4.10 )njection d’acide hyaluronique :
4.10.1. Aspect Médicolégal :
Há inúmeras conexões entre a etnografia calon e os exemplos etnográficos ciganos, mediterrâneos e indianos descritos neste capítulo. Dessa comparação é possível pontuar questões fundamentais que aparecerão de forma disseminada em toda a tese. Meu argumento é que a noção de vergonha calon é chave para entender a
conceitualização do gadje. Farei aqui uma análise mais geral do uso da noção de vergonha calon, sem me deter nos contextos em que aparece, deixando que estes surjam nas descrições ao longo dos capítulos. Nesse sentido, a reflexão a seguir tem o intuito de introduzir os problemas que surgem no contexto etnográfico com respeito à noção de vergonha.
Vergonha brasileira, vergonha calon
Entre os Calon, a vergonha aparece como valor e como sentimento. Há um uso ambíguo do termo: é positivo quando se fala da “vergonha cigana”, da “nossa vergonha”, ou quando se diz “eu tenho vergonha”, “fico com vergonha”, ou “fulano está envergonhado”; mas ganha um caráter negativo quando se referem a situações que põem a moralidade deles em perigo. Assim, o sangue menstrual “é vergonha”; falar de determinados assuntos “é vergonha”; comportar-se de maneira inadequada “é vergonha”: “Passa vergonha nos pais”, ou ainda “envergonha alguém”. É preciso diferenciar as múltiplas acepções que o termo “vergonha” admite. De início, devemos considerar os sentidos dados pelo verbete em dicionário de língua portuguesa, e de uso corrente no Brasil:
1) desonra que ultraja, humilha; opróbio; 2) o sentimento causado por esse ultraje, humilhação; 3) sentimento penoso causado pela inferioridade, indecência ou indignidade; 4) sentimento de insegurança causado por medo do ridículo e do julgamento dos outros; timidez, acanhamento, recato, decoro; 5) sentimento ou consciência da própria honra, dignidade, honestidade, brio; 6) qualquer atitude ou ato indecoroso, desonesto, vexatório; 7) coisa ou situação vergonhosa; 8. ANGIOS m.q.
dormideira [...];9) no plural (vergonhas) órgãos sexuais. (Houaiss 2001)
Com exceção das acepções 8 (nome de planta) e 9, cujo uso não me lembro de ter testemunhado, esses sentidos “brasileiros” são largamente empregados pelos Calon. Analisando-os podemos distinguir três campos semânticos: a quebra de um código moral (1, 6); os sentimentos causado por essa inadequação (2, 3, 4 e 5) e coisas ou
situações que põem o código em risco (7). Quando os Calon dizem que “estão envergonhados”, que “têm vergonha”, ou que tal atitude “é uma vergonha” podemos identificar um uso gramatical similar às formulações brasileiras dadas pelo dicionário. Dessas acepções eu destacaria ainda o fato de quatro delas referirem-se a um
sentimento produzido por uma circunstância social. A ideia da desonra, humilhação causa tanto um sentimento “antecipado”, de timidez e decoro por “medo” de ser humilhado, como o próprio sentimento de humilhação. O sentimento de vergonha, nesse sentido, é onipresente, e deve ser entendido nos termos da oposição que Ruth Benedict (op. cit.) faz com o sentimento de culpa: o primeiro enfatizado pelas sanções externas, a opinião pública, e o segundo pela interiorização da convicção do pecado. Entre os Calon, a vergonha constitui um sentimento para e (provocado) pelo público. A emoção desempenha, como veremos, um papel de grande importância na vida social calon.42
Mas entre os Calon “vergonha” guarda ainda um sentido não dicionarizado. A
aparente sinonímia encobre diferenças significativas.43 Em primeiro lugar, no que diz
respeito a o que os Calon acham de fato ser causa de vergonha. É claro que o que é considerado “vergonha” varia enormemente em diferentes contextos sociais dos
falantes do português.44 Mas, feita essa ressalva, posso afirmar que grosso modo há
muito pouco em comum entre a moralidade Calon e a moralidade brasileira.45 Isto é,
os contextos em que se exclama, com indignação, “é uma vergonha!!” são muito diferentes, e não raro causam estranhamento ao gadje. Isto ocorre porque, por trás do uso calon da palavra “vergonha”, toda uma cosmologia, uma forma de pensar o mundo, está em funcionamento. As etnografias ciganas nos ajudam a compreender
42 Para a discussão sobre o papel da emoção na relacionalidade calon, ver cap. 5.
43 O problema é similar ao levantado por Judith Okely (1984: 5) e já citado no cap. 1, acerca das dificuldades de fazer “antropologia em casa”, que implica desvendar o sentido nativo de palavras de uso comum.
