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O debate acerca da racionalidade científica ocupou a agenda dos filósofos da ciência durante o século passado e a primeira década do atual. Várias teses foram desenvolvidas e diversos enfoques foram apresentados na tentativa de dar conta desse problema. De modo geral, percebe-se que todas as análises feitas pelos filósofos desse período estavam relacionadas – mais ou menos diretamente – ao método científico. Aquilo que ao longo da tradição filosófica se costumou chamar “racionalidade científica” encontra-se diretamente vinculado a uma concepção metodológica. Sendo assim, acreditamos que a discussão referente ao “método” e à “racionalidade” na ciência, é praticamente indissociável. Cupani argumenta que:

Na concepção filosófica tradicional da ciência (que subsiste em sua imagem vulgar), “ciência” e “racionalidade” eram praticamente sinônimos. Concebia-se a atitude científica como o exemplo mais acabado de uma posição racional diante da realidade, tanto em sentido teórico, vale dizer com objetivo de compreender o mundo, como em sentido prático, ou seja, como meio de transformá-lo. A racionalidade da ciência se manifestava como uma atitude crítica com relação ao saber ordinário e as convicções tradicionais, e como exigência de rigor na argumentação e no

exame das evidências empíricas. Aquela

racionalidade se expressava também no ethos da imparcialidade, o desinteresse e a serenidade exigidos de uma conduta científica eficiente (CUPANI, 2000, p. 37-8).

Essa associação entre “método” e “racionalidade” faz parte de uma visão tradicional a respeito da ciência, afirma Siegel51 (1985, p. 517-18), na qual o método científico é compreendido como uma maneira específica dos cientistas validarem as crenças que, ao mesmo tempo, acaba legitimando e justificando a atividade científica. Resumidamente, afirma Siegel (ibidem) “a ciência é uma atividade racional e sua racionalidade é garantida pelo método científico”. Tianji (1985, p. 410) segue praticamente a mesma linha de raciocínio de Siegel e afirma que “os positivistas lógicos e os popperianos acreditavam que a ciência procedia seguindo um método distinto, o método científico, e que a racionalidade nada mais era do que agir em conformidade com as normas desse método”. Para muitos filósofos desse período mencionado por Tianji, havia uma vinculação irrestrita entre metodologia, racionalidade e progresso da ciência.

De acordo com Siegel (1985), na ciência tradicional o método científico garante a racionalidade da própria ciência, ou seja, a racionalidade científica depende única e exclusivamente da eficácia instrumental das atividades desenvolvidas. Assim, afirma Siegel:

Se o método científico é caracterizado

propriamente como um compromisso com a

evidência, então a racionalidade é uma

consequência direta desse compromisso. O método científico é visto como a incorporação da própria racionalidade manifesta na ciência. O método científico é estruturado para enfatizar

razões: testabilidade, objetividade, imparcialidade

e outros ideais e características da ciência são funções da ciência para a evidência. Há uma óbvia e profunda conexão entre evidência e razão – a primeira constitui um tipo especial para a última, na qual a evidência de uma hipótese “H” fornece razões para (aceitar, seguir, acreditar, atuar sobre, considerar verdadeira) “H”. (SIEGEL, 1985, p. 532)

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Professor do departamento de filosofia da Universidade de Miami – Estados Unidos. Seu interesse de pesquisa está relacionado às questões da racionalidade e do relativismo.

Entretanto, como sabemos, a visão tradicional do método (geral) como elemento constituinte da racionalidade científica foi severamente atacada no século XX. Na tentativa de rebater as críticas direcionadas à posição tradicional, Siegel (ibidem) defende que o método consiste essencialmente na lógica de justificação que, como

“compromisso com a evidência”, é comum a toda pesquisa52

.

Também o professor Sankey53 (2002, p. 64) considera que há

um vínculo estrito entre método e racionalidade científica. Segundo ele, “uma pesquisa científica racional é governada pelas regras do método científico. A aderência às regras do método científico justifica a aceitação racional de resultados experimentais e da teoria científica”. Nesse sentido, a justificação racional na ciência encontra-se diretamente conectada com o método científico. Entretanto, é necessário fazer uma ressalva, pois Sankey assume a visão tradicional da relação entre o método científico e a justificação racional, mas não endossa a visão tradicional referente à natureza do método. Em outras palavras, Sankey discorda da visão monista de método, segundo a qual há um único e invariante método que é utilizado para distinguir a ciência das pseudociências e capaz de conduzir a um conhecimento verdadeiro. Ele se declara adepto do pluralismo metodológico, posição segundo a qual há um conjunto de regras metodológicas que os cientistas empregam para avaliar as teorias científicas e aceitar seus resultados. Neste caso, as regras estão sujeitas a uma variação histórica e podem ser aplicadas de diferentes modos nas distintas áreas científicas.

No entanto, vários filósofos da ciência contemporâneos questionam essa relação harmoniosa e o vínculo necessário entre o método e a racionalidade científica, pois, como vimos, partem do princípio de que não há uma coisa denominada de “método científico”.

Como já foi mencionado, filósofos da ciência como Feyerabend (1975) e Bauer (1994) atacaram diretamente o modelo de ciência centrado no método científico e referiram-se a esse último como um “mito”. Por outra parte, essa desconfiança é alimentada, conforme Nola e Sankey (2007:6), pelos “sociólogos do conhecimento científico, incluindo os construtivistas sociais, os multiculturalistas, os estudantes

52

Siegel afirma ser essa também a postura de clássicos da filosofia da ciência como Hempel e Rudner (SIEGEL, 1985, p. 526)

53

Professor da University os Melbourne e um dos grandes estudiosos dos temas contemporâneos de filosofia da ciência.

de estudos culturais e uma ampla variedade de pós-modernistas de diferentes estirpes” 54

.

Se a qualificação de “mito” parece exagerada, não parece haver dúvida de que a ciência (natural e social) assume hoje feições tão variadas que talvez seja difícil encontrar um procedimento (uma “lógica”) verdadeiramente comum, sobretudo levando-se em consideração que a ciência (principalmente, a natural) é atualmente obra de equipes em que cada cientista realiza tarefas específicas, como já observamos.

A constituição do modelo de racionalidade tradicional almejava fazer da ciência um conhecimento confiável. A vinculação forte da racionalidade ao suposto método geral tinha por objetivo básico legitimar a ciência como um ramo de conhecimento bem articulado, fazendo com que os resultados científicos fossem justificados e concebidos à luz de valores eminentemente epistêmicos, tais como

verdade, objetividade, testabilidade e poder explicativo. Dentro dessa

abordagem tradicional, a lógica ocupa um papel de destaque, pois ela estabelece os próprios critérios que asseguram a consistência interna das proposições da teoria assim como possibilita avaliar a consistência externa da teoria com outras teorias competidoras.