A Psicoterapia Breve é designada Técnica Focal, já que se considera que o cerne dela é o trabalho em cima de um foco circunscrito, que pode levar a mudanças em várias áreas da personalidade do paciente.
Foco, então, pode ser entendido como ponto central do trabalho em que é utilizada a técnica de Psicoterapia Breve, intencionalmente a priorização dos aspectos diretamente relacionados com o objetivo do trabalho. (Lemgruber, 1984).
Nesta técnica, o foco é o objetivo central do terapeuta, é o que dá sustentação a todo processo de tratamento psicoterápico. Qualquer material que se distancie do objeto central do processo – foco – deverá ser desprezado, ainda que sinalize “a focalização da terapia breve é sua condição essencial de eficácia”. Via de regra, quando um paciente recorre a um trabalho de acompanhamento psicoterápico, é presumível que tenha uma queixa, o motivo da consulta, que muitas vezes se transforma no eixo do trabalho. (Enéas e Yoshida, 2004).
O próprio paciente é um facilitador na busca do delineamento do foco a ser utilizado como eixo no processo psicoterápico, posto que, desde que preservadas as funções do ego, o indivíduo é capaz de organizar seu discurso, de seguir uma linha de pensamento lógico, que certamente determinará a ação básica.
Segundo Fiorini (1978):
“a focalização parece expressar necessidades de delimitar a busca, de
modo a concentrar nela atenção, percepção, memória, todo um conjunto
de funções egóicas, levando a trabalhar sobre associações
intencionalmente guiadas” (p.90).
O terapeuta vai atuar tendo sempre em mente o foco que precisa ser trabalhado. Todo o trabalho é norteado por este foco, cabendo ao profissional discernimento para não se deixar envolver por colocações por parte do paciente que não estejam vinculadas ao foco, já que esta é a condição para que o trabalho seja eficaz.
Para Castro (1997), o estabelecimento do foco faz parte do contato terapêutico e quanto mais delimitado o foco, maior é a chance de sucesso da terapia.
Segundo Malan (1981), “a escolha do foco, que está relacionada à técnica, dependerá tanto da seleção (tipo de paciente ou problema considerado adequado) e o tipo de resultado considerado desejado ou revisto como possível” (p.46).
Este autor prossegue dentro da classificação da Psicoterapia Breve, referindo-se ao fato de que a “profundidade do foco dependerá tanto da profundidade do conflito nuclear quanto da possibilidade do próprio conflito nuclear (ou de somente partes ou derivados deste) ser considerado como foco” (p.46).
Por fim Malan (1981, 1976), propõe que seja realizado um diagnóstico, onde são incluídas entrevistas e testes psicológicos, com a finalidade de estabelecer uma hipótese psicodinâmica de base, onde é realizado o planejamento sobre o trabalho terapêutico, que ocorre através de interpretação, com tempo e objetivos delimitado. A hipótese psicodinâmica de base tem como idéia identificar o conflito primário, reeditado na problemática atual do paciente.
A terapia focal, da forma como é compreendida por Castro (1997), é aquela que delineia uma área específica. Esse é um dos aspectos que mais diferenciam a psicoterapia psicodinâmica breve da psicanálise.
“O foco é o conflito psicodinâmico relacionado à queixa. O
entrevistador, por meio das informações obtidas na avaliação, tenta
correlacionar o conflito atual com o conflito nuclear que está subjacente às dificuldades psicológicas. A partir disto, o entrevistador tem
possibilidade de delimitar a direção do processo terapêutico. O paciente
participa dessa escolha à medida que o avaliador evoca sua
concordância com o trabalho proposto. Quando o paciente mostra mais
de uma possibilidade de trabalho pede-se que opte por um tema, e esse será o foco da terapia” (in Segre, p.87).
Sifneos (1989), afirma que a questão da focalização em Terapia Breve é crucial para o desenvolvimento do processo, cita também que “há um consenso geral” de que conflitos edipianos não resolvidos, reações de luto e separação são em si focos que, quando bem trabalhados, dão origem aos melhores resultados terapêuticos. Nota- se que a técnica de Sifneos dirige-se essencialmente a conflitos edipianos.
Knobel (1986), faz uma boa referência ao conceito de foco:
“Foco ou conflito focal refere-se ao conflito da situação atual do
o que traz o paciente à consulta é o choque entre as dificuldades
inerentes a uma tarefa vital específica que ele deve enfrentar e o conflito
infantil não resolvido”. (p. 39).
Cabe, então, ao terapeuta estabelecer o foco, e, após isto, a duração presumível do tratamento e/ou os objetivos do processo terapêutico e trabalhar de forma ativa para atingi-los. Enfatiza-se a tríade da Psicoterapia Breve, qual seja, maior atividade do terapeuta, a focalização e o planejamento do tratamento, através do uso dos “Triângulos de Interpretação e do Conceito da E.E.C”. (Lemgruber, 1884).
O estabelecimento do foco faz parte do contrato terapêutico. Quanto mais delimitado o foco, maior a chance de sucesso na terapia. Foco, portanto, pode ser entendido como a área a ser trabalhada no processo terapêutico através de avaliação e planejamento prévios. (Lemgruber, 1884).