44 Refiro-me a diferenças de classe, nível econômico, procedência cultural etc.
45 Entendo como “moralidade brasileira” aquilo que os Calon percebem em contraste com sua moralidade. Por exemplo, o uso de calças jeans ou de biquíni define determinado “tipo” de moralidade que engloba os brasileiros de um modo geral, já que estes não consideram “vergonha” mostrar o baixo-ventre. Quero frisar que não se pressupõe uma totalização de nenhum dos dois lados. A moralidade não configura uma “unidade”, antes, é segmentar, dependendo da situação e dos sujeitos de enunciação.
um sistema que se desvenda muito lentamente em campo. Uma pista para reconhecer esse deslizamento de sentido é a fórmula “minha vergonha”, “nossa vergonha”, empregada pelos Calon e que faz pouco ou nenhum sentido para os gadje, já que admite um uso gramatical do vocábulo acompanhado de um pronome possessivo que parece ser exclusivo aos Calon, não dicionarizado: vergonha é concebida como um “bem”, que é possível “ter” ou “não ter”, e cuja posse gera valor. Mas não se
confunda esse bem com uma “propriedade”, ou substância. À diferença dos exemplos etnográficos mediterrâneos (cf., p. ex., Campbell 1964: 271, loc.cit.), entre os Calon a vergonha não se herda, mas antes, sua “produção” depende de ações apropriadas no presente. A noção de “vergonha” motiva uma série de práticas que estão ligadas à construção da pessoa Calon.
A ideia da vergonha como resultado da ação se assemelha ao que Abu-Lughod (1986) e Dubisch (1995) chamam de “atos voluntários” e “performances”, respectivamente. Como vimos anteriormente, as autoras buscam dar significado e atribuir agência à “vergonha” no contexto mediterrâneo, interpretada (segundo elas erroneamente por antropólogos do gênero masculino) como contrapartida “passiva” feminina à “honra ativa” masculina. A crítica apresenta o problema e a relevância do gênero nessas pesquisas, buscando conhecê-lo “de dentro”, em vez de transpor noções extrínsecas, como dominação e opressão. Com efeito, não se pode compreender o que é a
calonidade se não se considera a performance realizada por homens e mulheres, ou seja, uma performance “genderizada” no sentido dado por Marilyn Strathern, em que “a masculinidade e a feminilidade são corporificadas nos indivíduos como uma dimensão de sua experiência” ([1988] 2006: 101). É preciso notar o componente emocional que essa experiência implica. Entre os Calon não existe uma disjunção entre o conceito de honra e o conceito de vergonha; honra e vergonha estão, por assim dizer, do mesmo lado da moeda. Quando se exibe o lençol manchado de uma moça após a sua noite de núpcias, os Calon dizem provar “a sua honra”, “a pureza da moça”; do contrário, se a menina tem relação antes do casamento, ela “passa vergonha nos pais”. Honra e vergonha se aplicam igualmente a homens e mulheres, embora possamos dizer que o termo mais corrente é “vergonha” e que ele se
manifesta assimetricamente nas condutas de homens e mulheres calon.
Como mostraram amplamente as etnografias ciganas apresentadas no início deste capítulo, e que encontram ressonância entre os Calon, o corpo feminino é o principal
objeto de preocupação e controle. A incapacidade de a mulher manter as partes impuras do corpo (o baixo-ventre) separadas das partes puras (cabeça, tronco), e de se comportar apropriadamente como calin, causa vergonha para si mesma e para os
homens de sua família, notadamente o marido, o pai, os irmãos e o sogro dela.46
Como em outras etnografias, também aqui o corpo é emblemático de um sistema mais amplo que engloba toda a vida social. O termo laje, “vergonha” em chibi, é
compartilhado com a maior parte das etnografias ciganas acima mencionadas, e é similarmente associado a noções de sujeira, que não podem ser reduzidas ao sentido higiênico que o gadje gostaria de lhe impor. Embora o termo marime esteja ausente do vocabulário calon, a noção de poluição, como uma dimensão do sagrado, parece em pleno funcionamento. A oposição entre o interior e exterior do corpo feminino ganha validade para pensar o interior e o exterior da barraca e do acampamento. Nesse contexto mais amplo é que faz sentido a expressão “nossa vergonha” dos Calon. Em uma conversa gravada sobre vocabulário chibi, em que perguntávamos o
correspondente de palavras em português,47 um calon de meia-idade respondeu:
Vergonha? É Laje. Não se pode fazer besteira. É isso, na nossa linguagem. Porque a vergonha nossa nem o São Paulo todo num paga! [Luciana pergunta: como assim?] Você troca sua vergonha por São Paulo todo? Não pode, não é mesmo? É o valor nosso. É o valor da pessoa. Não é mesmo? Eu tenho valor pra você, você tem valor pra mim. Tem responsabilidade, é tão bom..., a vergonha, o bom caráter da pessoa, o bom procedimento da pessoa, a bondade da pessoa.
