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O capital cada vez mais se concentrava em São Paulo. Ainda que vagarosamente, o Estado se desenvolvia. Conforme aponta Claudia Panizzollo (2006), em menos de 50 anos, a população aumentou mais de 20 vezes. O Estado transformou-se em burgo dos estudantes, e a metrópole do café. A paisagem dessa metrópole se modifica, torna-se, então, uma cidade urbanizada, com comércios atacadistas e varejistas, estradas de ferro, casas bancárias, além de indústrias.

Os sítios e as chácaras foram loteados e transformaram-se em bairros como: Santa Cecília, Pátio do Colégio, Santa Ifigênia, Barra Funda e Bom Retiro. Até 1890, a distribuição da população pelos bairros era diversificada, mas, a partir da última década, houve nítida separação de classes devido à divisão social do trabalho. Bairros operários surgiram como: Barra Funda, Mooca e Brás que ficavam próximos às ferrovias. Já a Avenida Paulista e o Higienópolis eram reservados às elites de São Paulo, com paisagens mais arborizadas e casas comerciais. Segundo Panizzollo (2006):

Os primeiros bairros operários, conhecidos como Brás e Barra Funda, foram criados e povoados nas terras baixas, próximos às vias férreas. Os bairros de elite, como Campos Elíseos e Higienópolis, localizados nas partes altas da cidade, também sofreram alterações com a abertura de largas avenidas e ruas, além da construção de mansões e palacetes. (PANIZZOLLO, 2006, p.16).

Além de tornar-se um centro urbano, São Paulo começa a se embelezar: as ruas, as avenidas, os becos e as praças ou desaparecem do cenário ou são reformados. Ruas e avenidas são arborizadas, imitando o modelo inglês de subúrbio. Destaca-se o fato de a Igreja Nossa Senhora do Rosário ser demolida e reconstruída em um local mais afastado, para livrarem-se do maior número de lembranças possível remetidas aos tempos de escravidão.

Conceitos urbanísticos novos eram aplicados por estrangeiros. Segundo Maria Luíza Marcílio (2005), as cidades transformavam-se. A transformação da

Avenida Paulista em um jardim gramado, a transformação do pântano do Tietê em um cenário mais elegante, e o crescimento assombroso da população constituíram a sociedade desse período.

Conforme escreve Panizzollo (2006), a construção do Teatro Municipal, inaugurado em 1911, foi um marco cultural na cidade de São Paulo. O crescimento urbano, a multiplicação das escolas, as viagens à Europa e aos Estados Unidos pela classe dominante contribuíram para a formação de uma nova mentalidade em São Paulo, que defendia o desenvolvimento e o progresso do país fosse semelhante à sociedade dos Estados Unidos e de países da Europa.

Não apenas as cidades são estendidas, mas também o tipo de organização social do período apresenta mudanças. Inicia-se um processo de desarmonia entre a nova cidade e o campo. A civilização agrário-comercial fora substituída por uma civilização urbano-industrial e, por consequência, houve a formação de novos valores ideológicos na civilização urbana:

Com o aceleramento da urbanização na década dos dez e dos vinte, vão diminuindo, aos poucos, os traços mais típicos do “Brasil-país- essencialmente agrícola”, na sua acepção econômica e social. E enquanto fonte de ideias sociais, a urbanização tornou possível a existência de condições propícias a muitas elaborações; por outro lado, ao aceitar ou negar os novos valores da civilização urbana, tais elaborações (ideários) estavam ligadas, de uma ou de outra forma, às características ou aos efeitos da urbanização. (NAGLE, 1974, p. 25).

Porém, como ocorre em toda sociedade em processo de mudança, a urbanização de São Paulo também favoreceu o descontentamento por parte dos setores agrários, já que seriam prejudicados com a industrialização que estava por vir. A ideologia ruralista defendia a preservação do universo agrário- comercial e tentava disseminar mitos sobre os perigos de uma urbanização e as péssimas consequências para os cidadãos. Os agraristas defendiam a ideia de que a vida no campo é ideal para a formação de homens perfeitos, saudáveis, solidários, corretos e respeitáveis. Segundo Jorge Nagle (1974), fundamentando-se na exaltação das vantagens naturais da vida rural, tentavam difundir uma ideologia pessimista de que, caso houvesse a urbanização,

haveria degeneração e desintegração social, pois a urbanização traria a “destruição da solidariedade natural do homem” e da natureza.

Já o desenvolvimento capitalista (mesmo que em passos lentos) tornava- se cada vez mais forte, ocasionando a aceleração da divisão social do trabalho. Exigia-se cada vez mais o aumento dos níveis de preparo para exercer as funções, resultando, como já escrito anteriormente, nas novas camadas sociais, elevando o status do proletariado industrial e da classe média.