Para Ferraz, Dewelb e Hegenberg (1993), Gilliéron afirma que:
“além da limitação temporal, acrescentava às psicoterapias breves a
focalização, tratando-se de uma maneira de escolher um problema
psicológico central e ater-se apenas a ele. Para ele a Psicoterapia Breve
permite simplificar o tratamento e possibilita abreviá-lo. Considera que a
Psicoterapia Breve aplica-se a formas específicas de psicopatologia”
(p.70)
Gillierón prossegue propondo uma técnica que está muito próxima da Psicanálise clássica, ou seja, o paciente faz associações livres, tal como na psicanálise, e escolhe-se como foco as motivações que o trouxeram à consulta, o que implica em dizer que o foco é escolhido inconscientemente pelo próprio paciente.
Segundo os autores,
“a primeira tarefa é determinar a influência de um dado contexto
relacional sobre a crise que mobiliza o paciente a buscar tratamento, e a segunda, é de clarificar a maneira pela qual as mudanças psíquicas
podem ocorrer em uma relação psicoterapêutica, e é isto que diz
respeito à questão da interpretação” (p.70).
Gilliéron (1994), é o idealizador da “Técnica das Quatro Sessões” que, segundo ele, é uma inversão total na postura tradicional, tratando-se de uma investigação com finalidade terapêutica (p.08). Para Gilliéron “nas quatro sessões procura-se adaptar as possibilidades do terapeuta e do paciente. Marca-se a sessão a cada vez, esta é a técnica” (p.10).
Wolberg (1979), o menos teórico, porém o mais prático entre os autores, ao definir foco menciona que compete mais ou menos ao paciente escolher a área particular de seu problema que deve ser abordada. Freqüentemente, isto envolve a ”situação precipitadora de tensão”, cuja exploração pode aliviar a tensão e servir para que o indivíduo recupere equilíbrio adaptativo. Neste ponto, procede-se a uma tentativa para identificar a origem do distúrbio imediato e relaciona-la com o conflito subjetivo do paciente.
Ainda segundo Wolberg (1979),
“desenvolve-se um esforço para penetrar, pelo menos parcialmente, nos
conflitos desencadeados pela situação de tensão, tratando-os como
fontes autônomas de ansiedade, ainda que derivem e se correlacionem
com certos conflitos nucleares subjacentes e fixos. O material histórico
só é levado em conta quando se relaciona com os problemas correntes”
(p.153).
1.3 CRITÉRIOS DE INDICAÇÃO E CONTRA-INDICAÇÃO PARA PSICOTERAPIA BREVE
Os critérios de indicação de pacientes para uma psicoterapia de curta duração variam de acordo com os autores. Sifneos (1977), atém-se a critérios rigorosamente psicanalíticos e aceita apenas pacientes cujos problemas são edipianos. Trata-se de pacientes evoluídos, com ego estruturado.
Os critérios adotados por Malan (1976), baseiam-se, sobretudo, na demanda do paciente e na possibilidade de focalizar o tratamento em uma “hipótese psicodinâmica básica”, passível de explicar a maior parte das dificuldades.
As indicações para Psicoterapia Breve, segundo Gilliéron (1994), são relativas, no sentido de dependerem do desejo do paciente e da técnica do terapeuta. As contra-indicações são vistas por este autor como absolutas, por estarem estreitamente ligadas à questão da “motivação” dos pacientes. Refere-se à distinção entre dois tipos de pacientes: aqueles cujas motivações são progressivas, eu buscam uma verdadeira mudança; e aqueles que apresentam motivações regressivas, que buscam uma compensação para suas dificuldades.
Para Braier (1981), todas as pessoas podem se beneficiar com a proposta de atendimento em Psicoterapia Breve. Para este autor, a psicoterapia de tempo e objetivos limitados, em alguns casos, satisfaz, ao menos, a necessidade assistencial.
Recomenda, no entanto, que os casos indicados para Psicoterapia Breve apresentem condições de ter insight e ego estruturado.
Segundo Braier (1981), a contra-indicação para Psicoterapia Breve destina- se aos casos crônicos de psicose, enfermidades psicossomáticas, psicopatias, perversões toxicomanias e os estados fronteiriços.
Para Enéas e Yoshida (2004), os critérios de indicação e contra-indicação, vinculam-se à utilização variável de técnicas suportivas e expressivas. Para Luborsky & Mark (1991), as técnicas suportivas são utilizadas para pacientes mais comprometidos e as expressivas são utilizadas mais continuamente para pacientes que apresentam organização egóica.
Estes autores contra-indicam a Psicoterapia Breve para pacientes psicóticos e com organização de personalidade de tipo borderline, assim como para pacientes com dificuldade para tolerar a dependência e separação, principalmente quando esta dificuldade aparece como tendência ao suicídio.
Para Szajnbok (1997), no caso da Psicoterapia Breve, as contra-indicações delinearam-se antes das indicações, já que nem todos os pacientes que demandam psicoterapia podem se beneficiar da técnica da psicoterapia focal. Para esta autora são contra-indicados os quadros psicóticos, distúrbios graves de personalidade, baixa capacidade de abstração e risco de suicídio.
Neste contexto, a autora indica um grupo bastante amplo para Psicoterapia Breve, sobretudo os casos de estrutura neurótica. Uma proposta mais minuciosa destes quadros inclui pacientes com potencial de tolerância à angústia, boa capacidade de abstração e capacidade para auto-reflexão em termos psicológicos, capacidade de estabelecer aliança terapêutica em curto prazo, motivação para mudança e com razoável estrutura egóica.