A fala do calon remete diretamente ao campo das relações com os gadjes. Se no contexto do corpo feminino a vergonha opera num sentido literal, referenciado fisicamente ao sangue menstrual, no contexto social mais amplo ela opera num sentido figurado, metonímico, representando a calonidade. Eis ao menos o que parece querer dizer a oposição entre o “valor nosso” e o “valor de São Paulo todo”, isto é, o
46 O capítulo 4 oferece uma minuciosa descrição das práticas que constituem “o bom comportamento” de uma calin.
47 Com a ideia de fazer uma análise linguística do chibi, produzi uma lista de palavras em português que ouvi regularmente faladas entre os Calon em chibi. Luciana foi com a câmera ao acampamento e pediu a diferentes pessoas que dessem a tradução das palavras. Assim, uma lista gravada serviu para análise fonética, mas também despertou explicações e discussões sobre significados. (Ver cap. 5.)
(não-)valor dos gadjes. Como em outras etnografias ciganas, a “vergonha” (ou honra ou pureza) diferencia os ciganos dos gadjes. Os Calon têm vergonha, enquanto os gadjes não têm. A falta de vergonha de uns (em especial os gadjes) em suas práticas diárias “enchem” os Calon de vergonha. É na relação com o gadje “desavisado” que a vergonha calon se torna perceptível. A vergonha demonstra, desse modo, uma
natureza “relacional”, cuja grandeza varia e depende da relação com o outro: se a vergonha fosse igualmente distribuída, ela não seria um valor.
A vergonha e o não
No Mediterrâneo esse valor diferencia status no interior do sistema. Os autores citados mencionam a implicação mútua entre o sistema moral e a hierarquia social nessas populações (ver supra, “moralidade e hierarquia”). Nesse aspecto, o sistema é similar ao modelo de Dumont sobre a Índia clássica, em que a oposição do
puro/impuro é o princípio da hierarquia, entendida como englobamento do contrário. Mas no caso da vergonha calon, sua relação com o gadje é bastante sui generis: é preciso que a “cosmologia da vergonha”, produzida na relação com o gadje, permaneça ignorada por estes para que se constitua como modo diferenciante. Retomando a questão suscitada anteriormente: o que ocorre quando o princípio da oposição puro/impuro é extraído de uma estrutura hierárquica? A relação de puro/impuro passa da oposição entre superior/inferior para a entre interior/exterior, com a peculiaridade de que o exterior está “fora” do sistema cosmológico – os gadjes não compartilham os mesmos valores. Se o gadje não compartilha os mesmos valores, suas ações não são julgadas como mais ou menos vergonhosas numa escala de valores sociais, mas simplesmente como negação: o oposto da vergonha é a “não vergonha”, um não valor. O que quer que o gadje seja, ele é percebido como “não valor”, ao qual é preciso se opor. Nesse sentido, “vergonha” ganha similitude com a noção de tabu, tal como ela é elaborada pelo antropólogo Valério Valeri. O autor extrai de sua etnografia entre os Huaulu, caçadores da Indonésia, uma teoria da “negação” a partir
da categoria nativa maqwoli, que ele traduz por “tabu”48. Tabu se traduz no “não
fazer”. E Valeri faz uma instigante interrogação sobre o que faz esse “não fazer”:
48 Valeri define tabu como o índice dos perigos a que se está sujeito ao entrar em contato com determinadas coisas ou pessoas, dotadas de um poder intrínseco.
O que se alcança ou o que se faz possível então com a preponderância da negação? É aparentemente uma autodefinição por contraste (com outra pessoa, ou categoria de pessoa, ou outra comunidade toda), que pode existir mais facilmente por negação ao que todos os outros fazem, por uma enumeração de tabus mais do que por um conjunto desapercebido ou semiconsciente de práticas positivas. ([1998] 2000: 411)
A questão remete a um problema antigo, estabelecido por Lévi-Strauss. A vergonha, apesar de ter um “núcleo duro”, cuja referência é o corpo feminino, parece atuar como uma daquelas noções que Lévi-Strauss chama de “tipo zero”, expressão emprestada da formulação dada pelos linguistas sobre o fonema:
“[…] o fonema zero tem por função própria opor-se à ausência de fonema” (Jakobson & Lotz 1949: 155). Poder-se-ia dizer paralelamente, esquematizando a concepção que foi aqui proposta, que a função das noções do tipo mana é opor-se à ausência de significação, sem comportar por si mesma nenhuma significação particular. (Lévi- Strauss 1950: 43-44, grifos meus.)
Se a hipótese aventada por Lévi-Strauss tiver mesmo algo a nos dizer sobre a noção de vergonha calon, então será preciso descrever esta última, considerando a
possibilidade de que ela, como o mana, “não tenha nenhuma propriedade intrínseca, exceto a de introduzir as condições prévias de existência de um sistema social a que pertencem, e ao qual sua presença – em si mesma desprovida de significado – permite se colocar como totalidade” (Lévi-Strauss [1956] 2008: 175). “Vergonha” é puro potencial de negação, ela pode ser tudo aquilo que se permitir diferenciar do gadje. Essa hipótese nos coloca na confortável posição de descrever a cosmologia calon – baseada na noção de vergonha –, considerando-a ela própria, a cosmologia, de
natureza “relacional”, e abrindo mão de qualquer ideia de ciganidade como algo dado a priori. Esse é um ponto de partida importante para a abordagem heurística que nos propomos.