section 1: Supervisor Planning Concepts 35
5. ATTACH ST3,SAVE=AREA3,ECB=ECB3
A personagem Madalena de A última tentação apresenta uma transformação espiritual na medida em que a trama do romance avança. Ela expressa as dimensões de uma presença feminina complicada e interpretativamente desafiadora, passando por vários estágios a fim de conscientemente tomar uma decisão quanto ao sentido de sua vida, que culminará com a escolha de se tornar uma seguidora de Jesus. Ao descrever a
figura de Madalena, que é uma das personagens bíblicas mais conhecidas86, Kazantzákis
segue a interpretação de que ela teria sido uma prostituta e que fora transformada pela palavra de Cristo: a famosa Madalena arrependida, isto é, um exemplo de arrependimento e de transformação para os pecadores87. Ao mesmo tempo, o escritor grego também acrescenta outras possibilidades imaginativas para a personagem como, por exemplo, seu apaixonamento por Jesus. Para tanto, veremos que o escritor cria um fundo histórico entre os dois.
No terceiro capítulo do romance lê-se que Jesus, ao alcançar uma idade adequada para se casar, é convencido por sua mãe a ir até Caná para encontrar uma esposa. Lá ele encontrou Maria Madalena e imediatamente se apaixonou. Contudo, assim que tentou entregar uma rosa a ela – atitude simbólica que indicaria um pedido de casamento –, Jesus sentiu como que as garras de uma ave de rapina enterradas em seu crânio e “soltou um grito estridente e caiu espumando, de bruços no chão” (p. 34). A partir de então, seu desejo amoroso por ela está condenado, porque sempre que pensava em Madalena, a sensação das tais garras voltava a atacá-lo e a imobilizá-lo. Desse modo, o sonho de se casar com Madalena não se realizará. Anos mais tarde, quando Jesus deixa a casa de seus pais e está a caminho do deserto, ele passa por Magdala e se dirige à casa de Madalena, que havia se tornado um bordel. Neste ponto da trama compreende-se que Madalena tornara-se prostituta depois daquele dia em que Jesus tivera um colapso aos seus pés. Devido ao ocorrido, nenhum homem mais teve coragem de pedi-la em casamento. Com efeito, Jesus sentia-se responsável pelo caminho que Madalena tomara, e, por isso, ia agora ao seu encontro para lhe implorar perdão. Para Jesus, o perdão de Madalena significaria estar livre e seguir sua busca pela salvação.
A narrativa também providencia uma imagem informativa acerca do caminho e dos enfrentamentos de Madalena: “luto sozinha, completamente sozinha, não peço ajuda a homens, nem a demônios, nem a deuses; luto para libertar-me e irei me libertar! ” (p. 95). Próximo do final do encontro, quando Madalena percebe que Jesus é uma pessoa
86 Maria Madalena é assim chamada por ser de Magdala, aldeia de pescadores que ficava na costa oeste do
mar da Galileia, próxima a cidade de Tiberíades. O Novo Testamento nos relata que Cristo expulsou dela sete demônios (Mc 16, 9; Lc 8, 2) e depois ela se tornou uma das mulheres que acompanharam e seguiram a Jesus (Lc 8, 2-3). Junto com outras mulheres, permaneceu aos pés da cruz (Mc 15,40; Mt 27, 56; Lc 23, 49; Jo 19, 25) e assistiu ao sepultamento do Mestre (Mt 27, 59-69; Mc 15, 46-47; Lc 23, 55-56). Deixando passar o sábado, que era dia de descanso, Maria vai, na madrugada de domingo, aplicar especiarias no corpo de Jesus, conforme o costume, e se torna a primeira testemunha da ressurreição de Cristo (Mt 28, 1-8; Mc 15, 1-19; Lc 24, 1-10; Jo 20, 1-18).
