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II. MATERIELS & METHODES

IV. 4. Aspects anatomopathologiques

E o que isso tem a ver com o assunto desta dissertação? Certamente o fato de termos levantado, já na introdução, a possibilidade de que muitas das referências a Sócrates sejam tradicionais, ou seja, se repitam pelo costume de se usar contra figuras como Sócrates. Cabe agora, em uma primeira instância, avaliar as referências feitas na comédia antiga a personagens e a fatos relacionados com As Nuvens, mais especificamente nos concentrando no mundo intelectual d’As Nuvens, o qual compreende boa parte da polêmica dessa obra.

A preferência será dada aos fragmentos da comédia antiga que sejam ou contemporâneos ou anteriores à obra em questão. Tal abordagem de chofre já nos coloca um problema, pois no caso da comédia antiga – de fato, da literatura grega em geral – na maioria das vezes, datar uma certa obra é uma tarefa demasiado complicada. Por tal razão por “anteriores ou contemporâneos às Nuvens” vamos considerar todo o corpus da Comédia Antiga. No entanto, há uma longa tradição de comédia intelectual naquilo que se convencionou chamar de “comédia média”, e, dada sua riqueza, não podemos ignorá la; porém, é bastante difícil saber o que é um desenvolvimento independente das Nuvens.

Analisaremos os testemunhos e, à medida do possível, e onde for necessário, o ambiente das citações, para saber o objetivo dessas e se elas podem interferir ou não no nosso texto. Um exemplo: na comédia Os Aduladores de Êupolis, como já vimos, há algumas

referências a Sócrates, e se formos buscar as referências na obra de Kock, boa parte das citações vem dos próprios escoliastas a Aristófanes. Outras referências normalmente se esgotam em obras relacionadas a Sócrates: escólios às Memoráveis de Xenofonte, a biografia de Diógenes Laércio et alia.

Uma conclusão que se pode tirar a respeito disso é que é bastante improvável que Sócrates tenha sido nomeado em muito mais comédias do que as de que temos notícia, uma vez que as obras dedicadas à erudição de textos tão importantes quanto as comédias de Aristófanes, as Memoráveis de Xenofonte e os diálogos de Platão, falharam em assinalar a presença desses outros comentários.

Aliás, provavelmente a riqueza que temos de citações de Sócrates deve se justamente ao fato de ele ter sido um personagem cuja importância ganhou bastante volume para a história do pensamento grego, uma vez que todos estes fragmentos foram recolhidos justamente com o objetivo de demonstrar algo que o estudioso desejava destacar. Como esta passagem, num comentário às Memoráveis de Xenofonte:

Αὐτὸν μὲν τὸν Σωκράτην πτωχὸν ἀδολέσχην καλοῦντων τῶν κωμῳδιοποιῶν(…)

E os comediógrafos chamando o próprio Sócrates de um mendigo falador(,,,)

E segue a citação do fragmento 352 de Bergk. É uma citação interessante porque o escoliasta está claramente reforçando a nossa tese da repetição e aproveitamento de um estoque comum contra Sócrates. Já demonstramos no capítulo anterior que, pelo quadro geral que os fragmentos nos mostram, tal proposição é bastante provável. Cabe agora expandir a questão, considerando se tal tratamento é exclusivo de Sócrates ou ele pode ser aplicado a todo personagem intelectual (na falta de termo mais abrangente) que é escarnecido na Comédia Antiga.

Repetições de temas comuns em Aristófanes

Não é fácil definir qual tipo de pessoa Aristófanes escolhe para escárnio, uma vez que várias figuras públicas são representadas muitas vezes com características coincidentes. Já vimos como Eurípides e Sócrates costumavam ser identificados como pertencentes a uma categoria semelhante, ao ponto de Teleclides acusar Sócrates de escrever para Eurípides105.

Vamos ver brevemente dois exemplos de dois temas das Nuvens que se repetem em outras obras de Aristófanes.

Primeiramente uma passagem da primeira comédia que possuímos em sua integridade de Aristófanes: ΔΙΚΑΙΟΠΟΛΙΣ Ἔνδον ἔστ΄ Εὐριπίδης: ΘΕΡΑΠΩΝ Οὐκ ἔνδον ἔνδον ἐστίν, εἰ γνώμην ἔχεις. ΔΙ Πῶς ἔνδον, εἶτ’οὐκ ἔνδον: ΘΕ Ὀρθῶς, ὧ γέρον. Ὁ νοῦς μὲν ἔξω ξυλλέγων ἐπύλλια οὐκ ἔνδον, αὐτὸς δ’ἔνδον ἀναβάδην ποιεῖ τραγῳδίαν ΔΙ Ὧ τρισμακάρι’Εὐριπίδη, ὅθ’ὁ δοῦλος οὑτωσὶ σοφῶς ὑποκρίνεται

1 + ,: E dentro está Eurípides?

( : Mas dentro não é dentro, se tiveres imaginação : Como Dentro, e depois não dentro? : Certamente, ó velho O pensamento não está dentro,, está fora colhendo versinhos E ele mesmo, dentro, escreve uma tragédia de pernas para o ar : Ó três vezes bem aventurado Eurípides

Cujo escravo distingue tão sabiamente.

