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A investigação desta subcategoria foi realizada a partir da seguinte pergunta: “Como você se vê enquanto professor universitário?”. Encontramos, nas respostas, o conteúdo relacionado a: satisfeito e realizado em ser professor. Como vemos, essa satisfação está relacionada com a identificação com docência universitária, e a oportunidade proporcionada pela sua profissão de formar futuros profissionais.

Olha, eu me vejo como realizado, mas não pronto. Mas eu posso olhar pra trás com satisfação, eu não tenho arrependimento de ter feito a escolha e gosto do que faço. E a sala de aula não é alguma coisa sem prazer pra mim, pra mim é um bom encontro e isso pra mim é satisfatório, é pleno. (P5-C).

Eu fico emocionado em ser professor e como eu me vejo é um negócio difícil de se explicar. Por exemplo, a sua pesquisa, onde os alunos me veem como um “bom professor”, assim, eu não tenho aspiração nenhuma de ser. Eu procuro fazer o meu trabalho, o meu papel, vou ficar muito feliz se os estudantes aprenderem. Eu venho aqui para transmitir pros estudantes o que eu sei. Porque ser professor pra mim é uma coisa tão sublime! Sabe o que o ser humano tem de mais sublime?! É o conhecimento e esse conhecimento eu adquiri no dia a dia, com a experiência, estudando, eu estudo direto, sempre, sempre me atualizando, o que tem de mais novo eu procuro trazer pros alunos. (P1-E).

Os resultados obtidos pela nossa amostra apresentam uma certa similaridade com a pesquisa apresentada por Cunha (2013), pois os participantes da presente pesquisa também se identificam com a profissão e têm prazer em exercer a docência. Um dos aspectos que mais contribui para esse prazer, segundo os docentes entrevistados, é a possibilidade de encontrar com os estudantes e participar do processo de ensino e aprendizagem deles. Assim, o convívio com os estudantes é algo que instiga e anima os professores universitários no sentido de que os mesmos se emocionam, quando lembram que também são responsáveis pela formação de futuros profissionais.

O convívio com os estudantes é visto pelo professor universitário que representa nossa amostra como uma oportunidade de se atualizar, pois é visto como passibilidade de renovação e atualização dos conhecimentos necessários para o desempenho da profissão em formação. Assim, podemos inferir que os professores se percebem como articuladores do processo de aprendizagem dos estudantes universitários.

Apoiamos nossa discussão nas ideias de Nóvoa (2009), Gatti (1996) e Cunha (2013) para quem a dimensão pessoal do professor universitário é algo esquecido no exercício de docência. Assim, os autores citados acima criticam as pesquisas que não

consideram o que a profissional é, sente, ou vive, bem como as expectativas criadas ao longo do seu trabalho. Ademais, criticam as pesquisas que tratam esses fatores como irrelevantes.

Entretanto, acreditamos que a forma de o professor aproximar-se do estudante e a pessoa que demonstra ser podem influenciar positiva ou negativamente no relacionamento com estudante em sala de aula e no processo de ensino e aprendizagem. (NÓVOA, 2009; GATTI, 1996; CUNHA, 2013).

Como já registramos, gostaríamos de resgatar a dimensão pessoal do professor universitário e, para tanto, acreditamos que os vínculos formados com a universidade, com os outros professores e os estudantes são importantes elementos que caminham para uma dimensão afetiva e podem estar associados à satisfação pessoal.

Os docentes que participaram da nossa amostra se veem como satisfeitos e realizados em ser professor. Essa constatação nos remete a Zabalza (2004), para quem quanto maior for a satisfação em realizar as tarefas relacionadas à docência melhor será a participação dos professores nas atividades relacionadas à universidade. Esse autor também acredita que os docentes terão mais prazer em aprimorar a qualidade dos processos formativos desenvolvidos pelo ensino universitário e diz que, como a universidade é uma instituição com um forte predomínio do aspecto individual, é importante que esse espaço proporcione momentos e estimule interesses que favoreçam a satisfação pessoal do docente para que seu trabalho seja desenvolvido com qualidade.

Para Zabalza (2004), a satisfação pessoal em realizar o trabalho docente pode estar associada à melhor estratégia utilizada nas relações que os sujeitos mantêm com seu trabalho. As estratégias desenvolvidas pelos docentes lembradas como possíveis causas para a satisfação são as seguintes:

 a construção de uma autonomia pessoal, principalmente relacionada às decisões que precisam ser tomadas;

 o desenvolvimento de novas habilidades no seu trabalho;

 a criação de expectativas do ponto de vista pessoal em nível profissional;  o reconhecimento de seu trabalho;

 a responsabilidade com seu trabalho, comportando-se de maneira adequada no ambiente profissional.

Podemos inferir, a partir dos depoimentos dos participantes, que o item a criação de expectativas do ponto de vista pessoal em nível profissional (ZABALZA, 2004) foi lembrado pelos “bons professores” universitários quando se referiam ao olhar que possuem sobre si mesmos enquanto professores universitários. As respostas giram em torno da emoção e gratificação em contribuir com a formação dos futuros profissionais e como eles se sentem felizes em dar sentido à aprendizagem dos estudantes. Para os participantes, ensinar não é visto como algo “maçante” ou uma exigência da universidade que precisa ser cumprida, mas como um momento de troca de experiências e principalmente de renovação pessoal adquirida no contato com os estudantes.

Também há referências ao item desenvolvimento de novas habilidades no seu trabalho (ZABALZA, 2004) nas falas dos docentes participantes de nossa pesquisa, quando fazem menção à difícil adaptação à profissão docente e às tentativas para a construção de uma identidade docente, marcadas por erros e acertos na prática docente. Esses momentos, contudo, influenciaram na construção do ser professor universitário.

Ademais, inferimos, quando da análise de nossa amostra, que o “bom professor” universitário compreende o processo educativo a partir do reconhecimento do “outro” como legítimo (esse “outro” é o aluno). Os participantes entendem que o professor é responsável por acolher, oferecer ajuda para que o estudante sinta segurança no processo que envolve a construção do novo conhecimento.

Então, as novas habilidades que os professores constroem a partir das experiências ao longo do seu trabalho são compreendidas, aqui, como a conquista, pelo professor, de um olhar mais sensível e acolhedor em relação a seus estudantes.

Já quanto ao item o reconhecimento de seu trabalho (ZABALZA, 2004), percebemos que isso é motivo de orgulho para o “bom professor” universitário, como podemos constatar no seguinte recorte de fala:

Eu tenho muito orgulho do que faço. E eu me sinto muito bem quando as pessoas me chamam de professora. Eu sou muito vaidosa nesse sentido, sabe? Saber que as pessoas estão me reconhecendo como uma pessoa capaz de contribuir para sua formação. (P7-P).

Essas reflexões nos remetem a Nóvoa (2009) e Gatti (1996), para quem os diferentes níveis institucionais de tomada de decisões na universidade deveriam considerar mais os aspectos voltados ao professor como pessoa e valorizar e reconhecer a docência universitária, além de estimular as expectativas em torno do ensino, da aprendizagem e da didática.

Esses autores também acreditam que o sentimento de pertença à profissão docente bem como o sentido e significado que os professores atribuem à docência poderão promover bem-estar no exercício das tarefas educacionais na universidade. Neste estudo, a identidade profissional do “bom professor” universitário se revelou como satisfeito e realizado em ser professor.

4.3.3 O olhar dos estudantes na percepção do docente sobre ser professor

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