87 Essa tradição perpetuou a ideia de que Maria Madalena era a pecadora que ungiu os pés de Jesus (Lc 7,
igualmente torturada, que também busca a libertação/salvação, ela lhe diz: “Amanhã nós dois temos muito trabalho. Você pegará de novo a estrada para buscar sua libertação e eu pegarei outra, a minha, para buscar também a libertação. Cada um na sua estrada. Nunca mais nos reuniremos” (p. 101). No entanto, mais adiante, seus caminhos se cruzarão novamente. Neste reencontro, Kazantzákis aplica a Madalena a passagem da mulher adúltera (Jo 8, 3-11), quando Jesus a salva do apedrejamento.
Em contraste com Maria, que não se conforma com a condição de seu filho ser o escolhido de Deus, Madalena acaba aceitando a ideia de que Jesus não poderá ser seu marido e, assim, parece encontrar a paz:
Madalena ouviu a boa notícia e saiu de seu casebre. Desde o dia em que o filho de Maria ordenou que voltasse para casa e não pecasse mais, ela não aparecera à soleira. Chorava e lavava sua alma com as lágrimas; lutava para apagar do espirito a vida que levara, para esquecer tudo, vergonhas, alegrias e noitadas, para renascer com o corpo virgem (p. 218).
Parece que a decisão de se tornar uma prostituta, bem como a de regressar para uma vida sem pecado, foi guiada pela mesma força, isto é, seu constante amor por Jesus. Este amor, até o momento em que ela é salva do apedrejamento, expressa-se mascarado como ódio, como uma forma de esconder sua amargura e desapontamento. Tais sentimentos podem ser vistos como o outro lado da mesma moeda. Isso é percebido durante a passagem do encontro na casa/bordel de Madalena, quando ela convence Jesus a passar a noite ali, prometendo que não irá seduzi-lo. É óbvio que ela está extremamente ferida e vulnerável porque Jesus não pode corresponder ao seu amor, não da maneira que ela desejaria. Ainda assim, pode-se argumentar que este é também o momento em que ela começa a transformar seu desejo erótico por um tipo de amor maternal, portanto, de outra natureza, já que não pode ser de outra forma:
Ela deitou-se no colchão, afundou o rosto no travesseiro e mordeu os lençóis a noite inteira, contendo-se para não gritar; receava que o homem que dormia ao lado do fogo a ouvisse chorar, se assustasse e fugisse. A noite toda ouviu sua respiração tranquila e sossegada, como a de um recém-nascido que mamou. Ela, em vigília, entoava um lamento baixo, arrastado e suave, acalentando-o como uma mãe (pp. 101-102).
Mas sua transformação real se dá efetivamente quando ela é salva por Jesus do apedrejamento (pp. 179-180). A partir daí, sua vida muda completamente, e, num determinado ponto, vai declarar: “Jesus, meu irmão, deixe que eu siga sua sombra, até morrer. Agora sei o que é amor, meu filho” (p. 196). É obvia a mudança qualitativa nos
sentimentos de Madalena por Jesus. Enquanto antes ela costumava confrontar Jesus como um amante há muito tempo perdido, agora o aborda como um irmão e também em termos maternos.
A coroação de sua transformação é vista explicitamente quando ela acompanha Jesus em um casamento. Neste episódio, Christodoulou (2012, pp. 79-80) observa duas manifestações de tensão que estariam interligadas: uma é a oposição de Jesus em relação a um certo costume; a outra é entre a condição anterior de Madalena e a menção de seu “renascimento”. A primeira tem a ver com a presença de uma prostituta em um casamento. Isso não era permitido, pois acreditava-se que ela contaminaria as núpcias. Jesus desafia esse costume ao levar Madalena: “No momento em que Jesus chegou com seus amigos, as virgens interromperam a canção ao ver Madalena e recuaram contrariadas. O que essa mulher suja procura entre as virgens? Onde está o ancião da aldeia para expulsá-la? As núpcias foram conspurcadas” (KAZANTÁKIS, 2015, p. 219). Em resposta à objeção das moças, Jesus compara o reino dos céus a um casamento no qual Deus é o noivo, a alma humana a noiva e todos são convidados. A comparação sugere que um casamento é a celebração da união entre dois seres diferentes. Essa união, relacionada à descrição que se segue da emoção de Madalena, carrega o potencial de renovação de sua subjetividade: “Madalena brilhava como uma tocha acesa e sentia, assim que se colocava ao lado de Jesus, uma nova virgindade na alma e os lábios puros de beijos” (p. 219).
