Tratando ainda do tema da economia e do futuro de Gibraltar procurou -se saber o que os/as entrevistados/as pensam sobre como será o impacto do Brexit, uma vez que a maioria da sua mão-de-obra provém do outro lado da fronteira, ou seja da Espanha. Até que ponto o Brexit poderá afetar Gibraltar, uma vez que o Reino Unido ficará fora da Europa e do mercado comum europeu?
Tentou-se averiguar se o Brexit será bom ou mau para Gibraltar. Muitos dos entrevistados acreditam que não será nada bom para Gibraltar, mas que tudo dependerá da negociação do governo britânico com a União Europeia e, sobretudo, com o governo espanhol.
Alguns nativos parecem confiar na capacidade de negociação dos ingleses:
“Mau, muito mau, mas o problema é que não sabemos como vamos ficar, nós não queremos
sair da UE porque nós votamos para ficar na UE, porque temos um regime aduaneiro diferente. Não te esqueças que entrámos na UE antes da Espanha, e a Inglaterra colocou um veto na UE para abrir a fronteira com Gibraltar para poder entrar na UE. Mas a Inglaterra foi sempre tão potente, eles têm sempre tem uma saída, eles têm a comunidades deles que é Commonwealth na época do império, agora estão fazendo acordos económicos com eles para fazer comércio com eles.” (Homem, 68 anos, reformado, gibraltarino, pai gibraltarino de origem portuguesa, mãe gibraltarina).
Outro nativo também confirma que a intenção da maioria da votação dos gibraltarinos era ficar na União Europeia, mas ao mesmo tempo também confia que os ingleses vão acabar por encontrar uma solução.
“Nós não queríamos sair, Gibraltar votou que não, porque recebemos muitos benefícios da
UE, mas se a Inglaterra decidiu que devemos de sair, temos de sair, mas nesse problema, se sairmos eles têm de nos ajudar. Mas os ingleses, eu digo sempre isso, eles fazem política sempre a pensar no amanhã e no depois de amanhã. Eles sempre estão a pensar em algo mais à frente.”(Homem, 70 anos, reformado, gibraltarino, pai espanhol e mãe inglesa).
Para outro nativo, a saída do Brexit dependerá mais das decisões políticas que tomará o governo espanhol, e acredita que talvez Bruxelas não consiga retirar a cidadania europeia porque foi dada de forma individual e não adquirida pelo Reino Unido.
“Que seja bom ou mau para Gibraltar vai depender do governo de assuntos estrangeiro s
espanhol. A Espanha poderá tolerar-nos como vizinhos fora do Brexit ou tentar continuar a incomodar-nos, se já fazem dentro da Europa, podem ainda fazer mais fora da Europa. Se o Brexit será bom ou não dependerá do nosso vizinho, que é o único vizinho que temos. Que seja bom ou não, por um lado, vai depender de nós também, porque a cidadania europeia, como já falei antes que pertence a nós de forma individual a cada europeu. Talvez, o Reino Unido não consiga tirar-nos a cidadania europeia. Bruxelas deu-nos a cidadania, e se é como uma cidadania nacional, não pode nos retirar.” (Homem, 73 anos, arquiteto, gibraltarino, pai origem judaica, mãe espanhola).
Ainda outro entrevistado nativo acredita que, embora tudo esteja incerto, poderá ser problemático, uma vez que a estabilidade económica em Gibraltar trouxe pouca distinção de classe, e o Brexit poderá fazer com que os pobres hoje que conseguiram enriquecer um pouco não queiram mais voltar ao seu estatuto de antes.
“Sabes, antes havia os ricos e os pobres aqui, agora os pobres ficaram mais ricos e se acostumaram-se não vão querer ficar pobres de novo, entende! E isso, acredito, que pode ser um problema muito grande. Não sabemos, estamos na perspetiva para ver como as coisas vão acontecer.”(Homem, 61 anos, advogado, gibraltarino, pai gibraltarino origem francesa, e mãe gibraltarina origem judaica).
Quanto aos residentes, uma delas acredita que poderá ser algo positivo a longo prazo, dependendo de como deverão proceder as negociações entre Inglaterra e Espanha.
“Não se sabe como vai ficar, acho que nem o governo de Gibraltar e nem a União Europeia
sabem e acredito que desconhecem como vai ficar. Eu sei que o governo está a trabalhar para isso, para que não tenha tanto impacto em Gibraltar, mas acho que não é tão preocupante. O Brexit pode ser algo bom, mas também pode ser algo mau, depende, há muitas coisas em jogo e muitos interesses em jogo.” (Mulher, 26 anos, arquiteta, iraniana, pai iraniano, mãe iraniana).
Outro entrevistado entre os residentes, que trabalha na Câmara do Comércio de Gibraltar, afirma que há muitos riscos, embora acredite que a população gibraltarina está sempre preparada para mudanças e que sentir-se inseguro é algo a que o gibraltarino está acostumado.
“Como sabes 96% da população votou para ficar na UE, mas a decisão não está nas nossas
mãos. Mas independente do que vá acontecer com os regulamentos esta população sempre adaptar-se sempre. Quiçá no processo de adaptação seja muito austero, difícil e de insegurança. Mas a insegurança sempre fez parte da vida deles, há 10 anos eles também se perguntavam como seria em relação aos impostos quando a UE exigiu uma política igualitária de impostos. Há 20 anos também existia uma insegurança sobre a reputação de Gibraltar em relação ao contrabando de tabaco etc., e o problema quando a Espanha começou a fazer parte da UE também existiam muitas incertezas e inseguranças. Foi sempre assim e encontraram sempre formas de adaptação. Os gibraltarinos sabem adaptar-se, faz parte da sua história, sempre foi assim. A vantagem para Gibraltar é que é um território pequeno e a maioria está sempre em comum acordo, e se eles têm um governo que os guia bem eles e eles têm tudo na mão para dar certo.” (Homem, 53 anos, funcionário da câmara do comercio, inglês, pai inglês, mãe inglesa).
Na opinião de outro residente, embora nem tudo pareça tão incerto, a relação política com a Espanha poderia ser problemática, tratando-se da fronteira. Acredita que o Brexit poderá ser uma grande oportunidade para Gibraltar, considerando a capacidade de flexibilidade de procurar outras alternativas, como futuras negociações com Marrocos.
“O Brexit é uma incógnita, a maioria de Gibraltar votou para ficar na Europa, chegou a quase 90%, acredito que foi mais a angústia do problema que poderia desencadear em relação a Espanha, sobretudo a questão da fronteira. Mas talvez seja algo bom, pelo menos é minha opinião, porque poderá proporcionar outras oportunidades, como futuras negociações com o Marrocos. Acredito que uma das capacidades de Gibraltar é a de se reinventar, com a sua condição tão flexível.” (Homem, 35 anos, israelita, advogado, pai francês, mãe francesa).
Considerando a situação incerta entre negociações futuras entre Inglaterra, União Europeia e Espanha, e conforme o depoimento de quase todos os entrevistados/as, incluindo
nativos, residentes e não-residentes, percebe-se que alguns acreditam que o Brexit seja uma grande oportunidade para Gibraltar, outros, sobretudo os nativos, preocupam-se mais com as consequências com a relação política entre Espanha e Inglaterra, e poderá trazer sérios prejuízos com a ameaça do controlo da fronteira, prejudicando o comércio e os negócios em Gibraltar.