PREsTATiONs sPéCiALEs
ARTICLES DE JOURNAUX ET COMMUNIQUÉS DE PRESSE
O trabalho foi desenvolvido por meio de pesquisa qualitativa e quantitativa, a partir do emprego de entrevista de profundidade, aplicação de questionários, bem como de outros recursos mencionados (anotações, gravação e transcrição das entrevistas). O rigor científico a que se refere e se ampara está pautado nas entrevistas gravadas em áudio e vídeo, que podem vir a ser consultadas a qualquer tempo a fim de ratificar a fidedignidade dos dados.
Foram propostos os temas como categorias de análise, bem como a formulação de hipóteses interpretativas dos dados gerados a fim de chegar-se às representações dos sujeitos acerca da velhice, porquanto estes são instrumentos metodológicos aconselháveis para o trabalho com a TRS, embora não tenha sido esta a única teoria com a qual se trabalha. Pois, emprega-se a AC (BARDIN, 2010, 2012) como procedimento metodológico de análise dos dados gerados na presente pesquisa.
Analisaou-se, ainda, algumas anotações do momento em que as entrevistas foram executadas, bem como de fatos ocorridos durante o convívio com as idosas (um ano em residindo na referida casa de repouso), pois já havia sido percebido que estas divagavam bastante quando expunham sobre um determinado assunto, procurando em suas memórias, datas, nomes de pessoas, de lugares constantes dos fatos relatados; e isso nos fez considerar que as anotações também poderiam ser úteis para a identificação de suas representações.
Esta pesquisa foi embasada na Análise de Conteúdo, com Bardin (2012) em função de esta adequar-se de forma satisfatória aos estudos em representações com base em Moscovici (2009).
Bardin (2012, p.49) distingue o objeto de estudo da Linguística e da Análise de Conteúdo defendendo, embora aparentemente, a linguística e a análise de conteúdo tenham o mesmo objeto de estudo, isso não corresponde à verdade, uma vez que:
O objeto da linguística é a língua, quer dizer, o aspecto coletivo e virtual da linguagem, enquanto que o da análise de conteúdo é a fala, isto é, o aspecto individual e atual (em ato) da linguagem. [...] O seu papel resume-se, independentemente do sentido deixado à semântica, à descrição das regras de funcionamento da língua, para além das variações individuais ou sociais tratadas pela psicolinguística. Pelo contrário, a análise de conteúdo trabalha a fala, quer dizer, a prática da língua realizada por emissores identificáveis.
A autora adverte que as diferentes fases da análise de conteúdo ou experimentação organizam-se em torno de três polos cronológicos: a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação.
De acordo com Bardin (2012), a pré-análise é a fase de organização propriamente dita. Geralmente, nesta primeira fase, o analista deve buscar cumprir os seguintes objetivos: i) proceder à escolha dos documentos que serão submetidos à análise; ii) sistematizar suas hipóteses e objetivos iniciais e iii) elaborar os indicadores que fundamentarão sua interpretação final. A sistematização desses três fatores não obedece, necessariamente, a uma ordem cronológica, mas configura-se como um norte metodológico para o pesquisador.
Bardin (2012, p.126-130) determina que de acordo com o cumprimento dos objetivos supramencionados devem ser levadas em conta algumas atividades que devem ser realizadas pelo analista, a saber:
a) A leitura flutuante - consiste nos primeiros contatos do analista com os documentos que compõem seu corpus de análise, a fim de conhecer-se melhor o texto e tomar notas das suas impressões.
b) A escolha dos documentos - o analista deverá observar as seguintes regras na seleção do corpus de análise: i). Regra da exaustividade – todos os critérios de coleta previamente estabelecidos devem ser rigorosamente observados e anotados; ii). Regra da representatividade – deve-se efetuar uma amostragem representativa do universo inicial. Os resultados obtidos serão generalizados ao todo; iii). Regra da homogeneidade – por esta regra, os documentos selecionados devem ser homogêneos, isto é, devem obedecer a critérios precisos de escolha, sem que apresentem demasiada singularidade não prevista nos critérios de seleção; iv. Regra de pertinência – consiste na observância da adequação de todos os documentos do corpus ao tema pesquisado.
