclusivamente por membros das classes baixas para quem estas figuras e cultos são mais familiares e sobre os quais estes exercem maior influência; e b) apesar da ilha ser muito próxima a capital do estado é ao mesmo tempo bastante isolada para atenuar a pressão de uma censura socialmente branca que os forçaria a ajustar-se a ‘padrões’ brancos.”
Com o objetivo de demonstrar sua idéia de isolamento e inacessibilidade, ele cita que um pai de santo da Bahia, Procópio, sairia da cidade e viria para a ilha realizar suas obrigações cerimoniais, uma vez que a perseguição da polícia não permitia que ele as realizasse na capital. Cabe aqui lembrar que os cultos afro-brasileiros estavam sujeito a con- trole policial até a segunda metade da década de 1970. Assim relata Castaldi, “Procópio vinha com todas suas filhas e três tocadores de atabaque, ficando várias semanas na ilha.” Registra ainda que os maridos destas mulheres eram em grande parte estivadores nas docas e vinham no fim de semana para participar nas cerimônias, ocasião em que eram generosos com dinheiro beneficiando alguns moradores da ilha, que prestavam vários serviços a esse grupo.
Na primeira parte da sua etnografia trata de um candomblé de caboclos localizado em São João, cuja Ialorixá chamava-se Lilita. Ele afirma que “este constitui uma reinterpretação local de um sistema de crenças trazido da África durante a escravidão.” Na realidade este Can- domblé encontrava-se em um contexto de crenças e práticas religiosas mais amplo, que incluía o famoso culto de Baba Egun, o candomblé dos mortos, no qual o poder masculino tem preeminência, conhecidos na ilha como “os pretos de Ponta D’Areia, cujos membros, naquela época procuravam aproximar-se do candomblé de orixás.
Seu relato sobre os elementos chaves da prática religiosa afro-bra- sileira inclui a organização e funcionamento do terreiro, os rituais que este realiza, tendo ele participado e cuidadosamente descrito uma ceri- mônia de iniciação, o bori, e um rito fúnebre de separação, o axexé. Reconstitui detalhadamente, a partir do relato da mãe de santo, a pró- pria iniciação dela, como resultado do chamamento através da doença incurável pela medicina convencional, o que a levou a ser iniciada no candomblé e vir a se tornar uma sacerdotisa.
A segunda é sobre “a figura de um líder carismático, pertencente às tradições religiosas do nordeste do Brasil”. Este líder se autodenominava São Venceslau, morando em Porto do Santo [na verdade Porto dos San- tos] no local conhecido como Milagre. Venceslau obtivera a cura para a cegueira e surdez, que se seguiram a um problema de pele após sua esposa ter fugido com outro homem, pelo uso da água, que lhe foi pres- crita através de revelação onírica e aparição posterior de Nossa Senhora do Amparo, que o tornou guardião da fonte e deu poder de curar pela água. Seu discurso místico e práticas terapêuticas tinham o poder de atrair peregrinos de toda a ilha, de municípios do interior e mesmo da capital e de outros estados em busca de conforto e cura para suas várias formas de dores e sofrimentos. Em uma carta que ele dirige a Castaldi, a quem chama de irmão Carlos, fala da sua influência na eleição de um deputado, do governador e mesmo da re-eleição do presidente Getúlio Vargas. Prossegue a relatar a notoriedade e os benefícios que traz para o local: “todos tiram lucro do Milagre?” Todos deveriam ser gratos: os padres pelas missas que ele encomendou para os desvalidos, os médicos a quem ele tem mandado os que não podem ser curados pela água, as farmácias onde eles compram os remédios que os doutores receitam, as empresas aéreas que levam as pessoas ao Milagre de lugares tão distantes quanto São Paulo, os barcos e a Navegação Bahiana pela mesma razão.” A terceira parte é sobre a “A figura de um “folk doctor”, uma nova figura que combina características culturais da tradição africana com aqueles pertencentes à moderna medicina.” Ai Castaldi relata a trajetó- ria e experiência de um terapeuta popular que fazia uso de elementos da tradição africana [melhor dizendo, afro-brasileira] e da medicina mo- derna que se apossara trabalhando como auxiliar em um serviço público
de saúde em uma das ilhas da Baia de Todos os Santos onde morou. João Caipó exercia suas atividades na localidade denominada Buraco do Boi. Foi iniciado no candomblé ainda criança, após ter manifestado notáveis dons espirituais que incluíam a vidência. Contudo com o tempo tornou a prática médica sua principal atividade, só raramente cumprindo suas obrigações rituais, assim mesmo sem muito interesse por essas, o que aos olhos dos outros lhe colocava vulnerável à severa punição.
