• Aucun résultat trouvé

Association Ru les

Dans le document Part One Introduction 1 3 Contents (Page 89-94)

A luta preconizada por Vandana Shiva faz-se, sobretudo, no plano cultural, pelo que “propõe um novo paradigma onde dominam os valores da cooperação, do cuidado e do relacionamento mútuo, dando visibilidade às mulheres do Terceiro Mundo” (Ferreira, 2009: 252). Na perspetiva do ecofeminismo partilhada por Shiva, a atividade económica deverá ter como objetivo “a criação da vida, ou seja, a satisfação das necessidades humanas fundamentais principalmente através da produção de valores de utilização (Mies, 1993 in Mies & Shiva, 1993: 413), em vez da produção crescente de mercadorias e dinheiro para um mercado anónimo.

Uma atividade económica centrada na vida das pessoas terá de ter por base uma nova relação com a natureza respeitando a riqueza e a diversidade da natureza, “Tanto para seu próprio bem mas também como pré-condição para a sobrevivência de todas as criaturas deste planeta” (Idem: 413), abandonando a conceção de natureza máquina como foi vista na era moderna e passando a encará-la na subjetividade que lhe é inerente. Paralelamente, para o ecofeminismo preconizado por Vandana Shiva, só se poderá ter uma relação não exploradora da natureza se as relações entre as pessoas se alterarem também, especialmente as que são entre homens e mulheres, o que:

“significa não apenas uma mudança nas várias divisões do trabalho (divisão sexual; trabalho manual/mental ou urbano/rural, etc.) mas principalmente a substituição de relações de dinheiro ou de mercadorias através de princípios como a reciprocidade, a mutualidade, a solidariedade, a confiança, a partilha e o carinho, o respeito pelo indivíduo e a responsabilidade pelo «todo»”

(Mies, 1993 in Mies & Shiva, 1993: 414).

A segurança em relação à subsistência terá ainda de ser garantida pela confiança depositada na fiabilidade da comunidade a que se pertence e não na individualidade atomizada e autocentrada da economia de mercado (Idem: 414). Além disso, baseia-se ainda na necessidade de abolição de grande parte das divisões entre esfera pública e privada, promovendo uma democracia participativa, considerando que “O pessoal é político” (Idem), ou seja, deverão ser os anseios e reivindicações de cada indivíduo expressos não apenas isoladamente, “mas assumidos por todos de um modo comunal e prático” (Idem: 414). Deverá, igualmente, assentar no reconhecimento de que os problemas sociais, dos quais fazem parte as relações patriarcais, a desigualdade, a

115

pobreza, entre outros, deverão ser resolvidos em conjunto com os problemas ecológicos (Idem: 415) porque não dependem apenas da remoção de simples obstáculos tecnológicos, mas antes de fatores relacionados com a forma como culturas diferentes veem o mundo.

Portanto, o que este modelo de ecofeminismo propõe é que “Em vez da ciência e da tecnologia instrumentalistas e reducionistas existentes […] serão desenvolvidas ciências e tecnologias ecologicamente saudáveis, feministas, de subsistência, numa ação participativa com a população” (Idem: 415), de modo a reavaliarem os conhecimentos tradicionais relacionados com a sobrevivência e subsistência das populações, maioritariamente pertencentes às mulheres – nas sociedades do Terceiro Mundo – pelo facto de serem elas que se ocupam de quase tudo o que diz respeito à esfera da vida privada onde se insere a agricultura de subsistência; depois de reavaliados, esses conhecimentos deveriam ser recuperados e integrados nos novos modelos de forma a restabelecer e reforçar relações sociais assentes na igualdade e que, por sua vez, iriam potenciar uma maior justiça social.

Uma perspetiva de subsistência deverá também fomentar a responsabilidade conjunta pelos bens que são comuns como a água, o ar, o lixo, o solo, os recursos, preservando-os e providenciando a sua regeneração, resistindo “a todos os esforços de contínua privatização e/ou comercialização” (Idem: 415) desses bens.

No entanto, há que esclarecer um ponto demasiado importante na teoria ecofeminista defendida por Vandana Shiva, que é o facto de ser “completamente inconsistente excluir os homens desta rede de responsabilidades para a criação e manutenção da vida” (Idem: 416), pois qualquer perspetiva que pretenda conceber um novo modelo de sociedade futura dotada de um maior equilíbrio ambiental, terá de integrar todos os indivíduos que façam parte da sociedade que se pretende mudar – considerando os efeitos da globalização, diremos antes, todos os indivíduos que façam parte do mundo – não criando apenas grupos que deixariam de fora uma parte da humanidade, quer fossem mulheres, homens, ricos ou pobres.

116

Por essa razão, os indivíduos de ambos os sexos deverão fazer parte do modelo de subsistência o que “significa necessariamente que os homens comecem a partilhar, na prática, a responsabilidade pela criação e preservação da vida sobre este planeta. […] devem desistir do seu envolvimento na produção de mercadorias destrutivas a bem da acumulação e começar a partilhar o trabalho das mulheres para a preservação da vida. Em termos práticos, tal significa que devem partilhar o trabalho de subsistência não pago: em casa, com as crianças, com os velhos e doentes, no trabalho ecológico de curar a Terra, em novas formas de produção de subsistência” (Idem: 416). Assim, se as qualidades de cuidado, que até aqui foram consideradas do domínio das mulheres, forem adquiridas pelos homens e se a economia de subsistência for igualmente seguida por eles, então, a sociedade, segundo o modelo do ecofeminismo que temos vindo a abordar, poderá “viver em paz com a natureza e garantir a paz entre as nações, as gerações e as mulheres e homens, porque não baseia o seu conceito de uma vida com qualidade na exploração e no domínio da natureza e de outros povos” (Idem: 417), mas sim numa relação de reciprocidade entre toda a população.

Sabemos que este modelo de economia, assente na sustentabilidade, não é compatível com o paradigma de desenvolvimento atual característico dos países desenvolvidos do Ocidente, orientado para o crescimento e o lucro, o que significa que não se poderá generalizar o padrão de vida das sociedades do Norte (Idem: 417) ao resto do mundo, por várias razões aqui apontadas, entre elas o modelo de desenvolvimento “catching up”, embora o ecofeminismo na conceção de Shiva visione uma sociedade na qual todos os indivíduos independentemente do sexo, idade, raça, cultura, pudessem usufruir de uma vida com qualidade na qual a justiça social, a igualdade e a dignidade humana, não fossem uma mera utopia; esse modelo de sociedade é denominado pelas teóricas deste movimento ecofeminista como sociedade de subsistência (Idem: 417) e será possível quando se adotar um novo modelo de ethos civilizacional assente no cuidado para com a Terra, a vida, a sociedade e as pessoas.

117

PARTE IV – A AÇÃO HUMANA E OS VALORES: PROPOSTAS DE ABORDAGEM

Dans le document Part One Introduction 1 3 Contents (Page 89-94)

Documents relatifs