Tal passagem fornece um paralelo interessante com a entrada de Sócrates n’As

Nuvens, pois ambas apresentam o personagem com uma aura de inacessibilidade: Eurípides

não pode ser visitado sequer pelo seu escravo, Sócrates só pode ser conhecido depois de se ser de certo modo iniciado nos mistérios. Ambos também são representados com um refinamento do pensamento tão elevado que devem ser mantidos afastados das coisas da terra: no caso de Sócrates, seu próprio corpo não pode estar em contato com o chão, no caso de Eurípides seu pensamento migra para fora do corpo e da casa. No entanto, os objetivos são diferentes: n’Os

Acarnenses Eurípides está coletando termos exóticos e elevados para suas tragédias, n’As Nuvens, Sócrates tenta compreender os fenômenos meteorológicos.

Quanto a esse objetivo, temos um caso parecido na comédia As Aves:

Μέτων ἥκω παρ' ὑμᾶς Πισθέταιρος ἕτερον αὖ τουτὶ κακόν. τί δ' αὖ σὺ δράσων; τίς δ' ἰδέα βουλεύματος; τίς ἡ 'πίνοια, τίς ὁ κόθορνος τῆς ὁδοῦ; Μέτων γεωμετρῆσαι βούλομαι τὸν ἀέρα ὑμῖν διελεῖν τε κατδ γύας. Πισθέταιρος πρὸς τῶν θεῶν σὺ δ' εἶ τίς ἀνδρῶν; Μέτων ὅστις εἴμ' ἐγώ; Μέτων, ὃν οἶδεν Ἑλλδς χὠ Κολωνός. Πισθέταιρος εἰπέ μοι, ταυτὶ δέ σοι τί ἔστι; Μέτων κανόνες ἀέρος. αὐτίκα γδρ ἀήρ ἐστι τὴν ἰδέαν ὅλος κατδ πνιγέα μάλιστα. προσθεὶς οὖν ἐγὼ τὸν κανόν', ἄνωθεν τουτονὶ τὸν καμπύλον

ἐνθεὶς διαβήτην μανθάνεις; Πισθέταιρος οὐ μανθάνω. Μέτων ὀρθῷ μετρήσω κανόνι προστιθείς, ἵνα ὁ κύκλος γένηται σοι τετράγωνος κἀν μέσῳ ἀγορά, φέρουσαι δ' ὦσιν εἰς αὐτὴν ὁδοὶ ὀρθαὶ πρὸς αὐτὸ τὸ μέσον, ὥσπερ δ' ἀστέρος αὐτοῦ κυκλοτεροῦς ὄντος ὀρθαὶ πανταχῇ ἀκτῖνες ἀπολάμπωσιν.

4# Eu chego a vocês ' ,# # : Que outro mal é este? O que então vieste fazer? Que forma de desejo?

Que pensamento – que coturno! – do caminho? Me: Quero geometrizar o ar

E separá lo conforme os ângulos Pi: Pelos deuses Quem és dentre os homens? Me: quem eu sou? Méton, Que conhecem a Grécia e Colono. Pi: dize me Que é isto junto de ti? Me: Réguas do céu, Pois o céu é, em seu todo, em relação à forma, Como um forno. Então, colocando eu A régua acima desta curva aqui

E fixando o compasso, entendes? PI: Não entendo ME: vou medir com a régua reta, para

Que a curva torne para você um quatrado e para que no meio Haja uma ágora e as ruas que levam a ela

Sejam retas para o meio, como de uma estrela Que mesmo sendo circular, os raios brilham Retos de todos os lados.

A semelhança desta passagem com a mesma cena da entrada de Sócrates é bastante clara: ambos possuem um projeto científico bastante amplo que tenta abarcar esferas inteiras do conhecimento, ambos usam métodos e objetos tipicamente científicos, e o interesse das atividades de ambos para o homem comum é bastante reduzido.

Vemos que ambos os personagens, o poeta e o cientista, refletem algo da caracterização de Sócrates. Podemos dizer que, para o pensamento do tempo de Aristófanes, tanto o poeta quanto o cientista e o filósofo ocupavam um mesmo papel, que poderíamos chamar de intelectual, isto é, todas as figuras ligadas de alguma forma ao pensamento e que não estão ligados à manufatura ou qualquer forma de “trabalho” que produza um objeto concreto. Fica claro que em muitos casos as críticas e as características coincidem. Mas também podemos perceber que nem sempre pelo mesmo motivo.

Pois nem Eurípides tem uma fala que é incompreensível como a fala de Méton, nem este se comporta arrogantemente como Eurípides. No entanto, podemos perceber que ambos possuem características que podem ser aproximadas às de Sócrates, embora a relação entre Meton e Eurípides seja somente superficial. O motivo disso é que a figura de Sócrates apresenta um compósito de várias figuras, contendo tanto a arrogância do poeta e dos “refinados” quanto a obscuridade do cientista prático como o arquiteto Méton. Não

encontramos, em Aristófanes, outro personagem paralelo a Sócrates, salvo se considerarmos seus discípulos, Querefonte, o aluno sem nome e, ao final da comédia, Fidípides.

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