Pretende-se, neste subcapítulo, identificar e definir uma tipologia de ralações possíveis entre os PLTQT e o território, tendo por base a realidade do Território do Geopark Naturtejo, mais precisamente os seis concelhos que o compõem, citando-se sempre que oportuno alguns casos mais característicos e exemplificativos desta região.
No que se refere à relação produto/território, e com base num estudo efectuado na região Andaluza, os autores Albert e Muñoz, identificam os “distritos industriais”, as “zonas marginais” (zonas desfavorecidas), os “sectores específicos” e “valorização autóctone de produtos genéricos”, como as quatro possíveis correspondências desse binómio.
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Procura-se assim estabelecer uma analogia entre o modelo desenvolvido por estes autores e o território/produtos estudados nesta investigação em concreto.
2.10.1.Os PLTQT e os distritos industriais
Na perspectiva dos autores, os distritos industriais baseiam-se em zonas onde pequenas e micro empresas desenvolvem as suas actividades em torno de um determinado sector económico, e que devem obedecer a determinados requisitos, nomeadamente, divisão do processo de produção para que se alcance a especialização das empresas, a existência de espírito empreendedor com a participação de empresários (ex: jovens agricultores), aceitação do desenvolvimento tecnológico, captação de população e aprendizagem colectiva, flexibilidade do trabalho com a aceitação do part-time, solidariedade entre os membros da comunidade e predominância de instituições adequadas. (Albert, P. et Muñoz, A., 1996, p. 65)
Nesse sentido, alguns economistas italianos e franceses adaptaram o conceito referido anteriormente aos produtos agro-industriais, surgindo assim o conceito de “distritos agro- industriais”, que equivale a dizer, uma localidade ou zona geográfica especializada na produção de um produto deste género, apontando como exemplo disso a região da Toscana (Parmigiano- Reggiano) e a sua produção de derivados de carne de porco ibérico. (Lacoponi,1990 et Fanfani,1991 citados por Albert, P. et Muñoz, A., 1996, p. 65)
Em Portugal, a título de exemplo, este conceito vê-se repercutido na região demarcada de Vinho do Porto, visto se cumprirem todos os requisitos apontados anteriormente no que se refere aos distritos industriais, onde por um lado, é claro uma intensa especialização de algumas empresas do sector vitivinícola e o faseamento do próprio processo produtivo (produção de uva, produção de vinho, envelhecimento, engarrafamento, promoção, distribuição e venda), ao mesmo tempo que se desenvolvem indústrias anexas (vidro, rolhas, etc.). Por outro lado existe uma tradição empresarial de proveniência inglesa, existe mão-de-obra especializada no processo produtivo (enólogos, produtores, etc.) e uma mão-de-obra de cariz popular que trabalha em equipa e alvo de aprendizagem colectiva e geracional.
Esta região de Portugal vê-se assim abraçada à existência de grandes empresas, de carácter tecnológico, responsáveis por enormes volumes de produção comercializados através de uma distribuição moderna ao nível global, sendo este o único requisito que poderia por em dúvida tanto o conceito de “produto típico” como o de “distrito agro-industrial”.
Na zona do Geopark Naturtejo não podendo igualmente identificar nenhum distrito agro- industrial, pode referir-se como exemplo, o concelho de Proença-a-Nova, mais precisamente a zona do pinhal (Oleiros) e a sua produção de outro tipo de bebidas alcoólicas, nomeadamente, a aguardente de medronho, que em muitos casos possui os requisitos de PLTQT, mas que não cumpre os anteriormente referidos, pois mesmo que esta represente algum impacto económico na região e que tenha algum património histórico associado (museus, antigas destilarias, etc.), estão ausentes actividades complementares, instituições de apoio, pessoal especializado, e em alguns casos, certificação, licenciamento e normalização.
Assim, o cumprimento da pluralidade destes requisitos potenciará o desenvolvimento económico dessa região, bem como a promoção de mercados externos, e uma diminuição nos
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custos de transacção. (Coase,1937 et Williamson, 1995, citados por Albert, P. et Muñoz, A., 1996, p. 65)
2.10.2.Os PLTQT e as regiões desfavorecidas
Pode considerar-se pelos autores supracitados, como regiões desfavorecidas, aquelas onde mesmo existindo produção de produtos agro-alimentares típicos, estes não se mostram competitivos quando comparados com os seus congéneres provenientes de outras zonas, visto nestas últimas as condições de solo e clima serem de superior qualidade. (Albert, P. et Muñoz, A., 1996, p. 65)
É comummente aceite, por vários autores, nomeadamente Henchion, M. et McIntyre, B., que este desfavorecimento leva ao abandono dos campos, à desertificação populacional do meio rural, ao que as autoridades políticas tentam combater este fenómeno, com planos de desenvolvimento rural que frequentemente se centram no turismo rural e em actividades desportivas. Podendo, igualmente, utilizar a produção e comércio de PLTQT como uma estratégia para suportar e fixar a agricultura em zonas desfavorecidas, como se descreverá mais adiante neste estudo. (Henchion, M. et McIntyre, B.,2000, p.20)
Este é o caso do território do Geopark Naturtejo, que desde uns anos para cá, tem vindo a constatar um desenvolvimento significativo ao nível do Turismo Rural, conforme dados fornecidos pela entidade responsável - Naturtejo, bem como o aumento da oferta de PLTQT, tal como progressos significativos na fileira do azeite, do queijo, do mel, das compotas, dos enchidos, da doçaria regional, entre outros.