A quarta parte do seu relato é constituído de uma coleção de rezas e seus usos, que ele identifica serem de duas categorias, a primeira sendo
rezas católicas para uso específico e a segunda fórmulas mágicas, que
permitem manipular a realidade em favor do oficiante. Demonstra como estas rezas e fórmulas mágicas são utilizadas para restaurar a saúde e trazer benefícios às pessoas que delas fazem uso, assim como representam peri- go, podendo trazer efeitos negativos se utilizadas de maneira inadequada. Castaldi reconhece a fragilidade dos seus dados com relação ao can-
domblé de São João, ou seja, para o material que ele diz ser mais propriamen- te africano. As outras duas histórias são, na sua visão “simples e por si muito claras: bastava “contá-las” assim como tentei fazer.”
Os motivos que o levaram a voltar às suas anotações sobre Itaparica depois de decorridos 45 anos, diz ele serem de duas ordens: o primeiro
porque fui solicitado pela gentileza do professor Carlos Caroso; o segundo porque, livre da obrigação acadêmica, posso contá-las como lembranças de pessoas e lugares que para mim são muito queridas.
Ao terminar a redação de sua primeira e única versão do material de campo Castaldi foi convidado para “a estudar com os colegas brasilei- ros, C[arolina] Martuscelli e E[unice] Todescan Ribeiro de São Paulo e P[aul] Galery da Universidade de Minas Gerais, um episódio de fanatis- mo religioso, acontecido em abril de 1955 na fazenda de São João da Mata, município de Malacacheta (Minas Gerais) onde um grupo de camponeses, membros da Igreja Adventista da Promessa, tinha assassi- nado quatro crianças acusadas de serem possuídas pelo demônio”.
Ele diz que os estudos realizados em Minas Gerais lhe exigiram muito tempo na coleta e redação dos textos finais, sendo publicados na revista Anhembi em 1955. Posteriormente artigos foram republicados em 1957 como capítulos num livro organizado por Maria Isaura Pereira de Queiroz
cujo título é Estudos de Sociologia e História, com apresentação de Paulo Duarte, pela mesma Editora Anhembi de São Paulo. No livro contém dois “Estudos de Sociologia” com uma única introdução de Maria Isaura Pereira de Queiroz: “A Aparição do demônio em Catulé” [em que quatro partes são de autoria de Castaldi e as outras duas são, uma de Eunice Todeschan Ribeiro [Durhan] e uma de Carolina Martuscelli [Bori]; e “Tambaú, cidade dos milagres”, por Maria Isaura Pereira de Queiróz, que também autora o capítulo “Um estudo de história: O mandonismo local na vida política brasileira”, que completa o volume. Em sua apresentação geral Paulo Duarte comenta que “Em agosto do mesmo ano [1955] publi- cou a mesma revista [Anhembi] um primeiro trabalho de Carlo Castaldi sob cuja direção se fez a pesquisa, e que era organizada sob o patrocínio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos do Rio de Janeiro, do Depar- tamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e da Anhembi”. Este “preâmbulo” foi incluído como uma parte introdutória ao todo o trabalho “A aparição do demônio em Catulé”.
Logo em seguida Castaldi participou de uma pesquisa sobre o tema “Mobilidade e trabalho na cidade de São Paulo” (financiada pela Unesco e pelo Ministério da Educação brasileiro). O estudo foi dirigido por Bertram Hutchinson, participando do mesmo Carolina Martuscelli, R. Brandão Lopes. A publicação dos seus resultados foi feita pelo INEP em 1960. Neste ínterim ele também participou da 1a Reunião Brasileira de Antropologia, apresentando o trabalho intitulado “Considerações so- bre o Processo de Ascensão Social do Imigrante Italiano em São Paulo”, que foi publicado nos Anais da Reunião em Edição da Universidade da Bahia em 1957.