(...) quando emerge a consolidação dessa ordem competitiva e o da formação e desenvolvimento de uma sociedade de classes, embora ainda estejam presentes muitos aspectos da dominação patrimonialista, predominantes no período anterior. No novo quadro, até a palavra “povo”, anteriormente empregada num sentido vago e indiferenciado – pois resumia diversas modalidades de camadas sociais – vai-se decompondo em outras palavras que traduzem camadas cada vez mais diferenciadas (classes). (NAGLE, 1974, p. 27).

Percebendo que os setores comercial e industrial encontravam-se em ascensão, o grande capital cafeeiro envolve-se na vida empresarial e, assim, ocorrem modificações na estratificação social de São Paulo. Agora os empresários, os membros do grande capital cafeeiro contribuíram para a criação de uma nova classe mercantil e para a ascensão das camadas médias e do proletariado industrial.

Quando nos referimos ao proletariado industrial paulista, estamos nos referindo aos trabalhadores que realizavam os trabalhos manuais urbanos: a partir do novo desenvolvimento capitalista, torna-se necessária a contratação de muitos funcionários para trabalharem nas indústrias. A nova camada do proletariado industrial urbano evolui. Uma prova disso não seria apenas a evolução econômica (mesmo que fosse pouca), mas a evolução de exigências e interesses por parte desses trabalhadores.

A influência de ideologias anarquistas entre os operários paulistas, os protestos e as greves foram fatores marcantes nesse período na vida do proletariado industrial. Interessante salientar como a classe dominante do período tentava reagir a situação de protestos: procurava a todo custo justificar

a natural harmonia que deveria existir entre as diferentes classes, alegando que cada classe social inserida na divisão social do trabalho exercia um papel importante para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

No universo empresarial, surgem assim várias noções ideológicas que justificam, resguardam a ordem social e obscurecem a existência de uma hierarquia ou a existência de privilégios na divisão de classes sociais e de trabalho. Por sua vez, o proletariado utiliza o método contrário para expor todas as desigualdades e péssimas condições em que se encontrava, tentando apresentar a real sociedade e a desigualdade de condições (econômica, social e de labor) do período.

O estudo de manifestos, proclamações e discursos publicados no período revela que as classes dominantes se esforçavam por justificar a “natural” harmonia que deve existir entre os diferentes agrupamentos (classes): pela sua própria “natureza”, cada classe depende de outro e entre elas devem predominar as relações de cooperação. De acordo com o raciocínio, começam a ser utilizados vários tipos de formulação ideológica, que justifica e resguarda a ordem social estabelecida, ao obscurecer a existência de hierarquia ou de privilégios classistas. O proletariado, por sua vez, utiliza linguagem oposta para a apresentação do mesmo problema. Procura difundir uma imagem dicotômica da estratificação social: “exploradores”, num polo, “explorados”, em outro. Nela se pode identificar a tentativa de opor, no quadro histórico do momento, as forças do capital e do trabalho, Da oposição surgirá, nos últimos anos da década 1910-1919, o tema da “questão social”. (NAGLE, 1974, p. 28).

O desenvolvimento das organizações e dos protestos gerou uma pressão social que redundaria em melhorias (mesmo que poucas) no setor trabalhista. É necessário advertirmos que as medidas tomadas ainda eram reduzidas frente às reais condições enfrentadas por esses trabalhadores. Apesar disso, como aponta Jorge Nagle (1974), há evolução no tratamento das questões sociais e trabalhistas, embora a real fase de renovação da estrutura jurídico-trabalhista se inicie a partir dos anos 1930.

Interessante que, ao mesmo tempo em que ocorriam melhorias (mesmo que pequenas) das condições de vida da classe operária, havia ideologias de classe dominante que tentavam justificar as suas ações. Um exemplo dessa

ideologia justificativa diria respeito ao trabalho de menores nas indústrias: a ideologia jurídica do período acreditava que, enquanto as crianças ocupassem o seu tempo com o labor, estariam menos suscetíveis ao vício, à vadiagem e não ficariam abandonadas nas ruas, suscetíveis a tais perigos.

Apresentando essa questão, podemos perceber o quanto a mentalidade ideológica jurídica estava contra a real melhoria das condições de trabalho exigidas pelos trabalhadores industriais do período. O fruto dessa postura antitrabalhista do Estado e das classes dominantes foi a emergência da revolta operária e dos protestos pela melhoria das suas condições de trabalho. Essas questões sociais apenas contribuíram para que as ideologias proletárias e o protesto operário obtivessem mais força, fomentando a realização de tumultos e protestos.

Fizemos aqui apenas considerações gerais sobre a sociedade no período em questão. Procuramos introduzir a situação social na qual se encontrava o Estado de São Paulo, destacando o setor proletário industrial desse período. Combinamos as considerações sobre a economia, o Estado, a classe média e as correntes ideológicas que circularam no período em São Paulo. A seguir, passaremos às questões industriais e educacionais, procurando mostrar como a ideologia do trabalho se fazia presente no âmbito educacional, no período de 1910-1930.

3.2 O SISTEMA INDUSTRIAL EM SÃO PAULO: O TRABALHO

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