Nessa mesma perspectiva, o poder público desta região específica, incrementa de certo modo a venda local de produtos com estas características, nomeadamente com o aparecimento de lagares que vendem ao público, o surgimento de associações agro-pecuárias com maior poder negocial, a constituição de cooperativas de queijo e carne onde se associam os vários produtores.
Pode afirma-se que um dos canais de distribuição frequentemente utilizado, no caso do território estudado, é o da venda local, inclusive no próprio local de produção, em comércios locais e em pontos de venda especializados, como é o caso de muitos produtores locais de azeite, borrego, e outros de produtos que não sendo típicos, e apenas genéricos apresentam atractivos de carácter natural, ecológico, provenientes de explorações onde é praticada agricultura integrada ou biológica e de natureza sustentável.
2.10.3.Os PLTQT e os sectores específicos
Neste subcapítulo, de acordo com Albert et Muñoz, podem ser incluídos os PLTQT que constituem a base de um determinado sector especializado, numa zona específica, mas que não chegam a alcançar um peso significativo na actividade económica dessa mesma região. (Albert, P. et Muñoz, A., 1996, p. 69)
Neste contexto, pode afirmar-se que um dos produtos mais típicos no território do Geopark Naturtejo, é o queijo aí produzido e comercializado, nas variedades de ovelha, de cabra e de mistura, também conhecido por queijo amarelo da beira baixa, que é apoiado por uma DOP, e que cuja produção se encontra localizada numa zona geográfica concreta.
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Outro dos produtos típicos característicos desta zona geográfica é o azeite, nas variedades galega, cordovil e bical, produzido com matéria-prima (azeitonas) local e com um processo especifico de produção, em muitos dos casos biológico e de produção integrada, que mesmo produzido noutras regiões de Portugal, quer a nível industrial como doméstico (“caseiro”), as características deste são bem conhecidas pelos seus actuais e/ou potenciais consumidores.
Por outro lado tem-se a ressalvar que esta mesma zona geográfica produz uma percentagem algo significativa da produção nacional, que se comercializa em todo o pais e que inclusive se exporta. Neste caso a tipicidade é apoiada também pela quota de mercado da produção da zona da beira baixa.
Assim à luz do modelo desenvolvido por Albert et Muñoz, pode afirmar-se que estamos perante um “quase-distrito agro-industrial”, tendo por base, que a matéria-prima é da zona em questão e tanto a elaboração desta como a dos produtos transformados apresenta características específicas e especiais.
2.10.4.Valorização autóctone de produtos genéricos
A definição deste grupo, segundo o modelo seguido e o autor Blundel, R., é feita com base num determinado número de produtos existentes no mercado mas que provêm de diversas regiões, não apenas de uma região específica e por isso, são considerados como “produtos genéricos”, num mercado onde a procura é realizada sem os consumidores terem em conta o local de proveniência. (Blundel, R.,2002, p.15)
O mesmo modelo, distingue “produtos tradicionais de produção” e os “produtos introduzidos actualmente”. Em relação aos primeiros, são referidos como exemplo os azeites virgens, os produtos silvestres, também chamados de “frutos do bosque”, as plantas aromáticas e outros como cogumelos (tortulhos, míscaros, etc.), trufas (criadilhas), pinhões e espargos, que uma vez industrializados, isto é, cultivados, perdem grande parte das suas características, tornando-se simplesmente homogéneos, mas se pelo contrário se mantiverem numa produção de carácter silvestre e tradicional apresentam características similares aos já referidos produtos típicos.
Como exemplos do segundo grupo, os autores Henchion, M. et McIntyre, B., consideram uma lista de produtos hortofrutícolas de produção tradicional ou de introdução recente que apresentam na sua essência características de produtos genéricos com muito pouco de típicos, mas com certas particularidades, nomeadamente época de produção, preços e quota de mercado entre outros factores. (Henchion, M. et McIntyre, B.,2000, p.22)
Face ao exposto, facilmente é estabelecido o paralelismo com a zona do território do Geopark Naturtejo, conselho de Idanha-a-Nova, pois é fácil encontrar queijo e azeite com características de PLTQT, bem como produtos silvestres entre os quais os cogumelos, tortulhos, criadilhas espargos, entre outros, de recolha de cariz artesanal.
Fazendo o mesmo tipo de analogia temos a melancia, especialmente da zona do Ladoeiro (concelho de Idanha-a-Nova), como exemplo de um produto recentemente introduzido e com uma quota de mercado bastante significativa, época de cultivo, e que adquirem algum grau de tipicidade com a venda no local, aos visitantes da localidade (muitas vezes à face da estrada, feiras temáticas, etc.)