F.3 Formulations of 3D-SSF-DMFT
G.3.5 Atmosphère et relief
A expansão das áreas periféricas no Brasil teve como componente decisivo o processo de migração de ex-escravos (MATOS, 2006), que procuraram os principais centros urbanos do país, em busca de oportunidades de trabalho. Essa população ocupou os morros, as áreas alagadas e fez crescer o número de cortiços nas áreas centrais, ao longo dos últimos anos do século XIX e primeiras décadas do século XX. Aos poucos, as reformas urbanas deslocaram a população pobre para áreas distantes do centro. Não obstante, a expansão industrial e os novos meios de transportes (trens e bondes) colaboraram com a segregação desses sujeitos, levando-os para áreas cada vez mais distantes dos centros urbanos, produzindo as periferias.
Nesta perspectiva, Geiger (1956) introduz importante análise sobre a periferia, no artigo Urbanização e Industrialização na Orla Oriental da Baía de Guanabara, ao revelar o processo urbano entre as cidades de Niterói e São Gonçalo - RJ, atribuindo as mudanças espaciais à crescente industrialização e ocupação de áreas de transição urbano-rural. Nota-se que em meados do século passado, as propriedades rurais nessas localidades encontravam-se em franca decadência, propiciando o seu fracionamento em lotes, mas com ausência de infraestrutura urbana, o que determinou os traços de uma expansão desordenada.
Abreu (2013) referiu-se a este período histórico, ao mencionar que da mesma forma que ocorria na cidade do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense, aqui também houve o fracionamento de grandes propriedades para criação de loteamentos.
A mesma "febre loteadora" verificava ainda na orla oriental da baía da Guanabara, especialmente em São Gonçalo, cujo crescimento industrial se processou de forma acelerada durante e após a Segunda Guerra Mundial (ABREU, 2013, p. 111).
No mesmo sentido, foi possível encontrar em Campos (1955) a tendência de urbanização periférica, ao apontar indicadores para o desenvolvimento e posterior declínio de olarias localizadas em antigas propriedades rurais, entre as cidades do entorno da Baía de Guanabara. Para a autora, a alternativa econômica rentável encontrada pelos proprietários rurais, foi o loteamento de suas terras, antes ocupadas pelas grandes olarias que, naquele momento, padeciam com a carência da matéria-prima. No caso acima, faz-se destaque para a "Cerâmica Porto Rosa" e a "Fábrica de manilhas Croll", ambas localizadas em São Gonçalo, RJ.
Atualmente, essas cerâmicas encontram-se desativadas e as suas terras loteadas. Na paisagem, restam apenas as marcas simbólicas do passado, onde as chaminés das olarias, como a da Cerâmica Porto Rosa (Figura 27), passam a representar os vestígios pretéritos da atividade econômica no bairro do Portão do Rosa.
Figura 27 - Chaminés da antiga cerâmica Porto Rosa, 2007.
Fonte: Associação de Moradores e Amigos do Porto do Rosa, disponível em http://portodorosa.blogspot.com.br/, Acesso 10 set. 2013.
Nesse aspecto, as histórias de vida possibilitaram recuperar e identificar os processos dinâmicos do crescimento das cidades. Nas histórias encontram-se relatos a indicar que a ocupação da área periférica surgiu depois da aquisição dos terrenos em terras de fazendas fracionadas devido a problemas econômicos causados pela estagnação do solo e baixa produção agrícola. A construção de moradias, na forma de autoconstrução em loteamentos, se dava em meio à falta de infraestrutura urbana, como luz, água, telefone, esgoto, ruas pavimentadas e transporte público.
Geralmente, todos que compraram os lotes (...) moravam em casa alugada, ou morava no fundo de casa dos pais(...). Porque foi um loteamento assim, os terrenos foram baratos e financiados por muitos e muitos anos. O pessoal foi pagando três anos, cinco anos pagando, prestação muito pequena. Então, a minha cunhada comprou. Não dava entrada não, entendeu? Era pagando em carnês. A minha mãe comprou em três anos. Ficou três anos pagando.