Mediante o fato de Jesus ter levado Madalena ao casamento, percebe-se uma ação contra a lei estabelecida, uma atitude que desafia o costume. O ancião da aldeia, com toda sua autoridade, vocifera que Jesus não age em consonância com a Lei, o qual responde serenamente: “A Lei é que não age em consonância com o meu coração” (p. 222). Com efeito, insinua-se aqui a existência de dois discursos que lutam pelo domínio e entre os quais existe tensão. Esta tensão revela uma forma de abertura – indefinição –, uma vez que Jesus não pode providenciar uma solução, ou seja, uma lei específica que substituiria a antiga.
É preciso notar ainda que a presença de Madalena adquire uma importância especial pelo modo como ela exerce influência na formação da identidade e no comportamento de Jesus até o final do romance. Madalena reflete aquele aspecto da psique de Jesus que está muito ligado à sua condição mortal, uma vez que ela é a encarnação de seus desejos terrenos e masculinos; ao mesmo tempo, ela também é a encarnação da proibição de Deus. Com efeito, ela simboliza o constante desencadeamento
de tensão entre os dois “eus” de Jesus: o humano e o divino. Ao longo do romance, Madalena é o estímulo para a luta interna de Jesus que ocorre em um nível subconsciente, já que tanto no início como no fim do romance essa luta é principalmente iniciada por seu desejo por ela. A este respeito, Madalena pode ser percebida como o ápice da dimensão humana de Jesus, do seu anseio pelos prazeres terrenos.
Fato é que Jesus só conseguirá vivenciar seus desejos amorosos por Madalena quando, no final, estando na cruz, ele desmaia e começa a sonhar. Ou seja, quando começa o sonho ele está livre para verificar plenamente o seu lado humano e, desse modo, a primeira experiência que tem é justamente a de se casar com Madalena. No sonho, a certa altura, Jesus vai dizer a ela: “Eu havia me desencaminhado, buscava o caminho fora da carne: nas nuvens, nos pensamentos elevados, na morte. Mulher, valiosa colaboradora de Deus, perdoe-me. Curvo-me para adorá-la, ó Mãe de Deus” (pp. 464-465). Logo após a união amorosa dos dois, Madalena será assassinada a pedradas por um grupo de fanáticos liderados por Saulo, que reaparecerá mais diante no sonho como o apóstolo Paulo. Contudo, Jesus não se abaterá com a perda de Madalena e tocará a vida para frente, indo viver em seguida com Marta e Maria, as irmãs de Lázaro. Portanto, durante o sonho, Madalena aparece como que inaugurando a possiblidade de Jesus vivenciar tudo aquilo que, pela narrativa principal (em que se passa a “realidade”), não poderia se efetivar. Aparentemente, pelo sonho, Jesus estaria resolvendo sua tensão interna. Mas isso, contudo, só será num primeiro momento, pois como se sabe, ao final do sonho, seu conflito interno retorna e ele acorda na cruz.
Em suma, a Madalena do romance de Kazantzákis pode ser entendida como uma espécie de mediação para Jesus sentir sua dimensão humana, a qual, ao mesmo tempo, se choca com seu chamado divino. Pode-se argumentar ainda que Madalena representa uma alteridade relacionada a Jesus que funciona em dois níveis: um espelho através do qual Jesus olha para si mesmo e se torna mais consciente de sua condição, e também como a personificação do seu desejo em ser um homem comum. A coexistência desses movimentos opostos que criam tensão e turbulência em Jesus é revelada através da presença de Madalena. E é, pois, de forma paradoxal, que a sua presença no romance conduz a decisão de Jesus em reconhecer o chamado divino e de se libertar dos laços terrenos.