Conforme Medina (2005), recuperar e reinserir produtos reciclados no sistema produtivo valoriza a energia e o trabalho neles contidos. Mas, por outro lado, exige um monitoramento constante da fabricação dos materiais e seus processos de produção e tratamento, para fazer com que as técnicas de reciclagem acompanhem o desenvolvimento dos materiais que vêm adquirindo uma complexidade tecnológica crescente.
Torgal e Jalali (2007) acreditam que os materiais recicláveis apresentam vantagens ambientais óbvias, pelo fato de esgotada a sua vida útil poderem vir a gerar outros materiais. Se optar pela reciclagem de produtos, em vez da extração ou do fabrico de materiais a partir de novas matérias-primas, pode-se reduzir o impacto negativo ambiental.
Portanto, para que a gestão sustentável da produção de materiais seja bem realizada são necessárias informações em todos os níveis da cadeia de produção e consumo, como: técnicas de extração, processos de transformação para produção de materiais, fabricação de peças e componentes, reciclagem, reuso ou descarte final, incluindo em todas as fases, a verificação do consumo de energia e de materiais, dos custos de transporte e de armazenamento.
No Brasil, não existe norma específica para utilização de produtos ou materiais reciclados. Na construção civil existem normas referentes à utilização de resíduos sólidos da construção para ser utilizado como agregado em base e sub-base de pavimentações e concreto sem função estrutural (ABNT, 2004a) (ABNT, 2004b).
Existem também iniciativas empresariais em apresentar oportunidade de logística reversa para os seus resíduos, atitudes que de certa forma fazem a diferença. Um exemplo disso é a rede de supermercados Walmart Brasil que desde 2005 criou seu próprio programa de sustentabilidade englobando os setores de Produtos, Clima e Energia, Resíduos (WALMART BRASIL, 2010). O projeto dessa rede de supermercados é denominado Produtos End-to-End, na tradução livre: “Sustentabilidade de Ponta a Ponta”. Segunda a empresa, tal iniciativa foi baseada no conhecimento de que algumas marcas inseriram em seus produtos componentes reciclados, como uso de matéria-prima certificada pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil) e pelo Programa Brasileiro de Certificação Florestal (CERFLOR) na produção das
30 caixas de papelão dos produtos finais. Com isso, foi possível a redução nas emissões de gases de efeito estufa, e Compostos Orgânicos Voláteis (COV) com o uso de tinta de impressão de baixo COV, entre outras alternativas (WALMART BRASIL, 2010).
A chamada “eco-concepção” ou “eco-design” de produtos industriais buscam atender não só a demanda de um mercado consumidor mais consciente e responsável em termos ambientais, mas também, e principalmente, para atender a uma legislação ambiental cada vez mais restrita e globalizada (MEDINA, 2005). Nesse sentido um bom exemplo de implementação normativa, porém, fora do contexto da construção civil, são os casos das Diretivas da Comissão Europeia sobre Meio Ambiente em relação às Embalagens (PARLAMENTO EUROPEU, 2018) e Descarte de Equipamentos e Eletro-eletrônicos (PARLAMENTO EUROPEU, 2012).
Nos últimos anos, tem havido uma tendência crescente na utilização de materiais compósitos principalmente nas indústrias aeroespaciais e de transporte. Em comparação aos materiais tradicionais, os compósitos oferecem maior força para proporções em peso, propriedades não corrosivas, estabilidade dimensional e conformidade (MILANI et al., 2011). No tocante aos materiais de construção civil, Kats, Braman e James (2010) consideram que nos Estados Unidos os Resíduos de Construção Civil (RCC) de edificações são uma das maiores fontes de geração de resíduos. Para esses autores, a reciclagem dos RCC cria novos empregos, reduz a quantidade dos mesmos nos aterros, reduz o uso de matéria-prima primária na construção, redirecionando para novas utilizações uma média de 79% de RCC que seriam descartados.
Uma forma de reduzir RCC é a reutilização destes resíduos através da reciclagem ou incorporação de materiais que seriam descartados em substituição a materiais não renováveis. Existem diversos estudos com diferentes tipos de compósitos, reciclados, incorporados a um material já existente ou então criando um novo tipo, principalmente, para produção de concreto e argamassa.