(Depoimento de M. O. V., morador do bairro Gradim)
O Portão do Rosa34 em 1964 parecia uma fazenda. Tinha uma cerâmica, era Portão do Rosa e tinha dois portões. Um entrando pela estrada da Conceição e o outro entrando por Boaçu. Era fazenda de cana e fábrica de tijolo. (...) Construí dois cômodos de casa e depois fui acrescentando. Com muita dificuldade, trabalhando muito.
(Depoimento do L. B., morador do Portão do Rosa)
À medida que a fazenda Cerâmica acabou, ela indenizou os funcionários com casas e vendeu os outros terrenos. Então, quem era de fora, como eu, foi morar no bairro. Moradores pobres, carentes, como é até hoje. (...) Porque quando eu comprei o terreno e fui construir minha casa, tinham 4 ou 5 casas no lugar. (...) Porque antigamente aquilo era mato, aquilo era uma fazenda. (...) Já tinha emprego. (...) e comprei o terreno lá em 1964. (...) Lá no bairro, tinha uma linha de ônibus para Niterói precária. (...) Naquela época não existia telefone. Água tinha, luz tinha, mas telefone não tinha. Rua não era asfaltada. Toda rua cheia de buraco.
(Depoimento de S. S. S., morador do Portão do Rosa)
Importante observar, que entre os depoentes, muitos deles chegaram à cidade e foram residir inicialmente em moradias alugadas, nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, vindos principalmente de cidades do interior do estado do Rio de Janeiro, embora muitos tenham migrado de cidades da região nordeste para trabalhar nas indústrias locais. Matos argumenta, a propósito, que o processo migratório no Brasil, é sem dúvida a "componente demográfica mais decisiva a explicar a expansão das periferias urbanas" (MATOS, 2006, p. 61).
A grande maioria era invasão sim! Mas, era uma invasão onde a maioria estava ali há muito tempo. Poucas pessoas estavam há pouco tempo. A maioria das pessoas que estavam ali já tinha cerca de arame, eles faziam uma cerquinha, botavam uns pauzinhos e tinham um espaço grandão. E às vezes as pessoas davam, traziam um parente lá de não sei da onde, cortava um pedaço e dava. (...) A minha tia, meu tio conheceu ela lá, veio da Paraíba e acabou indo para ali. Conseguiu um pedacinho de uma área ali e foi morar ali. E com ela veio as duas irmãs e a mãe dela dona Maria, vieram de lá, da Paraíba para cá. Então tinham moradores de várias regiões
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(...) na favela do Gato (...), do Rio, tem gente que veio do Rio, tem gente que veio de outros Estados, então aquilo ali é uma mistura. Não tem só gente dali. A princípio foram alguns moradores e depois foi feita uma ocupação de forma desordenada, as pessoas iam chegando, não tinha onde morar iam para ali. Ou então outros diziam “ó tem lugar ali, em não sei aonde...!”.
(Depoimento de F. A. morador do bairro Boa Vista)
À medida que passaram a residir nos lugares, os sujeitos adotaram hábitos sintonizados com a realidade local, como frequentar as praias, outros adaptaram suas vidas a novas atividades profissionais como participar da pesca nas águas da baía de Guanabara. Esses hábitos e costumes, em boa parte, estavam ligados à natureza, refletindo o conhecimento adquirido sobre a dinâmica ambiental e sua paisagem. Neste contexto, muitos depoentes assinalam em seu discurso traços de pertencimento e identidade ao lugar, através do convívio, práticas, nexos simbólicos que por muito tempo estiveram gravados na memória.