c) formulação das hipóteses e dos objetivos – a formulação das hipóteses e objetivos constará de perguntas ou problemas levantados à priori e que dependerão da análise para confirmação ou negação;
d) a referenciação dos índices e a elaboração dos indicadores;
e) a preparação do material – o material deverá ser totalmente preparado antes de ser submetido à análise. Dessa forma, se o corpus compõe-se de entrevistas gravadas, estas deverão ser transcritas na íntegra. Nesse momento, é aconselhável a retirada
de cópias e a numeração de fichas entre outros procedimentos organizacionais que zelem pelo rigor da pesquisa.
Vale ressaltar de acordo com Sá (1998, p.86), que é habitual e adequado associar-se a coleta de dados através de entrevistas individuais com a “análise de conteúdo” para seu tratamento. Isso foi corroborado na elaboração do Estado da Arte para esta pesquisa.
Há ainda a segunda fase da AC, que se configura exploração do material – uma etapa mais simples, conforme Bardin (2012, p.131), “se as operações da pré-análise forem convenientemente concluídas”, a fase denominada análise será simplesmente “a aplicação sistemática das decisões tomadas”. A terceira fase é denominada tratamento dos resultados obtidos e interpretação, fase em que os resultados devem ser submetidos a provas e testes de validação.
Desse modo, Bardin (2012, p.132) defende que:
[...] os resultados obtidos, a confrontação sistemática com o material e o tipo de inferências alcançadas podem servir de base a outra análise disposta em torno de novas dimensões teóricas, ou praticadas graças a técnicas diferentes”.
Para elucidar o desenvolvimento metodológico que se adotou para o desenvolvimento desta pesquisa, apresenta-se o quadro de Bardin (2012, p.132) que sintetiza os objetivos e os procedimentos em cada uma de suas etapas da análise de conteúdo que não se segue à risca, mas nos serviu de roteiro metodológico no momento da tomada de decisões sobre que dados considerar e prescindir, visto que a citada análise não está totalmente vinculada à Análise de Conteúdo, embora a siga em alguns pontos de nossas análises, por exemplo, nos quadros temáticos das entrevistas, no capítulo 4.
A seguir, o Gráfico 02, de Bardin (2012), síntese da proposta metodológica da AC,
empregado nos procedimentos de análises dos dados, no que concerne à tomada de decisões nessa fase, sem prescindir do rigor científico, compreendendo as fases metodológicas e analíticas inerentes à pesquisa.
Gráfico 02 – Síntese da Proposta Metodológica
Fonte: Bardin (2012, p.132)
Considera-se relevante também focar-se no que Bardin (2012, p.133) define, com relação ao texto, como codificação, que compreende uma transformação dos dados brutos do texto, que deve ser feita seguindo regras precisas, ou explicitada também pela autora com base em O. R. Holsti (1978) como “processo pelo qual os dados brutos são transformados em sistematicamente e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição exata das características do conteúdo”.
A definição de Bardin (2012) e O. R. Holsti (1978) e as fases inerentes à organização da codificação, que segundo a autora, são relevantes, apresenta três escolhas ao pesquisador em se tratando de uma análise quantitativa e categorial: a) o recorte: escolha das unidades; b) a enumeração: escolha das regras de contagem; e a c) classificação e a agregação: escolha das categorias.
Considera-se relevante, ainda atentar para outro ponto definido pela autora também referente ao texto e aos objetivos da análise que se pretende desenvolver, que é a compreensão acerca da unidade de registro, compreendida como unidade de significação codificada, correspondente ao segmento de conteúdo considerado unidade de base, que visa à categorização e a contagem frequencial e da unidade de contexto, que serve de unidade de compreensão para codificar a unidade de registro e corresponde ao segmento da mensagem cujas dimensões, que são superiores às da unidade de registro, são relevantes para que se alcance a compreensão das unidades de registro.
