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Aspect technique

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CHAPITRE 4 DISCUSSION

4.1 Aspect technique

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Talita: E, falando agora sobre a obra Uma vista, houve algum estudo técnico sobre a perspectiva que é utilizada nesta instalação, que foi realizada por artistas ou pensadores anteriores, arquitetos, pintores, escultores e que influenciou a construção desta instalação?

Talita: Você teve alguma referência de...

Cássio: Sim. Sim. É uma coisa assim também muito básica, tipo ilusão de ótica. Por exemplo: se você pegar uma fotografia com uma imagem e dividi-la em dois, se eu fizer assim [gesto com as mãos] e fechar o olho, a que está mais longe vai ficar menor. Se, no entanto, eu ampliar essa imagem que está mais distante — estou a certa distância que mesmo elas separadas —, eu com uma visão monocular, eu vou conseguir uni-las. Vai voltar a ser uma imagem só. Entendeu? Isso é meio básico. Não tem segredo nenhum. É uma ilusão de ótica que é muito utilizada hoje em dia, por exemplo, em fotos de viagem. A pessoa faz assim [gesto com as mãos], segurando lá atrás a Torre de Pisa, ou fica fingindo que está segurando [gesto com as mãos] a Torre de Pisa e a Torre de Pisa está lá atrás. É uma ilusão de ótica que tende você juntar planos diferentes num plano só. E, então, eu parti desse princípio e pensei numa imagem que eu fosse fragmentar — fazer de novo, que nem o

Coletivo. Ah, vai desfragmentar em quatro pedaços, oito, e ter o mesmo efeito? A

princípio? Não. Tem que ir ao extremo. Exagerar. Fragmentando muito. Um absurdo. Sessenta e sete foi super complexo. Extremamente complicado de ter feito fisicamente este trabalho assim de matemática, Renato Curi que me ajudou e então teve esta preocupação de ter vários planos. Não só dois. Essa imagem foi dividida em cinco planos, sessenta e sete fragmentos. E aí eu também jogava muito para o primeiro plano e o último plano. Porque é o seguinte: eu fiz uma foto com um grande

angular, eu queria exagerar os planos. Grande angular exagera. Ela segue um primeiro plano — fica muito grande — e o que “tá” lá longe, no infinito, fica muito pequenininho. Você trabalha com imagens, você sabe: se eu fizesse com uma teleobjetiva, eu ia achatar todo mundo num mesmo plano. Então eu usei propositadamente uma grande angular para realçar a diferença desses planos. Procurei uma locação que exagerasse isso também. Por isso que eu fui no metrô. Porque no metrô, o Brás, que tinha que ser na Zona Leste, tinha o trem, cada vagão passando do meu lado [gesto com as mãos] — assim, muito próximo — eu tinha várias vistas: tem prédios do bairro, e até lá no fundo, prédios do centro da cidade. Então eu tinha um campo de visão ali de uns vinte quilômetros de profundidade. Desde [gesto com as mãos] alguns centímetros próximos de mim. Então, a imagem foi muito pensada pra servir no que eu queria fazer depois. Eu não peguei qualquer foto. Foi muito, muito, muito pensada. Eu fiz uma pesquisa grande nesse lugar. E aí, eu fiz o seguinte: quando eu tinha, num espaço físico, primeiro plano, eu procurei por que ele estava em último plano na imagem e vice-versa. Então o vagão do metrô que estava no primeiro plano onde eu fotografei, eu pus lá no último plano. Lá longe. Eu inverti. Porque eu queria...

Talita: Você pode falar um pouquinho mais algo por causa da... [música ao fundo]

Cássio: Mais alto? “Tá”...

Cássio: Eu queria, assim, essa ilusão de ótica, de juntar todas as imagens, que ainda tivesse esse jogo para confundir mais ainda as pessoas. Agora, tem uma coisa maravilhosa no olho humano, que eu não sabia, porque esse trabalho... eu só tive certeza de que ele deu certo quando ele estava pronto. Eu não tinha como testar ele total...

Talita: Até então era uma projeção...

