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Remarque 2 : Cet atelier comprenait cinq groupes (deux tables par groupe) d’environ 10 personnes
De acordo com Bakhtin (1992, p. 329), “[...] onde não há texto não há objeto de estudo e pensamento”. Ao adotarmos a concepção de linguagem bakhtiniana, entendemos a língua como um processo de interação eminentemente humana. O que nos difere dos outros animais é a linguagem, entendida como mediadora das relações interpessoais e do processo de apropriação da cultura humana. O signo linguístico, como assinala Bakhtin e Volochínov (2014), é carregado de conteúdos ideológicos e vivenciais, marcados por uma relação dinâmica do tempo-espaço das relações entre a linguagem e vida social.
Ao situar a língua como uma produção humana, Bakhtin (1992) sinalizou que ela é organizada por enunciados; portanto, toda enunciação é um elo na cadeia discursiva que, de certa forma, responde, interroga e rejeita ou carrega enunciados anteriores e responde a possíveis respostas. De acordo com Bakhtin e Volochínov (2014, p. 117), “[...] a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela
se apoia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor”.
Os trabalhos de Bakhtin e de seu Círculo – a respeito da filosofia da linguagem – contribuem para uma nova concepção de linguagem que rompa com o subjetivismo idealista e o objetivismo abstrato. Por meio dessas duas concepções, a língua pautava-se em um “[...] sistema estável, imutável, de formas linguísticas submetidas a uma norma” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014, p. 75). Em oposições a esse pressuposto, Bakhtin (1992) desenvolveu seus fundamentos teóricos a partir da análise crítica dessas duas orientações teóricas e filosóficas de linguagem que predominavam no século XIX e início do século XX.
Segundo Bakhtin e Volochínov (2014), a primeira orientação – o Subjetivismo Idealista ou Individualista – tem como principal representante Wilhelm Humboldt e a segunda orientação – o Objetivismo Abstrato – é representada (fundamentalmente) por Ferdinand de Saussure. Para os defensores do Subjetivismo Idealista, a língua é concebida como uma criação linguística individual, cujo processo de elaboração é o psiquismo individual (psicologia individual). Seu principal representante, Humboldt, considerava a língua como atos de evolução ininterrupta de fala. Portanto, essa tendência julgava a criação individual como fundamento da língua.
Bakhtin e Volochínov (2014) analisam que para essa linha teórica, a língua não é concebida como um processo que envolve relações de conteúdo ou de sentidos ideológicos dentro de um contexto entre os sujeitos. Ela, “[...] é deste ponto de vista, análoga às outras manifestações ideológicas, em particular às do domínio da arte e da estética” (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2014, p. 74).
Analisando o objetivismo abstrato, de acordo com os dois autores aqui citados, Ferdinand Saussure (1857-1913), desconsidera a língua como “[...] um fato social, cuja existência se funda nas necessidades de comunicação” (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2014, p. 14). Assim, para Saussure, a língua é considerada um objeto abstrato e um sistema de formas normativas. Essa posição levou “o pai da linguística” a criar divisões, entre as quais, a sincronia (ocupações das relações lógicas, ou seja, a língua é estática) e a diacronia (dimensão histórica).
Desse modo, Bakhtin e Volochínov (2014) salientam que Saussure levou em conta apenas os fatores sincrônicos, desconsiderando os elementos extraverbais, ou seja, os aspectos históricos, culturais, geográficos e políticos no trabalho com a língua. Nesse sentido, o interesse da linguística de Saussure está na estrutura das palavras. Nos dizeres dos autores aqui anunciados, o objetivismo abstrato entendia que a “história é um domínio irracional que corrompe a pureza lógica do sistema linguístico” (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2014, p. 73). Nessa perspectiva, a língua é “[...] um todo em si mesma e um princípio de classificação” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014, p. 88). No entanto, a fala, não era objeto de classificação, pois os estruturalistas – por não considerarem a dimensão histórica – acreditavam que ela não seria objeto de estudo da linguística.
De acordo com Bakhtin e Volochínov (2014, p. 99), ao separar a língua da fala, separa-se concomitantemente o que é individual do que é social, pois, ao desprender a “[...] língua de seu conteúdo ideológico, constitui um dos erros mais grosseiros do objetivismo abstrato”, porque essa orientação retrata uma visão abstrata de mundo, ou seja, racionalista e mecanicista, desprovida de história. Assim, inferimos que a tendência linguística denominada de objetivismo abstrato busca analisar/compreender a dinâmica da língua nela mesma. Logo, para essa orientação filosófica, a organização (estrutura) da língua está no sistema linguístico, nas formas fonéticas, gramaticais e lexicais.
Bakhtin e Volochínov (2014), buscando superar tais orientações filosófico- linguísticas, afirmaram que a língua não é um ato individual e fisiológico. Rompem com uma concepção de língua como um sistema de normas rígidas, imutáveis e um produto acabado. Para os autores, a língua só pode ser analisada e compreendida mediante os eventos de interação verbal. Compreendemos, na companhia desses autores, que “[...] a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014, p. 128).
Ao superarem essas duas orientações, aproximamos as teorizações de Bakhtin e Volochínov (2014) da epígrafe que abre esse capítulo para considerarmos como potência o “lirismo dos loucos”, “o lirismo dos bêbados” e o “lirismo dos clowns de Shakespeare”, ou seja, as várias possibilidades de se utilizar a língua. Com isso,
valoram-se os vários contextos imediatos carregados de evoluções ininterruptas que se materializam na interação verbal social dos sujeitos inseridos em uma totalidade histórica, que determinam que a “[...] estrutura da enunciação é uma estrutura puramente social” (BAKHTIN/VOLOCHONÍVOV, 2014, p. 132).
Articulada a noção de linguagem, apresentamos a seguir a noção de texto, a partir da perspectiva bakhtiniana de linguagem. Consideramos importante apresentar a base conceitual que norteia essa noção, pois o próprio conceito de texto vincula-se as concepções que se têm de linguagem, leitura e sujeito.