É relevante ressaltar que, segundo Bardin (2012), o critério de recorte da AC é sempre de ordem semântica, embora seja frequente a correspondência com unidades formais como, por exemplo, a palavra; palavra e tema; frase e unidade significante.
Nesta perspectiva, opta-se por identificar os temas constantes das entrevistas, porque sendo o discurso um ambiente natural para a manifestação das representações e das ideologias intui-se que os dois primeiros fenômenos poderiam ser melhor elucidados uma vez que fossem identificados os temas constantes das entrevistas que compunham o corpus desta pesquisa.
A procura pela identificação dos temas levou à identificação de uma estrutura discursiva recorrente na maior parte das entrevistas, que foi a história de vida, que se denominou como categoria recorrente nos referidos discursos.
Passar-se-á daqui em diante, a descrever os procedimentos a ser empregados para a geração e interpretação dos dados.
Sá (1998, p.81) defende que:
A rigor é difícil especificar qual é o método mais bem autorizado por cada uma das diferentes perspectivas complementares à grande teoria. Se quiséssemos insistir em uma apresentação esquemática e simplificada da questão diríamos o seguinte: à perspectiva de Jodelet correspondem os métodos ditos qualitativos; à perspectiva de Doise, os tratamentos estatísticos correlacionais; à de Abric, o método experimental. Mas embora essas preferências possam ser originalmente verdadeiras, observa-se hoje uma interpenetração entre elas.
Os dados ora apresentados são resultantes da transcrição das vinte entrevistas semiestruturadas, aplicadas a cada idosa por vez. As questões destas continham indagações sobre o nome completo da idosa, sua naturalidade, data de nascimento, estado civil, sobre o fato de ainda ter parentes, como e há quanto tempo veio morar na casa de repouso e a sua representação da velhice. Para corroborar o que se assumiu aqui passar-se-á à análise dos
temas que compuseram as entrevistas semiestruturadas com base na Análise de Conteúdo de Bardin (2012). Baseou-se em Bardin (2012), bem como em sugestões de Nascimento (2012), para observar os temas como elementos condensadores das representações sociais. Apreende- se que os temas cumprem tal papel.
Desse modo, focou-se inicialmente os temas e posteriormente buscou-se identificar, no item histórias de vida de cada um, os elementos dessas histórias que pudessem vir a contribuir para a constituição da RS da velhice para os sujeitos entrevistados, que foi denominado na pesquisa como perfil sociocultural de cada idosa. Além disso, buscou-se verificar também a ideologia subjacente às representações sociais da velhice construída pelo sujeito em questão. Para tanto, voltou-se a seus discursos a fim de se observar o que preceitua van Dijk (2003). Consecutivamente, centrou-se na síntese da representação social acerca da velhice, observando-lhe o campo representacional, a informação e a atitude em sua composição e por fim, se focalizou a representação social da velhice, atentando para a ideologia revelada nesse objeto de conhecimento.
Os perfis socioculturais apresentados contam, de forma resumida, a história de vida das idosas, elemento que também compõe a representação social da velhice, uma vez que a representação social é sempre um constructo cognitivo que está clivado pelos aspectos sociais e culturais inerentes ao ambiente social em que o sujeito está inserido, de acordo com Moscovici (2009).
Desse modo, expõe-se o perfil sociocultural dos sujeitos observando a ordem correspondente a da apresentação das entrevistas no capítulo 5, nos quadros adaptados para o atendimento dos objetivos desta pesquisa tomando como base os quadros sugeridos em Bardin (2012, p.100-103).
4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
Este capítulo centra-se no estudo das entrevistas transcritas, observando-lhes os aspectos relevantes para a construção da representação social de velhice por parte dos sujeitos desta pesquisa - idosas moradoras de uma casa de repouso. O procedimento que será aplicado consiste na exploração das entrevistas para a identificação dos temas mais frequentes nas falas das idosas a respeito da velhice, passando pela interpretação do surgimento e recorrência desses temas, a fim de que se possa chegar à representação da velhice por parte do grupo de sujeitos investigados.