Cássio: Era uma projeção. Eu fazia alguns exercícios. Pegava um pedaço aqui, fazia uns treinos assim [gesto com as mãos], uns testes e me parecia que ia funcionar. Mas eu só soube, de fato, no final. E o incrível, que é o seguinte:

eu imaginava que, quando a pessoa chegasse num ponto certo quando todos esses planos, todas essas fotos se juntam, eu fiquei com receio que o olho humano fosse trabalhar que nem uma câmara de auto focus, que perde o foco. Você vai chegar lá e o foco do olho ia ficar ziii-ziii-ziii-ziii [gesto com as mãos, imitando o ajuste automático do sensor de foco de uma câmera fotográfica] e a pessoa ia ficar perdida.

Talita: Movimentando toda hora.

Cássio: E nada disso aconteceu. O olho, o cérebro, junta instantaneamente todos esses sessenta e sete fragmentos expostos em cinco planos diferentes instantaneamente na hora que você fecha o olho. Tem uma magia nisso. É muito bacana. Tanto é que é que todo mundo quando via esse trabalho ali, chegava no ponto certo e fechava um olho, tinha um negócio [gesto com as mãos]. Ficava super contente porque esse trabalho... você o tempo inteiro vê essas fotos soltas no espaço e o ponto que junta é milimétrico. Não é por aqui, por aqui [gesto com as mãos]. Não. É muito, muito... É um ponto. Não é um ponto deste tamanho [gesto com as mãos indicando um ponto extenso]. É um ponto do tamanho de uma...

Talita: Nossa, que interessante!

Cássio: [É um ponto do tamanho de uma] cabeça de agulha. É um ponto [gesto com as mãos]. Você tem que por a pupila [gesto com as mãos] naquele ponto [ponto virtual de visualização]. Não pode ser um pouquinho aqui para a frente, nem um pouquinho para a direita. Tem que ter uma precisão no lugar que a pessoa fica e na montagem.

Talita: E teve uma altura média...

Cássio: “Foi” vinte dias para montar isso aí para uma precisão.

Cássio: Mas acontecia a mágica! Foi muito legal. E tem também o fato que cada fragmento dessa imagem, eu não queria que fosse um borrão. Porque, senão, o espectador ia entrar na sala de exposição e ia ver um monte de borrão. E ele só iria ver a imagem quando visse o todo.

Talita: Sim.

Cássio: Então eu usei uma câmera de grande formato, um filme caríssimo — é o mesmo filme que a NASA usava para fazer fotos de satélite —,

Technical Pan, o filme que tem a maior definição do mundo. Feito na câmera de grande formato. Então o que aconteceu: coisinhas que estavam lá longe, super pequenininhas, pedacinho assim do negativo [gesto com as mãos], eu ampliava, vinha perfeito. Então, todo mundo que via as fotografias, achava que aquilo, aquele fragmento, era uma foto. Tamanha a qualidade que tinha. Não era um borrão de um negativo de 35x5 [mm] que você amplia, não era. Todas essas questões que eu estou falando agora foi tudo super pensado (tá?) pra chegar num resultado. E eu queria também que conseguisse só nesse lugar — depois que este trabalho fosse exposto de novo, mas nunca mais foi, porque houve várias outras razões. Mas eu queria que ele parecesse que estivesse flutuando no espaço. Então foram presos com cabos super finos e...

Talita: Não era náilon. Era...

Cássio: [Era] cabo de aço...

Talita: Cabinho de aço...

Cássio: Com cabos de aço, mas tinha uma iluminação, uma para cada uma. Então, era uma luz direcionada, uma para cada foto, e, ao mesmo tempo que ela era direcionada, era suave. Uma iluminação maravilhosa! A pessoa entrava na sala escura, não via de onde estava vindo a luz e via tudo isso flutuando no espaço.

Cássio: E aí, assim: nos cinco planos, as pessoas podiam passar por entre os planos. O que era o mais legal, porque se eu limitasse — ninguém passar entre as fotos — não teria essa intenção. Porque o que acontece é o seguinte: a ideia inicial com este trabalho era fragmentar [a fotografia panorâmica] porque é como a gente vê a cidade. A gente vê a cidade fragmentada. A cidade grande, como São Paulo, você nunca consegue ver o todo. É sempre pedaços. E até porque não tem horizontes. Porque só tem prédios. Então você só vê...

Talita: Verticais.

Cássio: ... A vida inteira vendo pedaços da cidade. Por isso que é fragmentado.

II. Transcrição da segunda entrevista realizada com o artista Cássio

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