Pode-se citar o exemplo do estudo de Almeida et al. (2015) que analisaram o efeito da aplicação de resíduos na produção de argamassa, substituindo o agregado natural areia pelo teor de 30% de cinza do bagaço da cana-de-açúcar. Os autores encontraram uma melhoria na durabilidade das argamassas quando comparada à mistura referência (sem o resíduo) e manutenção das propriedades mecânicas.
31 Pinheiro, Matthiesen e Akasaki (2015) inseriram o resíduo de pneus (borracha) em vigas mistas de madeira e concreto para aplicação em pontes com intenção de conferir vantagens como melhor absorção de impacto, menor fissuração, menor absorção de água, além de destinação aos resíduos de pneus produzidos em grande quantidade pela indústria automotiva.
Beraldo, Shiroma e Ferreira (2015) avaliaram o comportamento físico-mecânico do compósito de cimento Portland adicionado de resíduos de isoladores de porcelana originários do descarte da empresa CPFL Energia, e de resíduos de Pinus, provenientes de uma fábrica de paletes. Giocondo (2008) utilizou a escória de aciaria na produção de blocos intertravados para execução de alvenaria. A escória por ser um subproduto do aço, é uma matéria-prima abundante e de baixo custo, tornando o bloco de escória economicamente viável e competitivo no mercado. Cunha (2011) apresenta um estudo da caracterização de placas recicladas provenientes de Embalagens Longa Vida para uso na construção civil como componente arquitetônico. Entretanto, esta autora percebeu que há dificuldade de aceitação do novo produto pelos usuários e pouca variedade na concepção, portanto a pesquisa visou expor as possibilidades iniciais de incorporação do material.
Há uma gama de materiais como tijolos, telhas, pavimentações, paredes divisórias, chapas de compensado, entre tantos outros materiais que podem ser produzidos a partir de reciclagem ou reutilização de outros tipos de produtos.
Assim, nota-se que os materiais e produtos reciclados necessitam de uma abordagem para incorporação adequada. Addis (2010) diferencia esta abordagem por meio de dois tipos de projeto: o projeto normal e o projeto com produtos e materiais reaproveitados como ilustrado nas Figuras 1 e 2, apresentadas a seguir.
Os produtos de construção com conteúdo reciclado (PCCR) são bons produtos, feitos por fabricantes e fornecedores que fazem os seus produtos no mesmo nível de produtos fabricados com matérias-primas virgens (ADDIS, 2010). Dessa forma, pode-se colocar as vantagens de comprar produtos reciclados de uma forma simplificada, pois o consumidor costuma apenas julgar a relação entre o custo, desempenho e garantia de um item recondicionado e um item novo.
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Figura 1 – Fluxograma do projeto normal
Fonte: Adaptado de ADDIS (2010).
Figura 2 – Fluxograma de um projeto com produtos e materiais reaproveitados
Fonte: Adaptado de ADDIS (2010).
Por meio das etapas observadas nos fluxogramas anteriores das Figuras 1 e 2, pode-se afirmar que o emprego de materiais e produtos reciclados requerem maior detalhamento de projeto e definição mais precisa das especificações. Além disso, outro fator é aplicabilidade do produto, que requer capacitação dos construtores, subempreiteiros e operários para melhor aplicação dos materiais reciclados, que pode ter alguma variação em relação ao produto não reciclado. O ambiente construído é grande gerador de emissões de poluentes em todo seu ciclo de vida. Dentre muitas outras, as principais emissões são: radiações (Environmental Protection Agency (EPA), 2014), material particulado (JOHN, 2000), compostos orgânicos voláteis (VOC), os
Fluxograma para materiais e produtos
Esboço do projeto Projeto detalhado Especi- ficações Compra de materiais e produtos Construção Identificar possíveis materiais e produtos disponíveis Projeto e reaproveitamento mais detalhado Esboço do projeto Projeto detalhado e reprojeto Especificações Tentar comprar materiais e produtos especificados Comprar materiais e produtos encontrados Construção Especificações Identificar prováveis fontes de materiais e produtos
33 clorofluorcarbono (CFCs e HCFCs), gases do efeito estufa e os óxidos de Nitrogênio e Enxofre. Portanto, os materiais fabricados e utilizados em habitações emitem compostos prejudiciais à saúde, sendo que alguns desses materiais são plastificantes, aceleradores, aditivo, antioxidante, solventes reagentes e subprodutos.