4. OPERATING PROCEDURES
4.2. ASSEMBLER CARD OUTPUT
Retomamos o encontro anterior, que terminara com a leitura da história de vida da professora Renata Angélica.
Na metodologia utilizada pelo grupo, cada um ouviria sua própria história na voz de outro. Como Renata fora a primeira a ouvir sua história, ela compartilhou conosco sua percepção e seu sentimento. Ela identificou a primeira sensação como sendo a de desconforto, ao qual se seguiu profunda necessidade de explicar os fatos que estavam sendo narrados. Vale lembrar que havia cortado vários momentos
da história, por achar que não eram importantes naquele instante. Para o leitor, também houve uma reação que foi descrita como de expectativa por ter a oportunidade de conhecer um pouco mais da colega, com quem diariamente compartilhava tantos momentos — os de educadores.
Após os comentários iniciais, falamos sobre como as discussões, durante os encontros, estavam trazendo muitos momentos a nossa memória. Todos já tinham uma segunda versão de sua história — inclusive a professora Renata Angélica, que se permitiu escrever sem fazer tantos cortes: ela conseguiu enxergar a importância e a representatividade dos momentos cortados na constituição do que ela é hoje, do seu momento professora.
A segunda história a ser lida foi a da professora Andrea, e o professor Wellington fez a leitura. As intervenções, durante a leitura, diminuíram muito, pois a professora já havia se permitido escrever sobre diversos momentos. A professora Andrea também compartilhou conosco da estranheza sentida ao ouvir sua história:
— Todo o desejo de criticar o modelo de ensino vivido não apareceu, a entonação dada pelo pro- fessor Gustavo não era a entonação que eu havia dado ao texto, minha história já não era tão minha apenas, ao se tornar pública tive a sensação de perdê-la um pouco. Apesar de ser estranho ouvi- la, eu achei muito bom, o desafio de escrever foi grande, assim como o de ouvir e muitas coisas que eu escrevi, ao ouvir, percebi que não havia refletido verdadeiramente sobre elas (Andrea).
Retomamos, neste instante, como no primeiro encontro, a necessidade de publicizar as nossas histórias de vida, as quais nasciam de uma escuta interna, no nosso íntimo, mas apenas quando se tornassem públicas nos permitiriam uma reflexão mais intensa sobre nossas histórias e seu significado no momento que estávamos vivenciando. Naquele momento, percebemos o processo que estava sendo construído por nós. Começávamos a nossa escrita como donos da história, e, de repente, esta não era mais unicamente nossa. Deixava de estar escondida, de ser singular no sentido de única e passava a trazer a história de uma época, uma cultura, um contexto; passava a representar uma história com um pouco de cada um de nós. Vistas dessa maneira, nossas histórias individuais estão conectadas a um contexto, em que estamos inseridos; nossos cantinhos escondidos já não são
apenas nossos; nossas singularidades são socializadas, nos tornamos mais universais. Essa percepção de sair de nossa intimidade nos dá certa largueza e uma grande estranheza, originada na própria escola. Fomos educados a nos esconder sempre, mesmo diante de um público seleto, no qual temos confiança: é público e causa a sensação de nudez; não podemos nos despir na frente de outros. Talvez seja disso que a escola precise — vamos nos abrir a outros instantes, vamos mostrar a nossa cara.
Assim, percebemos a necessidade de publicizar nossas histórias. Já havíamos discutido, no primeiro encontro, a necessidade de que nossas histórias de vida, que nascem de uma escuta interna, na intimidade de cada um de nós, se tornassem públicas, mas apenas nesse momento, diante de uma reflexão coletiva e intensa, percebemos o significado do tornar-se público. Mais do que o significado, a necessidade desse tornar-se público, pois a partir daí poderíamos construir um novo momento repleto de significados.
Essa discussão passou a ter sentido quando nos autorizamos a falar de nossas histórias sem medo; essa foi uma conquista do grupo. A declaração da professora Andrea quanto a sua segunda versão da história deixa bem claro esse momento do grupo: "Eu me autorizei a falar de mim mesma, me entreguei à escrita. Causou incômodo, mas foi muito bom, muito diferente da primeira versão, onde minha preocupação era em escrever um bom texto."
A intimidade e a confiança, construídas entre todos os participantes, possibilitaram que nossos encontros se tornassem mais e mais ricos. Permitimo-nos confidenciar a cada encontro novos momentos de nossa vida.
Em nossas discussões, nosso criticismo aumentou. Confidenciamos alguns momentos que, embora inicialmente acreditássemos não se relacionarem ao "momento professor", percebemos estarem imbricados — já que eu não posso me dissociar de mim mesma e apenas assumir papéis. Dentro da teoria dos momentos, podemos verificar que cada momento pode ter o seu espaço. Podemos deixar um momento "em stand-by" e depois retomá-lo.
Estamos falando muito do nosso "momento professor" e precisamos considerar que é apenas um de nossos momentos, todos os outros coexistem. Quanto mais nos expomos, mais temos condições de nos enxergar e de refletir sobre a nossa caminhada, o nosso ser neste momento. É preciso ter clareza de que,
ao resgatar nossa singularidade, nossa particularidade, resgatamos nossa vida, abrimos espaço para ser sujeito no mundo de hoje.
Como na história de alguns dos professores haviam estado muito presentes a educação pública e a educação privada, discutimos um pouco se a questão era ser pública ou privada, ou se o que precisávamos pensar era na formação que deve acontecer, tanto na instituição pública, quanto na privada, embora esta dispusesse de maiores condições, pelo menos em termos de equipamentos e manutenção da infraestrutura. Optamos por não centralizar nossas discussões na dicotomia "público versus privado", mas em nossas histórias e o quanto permeiam nosso momento atual, que, para alguns, estaria dividido, enquanto momento cronológico, entre atuar na escola privada e na pública.
Optamos por continuar a ouvir as nossas histórias, a fim de poder levantar outros elementos que nos fizessem refletir sobre o nosso "momento professor", tendo sempre como horizonte a busca de outro referencial para o processo educativo, referencial que necessariamente deveria ser construído por nós, autores desse processo.