Lembro-me bem do mangue existente próximo do quintal da minha casa a mais ou menos três quilômetros do mar, com belas praias. No manguezal se encontravam caranguejos, garças, tocos, siris e outros animais. (...) Havia canais largos e profundos onde desembocam os rios vindos da cidade. Atravessando todo o mangue até o mar. Canais usados para navegação, pescaria e lazer. Havia também trilhas às margens dos canais onde íamos até as praias. Lembro-me bem da praia do Barreto em Niterói, das Flores, praia do Pontal, praia do Portinho no bairro do Porto Novo, praia da Torre da Manchete e praia das Pedrinhas no bairro Boa Vista. (...)Para pescar, jogar bola, catar marisco. Era lazer em praias limpas, praias boas. A praia das Pedrinhas era a mais famosa e mais frequentada. Havia uma pequena estrada de acesso. (...) A praia era uma grande diversão, futebol de areia, garota tomando banho, (...) tinha ponte de pesca com isca de mariscos e mexilhões pegos na própria areia da praia. A gente jogava bola e pegava os mariscos. Quando enchia os peixes vinham, entravam e ficavam quase aqui perto e a gente ficava pescando. As famílias frequentavam...
(Depoimento de. M. B. O., morador do bairro Boa Vista)
Eu nasci nesse bairro35, a luz elétrica chegou quando eu tinha 6 anos de
idade, (...) então nós brincávamos na rua, era um bairro que não tinha asfalto, (...). Naquela época, nem carro. Era muito difícil. O ônibus passava de hora em hora.
(Depoimento de J. C., morador de Jardim Catarina)
Tinha um lugar chamado Areal que era muito lindo que tinha areia, mas uma areia branquinha. (...) tinham vários coqueiros. Muito bonito esse lugar. E em frente subia um morro com grama verdinha e nós passávamos um tempão ali, eu com meu avô, com as crianças, meus filhos para irmos em
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uma praia do lado de lá que se chamava praia da Esso36. (...) Tinha uns sobrinhos da minha avó, parentes da minha avó, que vinham com os filhos, todos adolescentes, assim da minha idade, outros mais velhos, outros mais novos. Era uma festa! Nós íamos para essa praia lá da Esso! Era uma maravilha!(...) Eu fui muito à praia do Barreto. Eu trabalhei na fábrica de tecidos e na hora do almoço (...) a gente ia tomar banho lá na praia do Barreto.
(Depoimento de M. O. V. morador do bairro Gradim)
Era um lugar muito tranquilo, ele tinha uma característica como se fosse uma comunidade. Era uma comunidade pesqueira muito passiva. Ali existia uma comunidade pesqueira e uma comunidade que trabalhava fora, algumas pessoas que trabalhavam fora. A população se reunia em volta daquela comunidade pesqueira e ali tinham bares, eles cantavam, tinham as festas juninas que aconteciam ali no entorno daquela comunidade. Tinha festa junina, próximo, tinha baile no colégio que oferecia baile no final de semana. Não tinha praça de lazer, então a comunidade brincava na rua, as pessoas sentavam no portão conversavam, dialogavam, iam para a beira da praia tomavam banho, as mulheres às vezes pescavam, ficavam sentadas, minha mãe muitas das vezes ia pescar, ficava sentada. Então, assim, não existia um local de lazer próprio, um clube voltado para isso, ou uma comunidade, não! O lazer era criado pelos próprios moradores. Acendia uma fogueira, a gente se reunia, brincava, pescava, tomava banho de praia.
(Depoimento de F. A., morador do bairro Boa Vista)
Os entrevistados mencionaram que, com o passar do tempo e a permanência no lugar, acabaram construindo relações afetivas e referenciais simbólicos para suas vidas. Naquele espaço vivia-se com simplicidade, onde os valores coletivos dialogavam com o lugar. Isso pôde ser recuperado através da memória espacial trazendo à luz o ritmo da vida cotidiana, com a atividade laboral, as brincadeiras, as festas e o lazer.
Nos dias atuais, embora as características fisionômicas de outrora tenham desaparecido na memória dos sujeitos, os lugares guardam as marcas de sua essência, pois somente os que ali viveram no passado conseguem projetá-lo no presente. Em certos momentos, o passado contrasta com o presente e são marcados por rupturas espaciais.
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