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LEMMA 5.3. Assuming suitable normalization o/~, we have
A costura do tecido desenvolvimento, tecnologia e sociedade nesta dissertação teve como desafio investigar canais de aproximação entre a universidade e atores sociais não hegemônicos, sob a perspectiva da Teoria Crítica da Tecnologia, visando ao uso de sistemas técnicos para mitigar desigualdades sociais. Após longa trajetória teórica e empírica, a pesquisa conclui que o desenvolvimento não ocorre como consequência direta da produção/adoção de tecnologias, mas constitui um processo complexo e passa pela promoção cuidadosa de políticas públicas tanto de C&T quanto de inclusão social.
Portanto, o desenvolvimento não pode estar sujeito unicamente ao humor dos mercados globais ou regionais, mas depende de intervenções governamentais ou de instituições privadas adequadas para que os atores sociais não hegemônicos sejam incluídos no processo. No que se refere às tecnologias, observou-se que é imprescindível que a abordagem positivista ainda prevalecente seja confrontada pela perspectiva construtivista, a fim de verificar os imperativos sociais e políticos que permeiam os sistemas técnicos com vistas à elaboração de processos e artefatos tecnológicos mais democráticos e alternativos.
Com esse enfoque social sobre a atividade técnica, a análise dos Projetos Especiais revelou primeiramente, grande convergência referente à questão do “aprender na prática” desde os tempos de Theodomiro Santiago e passando por perspectivas, cultural, econômica, política, jurídica e pedagógica, no sentido de valorizar situações reais de aprendizagem. Constatou-se que o contexto político e econômico, a partir dos anos 70, em função do advento do neoliberalismo e da produção toyotista, passou a valorizar uma educação que envolvesse dinamismo, autonomia, competição e empreendedorismo devido aos altos índices de desemprego. Assim, houve uma reformulação dos sistemas educacionais para atender essas demandas através da Lei de Diretrizes e Base, de 1996, valorizando estratégias pedagógicas dinâmicas, como as metodologias ativas. Refletindo os imperativos dos mercados neoliberais e toyotistas, a Política de Ciência e Tecnologia intensificou o aumento do gasto público no sentido de fomentar as atividades inovativas, promovendo a aproximação entre universidades e setor produtivo configurando o sistema da Hélice Tríplice. Além disso, o entusiasmo com a aprendizagem prática aparece como uma unanimidade nas entrevistas. Todos os professores entrevistados reconheceram a superioridade do envolvimento dos alunos nos Projetos Especiais em relação à sala de aula ou aulas nos laboratórios. A totalidade dos alunos entrevistados afirmou que os trabalhos nos finais de semanas e as férias se justificam pela oportunidade de aprender na prática, de encarar problemas reais e inusitados, pela autonomia para tomada de decisão e criação. Essa convergência está representada na figura 8.
Figura 8 Fluxograma da Aprendizagem Prática
A identificação dessa convergência não significa uma visão otimista ingênua, porque se tem consciência das enormes diferenças no campo dos diagnósticos e as motivações diferentes em relação a cada ator nesse fluxograma. Entretanto, pode-se analisar das seguintes formas: Se os alunos se interessam por atividades empíricas; em trabalhar de forma colaborativa e interdisciplinar; aliar o conhecimento técnico a preocupações sociais e promover inclusão, que se ofereça a eles problemas técnicos reais imbricados com questões sociais/ambientais, existentes na periferia do município ou entre parcelas vulneráveis da população da cidade. Além disso, se o aluno tem sido treinado para ser protagonista e competitivo no sentido de atender às exigências de uma economia de mercado com alto índice de desemprego, ele pode também ser influenciado para usar sua criatividade e autonomia no sentido de desenhar artefatos e processos tecnológicos com vistas à inclusão. Enfim, observou-se que preocupações sociais não aparecem espontaneamente nas entrevistas, mas precisam ser estimuladas, portanto, é necessário que a grade curricular e a prática pedagógica da universidade expressem preocupação com as demandas sociais, questões éticas e ambientais e não apenas com o rigor técnico.
Uma segundo consideração seria a constatação de que apesar dos fortes investimentos na política inovacionista nos últimos 20 anos, os resultados têm sido tímidos. Uma das várias razões para esse fracasso se deve à lógica dos investimentos se basear nos imperativos dos mercados globais e não nas necessidades internas. Governo reclama que gasta muito e não vê resultado satisfatório, academia e empresários reclamam
de poucos investimentos, falta de infraestrutura, burocracia..., mas o foco da pesquisa é oferecer voz aos excluídos desse processo, que financiam esse investimento sem desfrutar de forma justa dos resultados. Pessoas condenadas a viver em ambientes tecnológicos e informatizados sem que suas vozes sejam ouvidas. Nesse sentido, a pesquisa propõe alargar a perspectiva inovacionista da Hélice Tríplice, sem cair simplesmente na perspectiva inovacionista liberal de Freeman. Obviamente Freeman não é socialista, mas dialoga com a Teoria de Feenberg, no sentido de pressupor a participação da sociedade civil na atividade dos fazedores dos sistemas técnicos. Surge, então, a hipótese de se acrescentar ao conjunto governo, setor produtivo e centros de pesquisas, a intervenção de grupos não hegemônicos da sociedade de forma efetiva, sempre que se tratar de produção científica e tecnológica fomentada por dinheiro público.
Figura 9 Representação da convergência das perspectivas de Feenberg e de Freeman.
Finalmente, no que se refere à sociedade, observou-se que a Teoria Crítica da Tecnologia de Feenberg também possui convergência com os pressupostos da aprendizagem prática e autônoma, pois sua concepção de democracia não se resume a eleições e votações, mas se refere a uma participação crítica desenvolvida em ambientes de aprendizagem que estimulem liberdade, ativismo, criatividade, solução de problemas reais e protagonismo. Portanto, metodologias ativas, digitais e em rede, aliadas às habilidades de uma geração que, sob pressão, tem sido forjada para ser flexível, dinâmica e inovadora, têm na perspectiva desta pesquisa, potencial a ser canalizadas para outros propósitos: hackear tecnologias e reconstruir artefatos e processos tecnológicos alternativos, que atendam demandas de grupos não hegemônicos. Se o aluno é treinado para ser protagonista e competitivo no sentido de atender às exigências de uma economia de mercado com alto índice de desemprego, ele pode também estimulado a ser criativo e autônomo no sentido de projetar visando à inclusão, à solidariedade e à equidade.