CHAPITRE 6 APPLICATIONS
6.3 Att´ enuation de l’automodulation de phase par l’utilisation d’une pompe inco-
O descarrego, como consta no dicionário Aurélio (2005) significa livrar-se do que pesa, aliviar-se, esvaziar-se. Embora não tenha encontrado, dentre os autores trabalhados, nenhum que tratasse deste tema, não foi difícil abordá-lo apenas à luz das observações e relatos da rezadeira. Na verdade, o sentido que Barica deu ao ato de descarregar-se foram os mesmos encontrados naquele dicionário. Com uma ressalva, ela deu uma interpretação própria. O curioso nisso tudo foi a relação do guardar segredo com o ato do descarrego. Para compreender melhor, transcrevi um trecho de um diálogo desta rezadeira que aponta para tal afinidade:
Olha, aqui por dia eu recebo muitas pessoas com problemas familiares que vem desabafar comigo, sabe. Gente com todo tipo de problema vem conversar comigo. E aquilo eu tenho que ficar pra mim. Porque conversa de dois, não é para três. Se só tem nós dois aqui e você me conta um segredo. Da minha boca não sai. Agora se sair é da sua boca. Aí, quando é de noite, negócio de nove horas, eu vou para debaixo de um pé-de-planta [um pé de goiabeira seco, no fim do quintal] e vou descarregar tudinho. Porque minha cabeça já está cheia demais de tantos problemas. Peço perdão a Deus por aquelas pessoas, e também peço forças para elas se acalmarem e não vivam em reboliço. Eu descarrego ali e vou me deitar (Informação verbal, fevereiro/2006. Grifo do pesquisador).
De acordo com Barica, o descarrego consiste em mentalizar os problemas que ouviu e entregar nas mãos de Deus para que ele tome conta. E também pede forças aos santos para que eles possam tirar todas as coisas ruins que possam ter pegado durante as rezas que realizou nas pessoas. E o local escolhido é o quintal da sua casa. Ela contou que, quando todos da casa já estão dormindo, dirige-se até o pé de goiabeira e embaixo dele realiza as ações descritas acima. O curioso vem a seguir. Barica fez questão de conduzir-me até o local para mostrar em que estado se encontrava a planta. A goiabeira estava morta, seca. A explicação dela para tal fato foi que, de tanto descarregar as “coisas ruins”, a planta não resistiu e morreu.
Figura 24 - Local onde a rezadeira realiza o ritual de descarrego.
Hoje ainda continua a realizar o descarrego embaixo desta árvore seca, porém colocou um pé-de-arruda103 apoiado no meio dos galhos.
De tanto problema que eu descarrego em cima daquela árvore, ta ali seca, seca, perante Nosso Senhor Jesus Cristo. Francimário olhe aí pra você ver que não é mentira minha. Agora que este pé de arruda [pendurando no tronco da planta], todo dia eu agou [rega]. Então é o seguinte: eu faço minhas orações e a cabeça tá cheia [dos problemas dos outros], aí quando é de noite eu despejo tudo ali [embaixo da árvore] nesse pé de pau. Você tá vendo aí o resultado [a planta secou]. Tem gente que acha que é uma brincadeira a pessoa rezar... e aquilo sai e pronto. Mas, aquilo [o problema do cliente] ficar martelando na minha cabeça, e eu fico guardando, guardando... Aí, quando é na hora de eu ir dormir, que não tem mais ninguém [clientes], tá tudo em silêncio. Eu tomo meu banho de preparo [com folhas de eucalipto, arruda e alecrim] e venho descarregar aqui [embaixo da árvore]. Todo segredo que aquela pessoa [cliente] me contou eu enterro aqui debaixo (Informação verbal, fevereiro/2006. Grifo do pesquisador).
Então, este momento que a rezadeira Barica escolhe para si é um ato de esvaziamento de tudo que ela absorveu dos clientes no momento do ritual de cura. De certa forma, seria também o encerramento do ritual, o seu descanso. Isso fica mais evidente quando ela enfatiza: “eu, para rezar, tenho que puxar para mim o que a pessoa está sentindo” (informação verbal). Esta tarefa, no seu dizer exige muito esforço mental, pois “compreender o que a pessoa está sentindo não é tarefa fácil”, prosseguiu a rezadeira.
Enquanto os clientes contam com a rezadeira para desabafar e falar sobre angústias, sabendo de antemão que ela guardará segredo do assunto tratado, por sua vez a rezadeira não goza desse privilégio. A única saída encontrada, que alivia esta carga, é o ritual de
descarrego. Então, as pessoas contam os segredos para a rezadeira, e esta desabafa fazendo
103 De acordo com a rezadeira, tanto a arruda, quanto o pinhão roxo são plantas que ajudam a retirar as coisas
preces a Deus, aos santos e depositando todos os males na árvore. E assim segue o ciclo diariamente, com exceção do domingo, que normalmente ela não reza. A não ser em uma criança que esteja com muito olhado e que não possa esperar até a segunda-feira. Mesmo assim só reza na intenção, não puxa a doença para ela.
O intuito de mostrar em detalhes o ritual de cura praticado pelas rezadeiras foi para permitir que se tenha uma breve noção de como estas mulheres desempenham suas curas no dia a dia. Procurei descrever também, minuciosamente, alguns aspectos considerados relevantes para a pesquisa no geral. Segui a dinâmica do ritual: mostrando o que acontece antes do ritual, sua preparação, seu desenvolvimento e o ritual de descarrego realizado pela rezadeira após o final de seu dia de trabalho com as rezas. Este último, embora seja realizado de forma individual, a rezadeira conta com um suporte sagrado. É um ritual de descarrego, portanto, com a ajuda de seres sobrenaturais. Enfatizei ainda alguns rituais que aconteceram fora do espaço terapêutico-religioso, ou seja, os rituais e domicílio.
Essa questão do descarrego, por ser uma prática mais comum nos rituais de matriz afro-brasileira, também é utilizado por uma rezadeira que se diz católica. Portanto, o uso desta atividade religiosa, remete ao tema que denominei de “trânsitos religiosos” que será discutido no capítulo seguinte.