Uma das assunções que faço neste trabalho é que não há projeção de número envolvida nas estruturas sintáticas que fazem referência direta à espécie. Essa assunção não é uma adoção imotivada da proposta de Borik e Espinal (2015). Assumo a proposta das autoras porque elas foram as primeiras a afirmar explicitamente que o número não está presente na estrutura sintática de uma expressão de referência à espécie. Esta ideia, porém, mutatis mutandis, já está presente na proposta por Schmitt e Munn (op. cit) e também em Pires de Oliveira e Rothstein (2011). Schmitt e Munn (op. cit) propõem que o singular nu é neutro para número, isto é, ele pode selecionar ou não o número na estrutura sintática. Já Pires de Oliveira e Rothstein (2011) propõem que o singular nu é como o nome de massa no PB. Nesse sentido, ainda que as autoras não tenham discutido a questão, pode-se inferir que não haja número envolvido na denotação do singular nu, uma vez que nomes massivos não são, em essência, nem singulares, nem plurais.
É importante destacar, contudo, que de acordo com Acquaviva (2017), a categoria de número apresenta ao menos três dimensões: uma morfológica, outra morfossintática e ainda uma última semântica. A dimensão morfológica tem a ver com um conjunto de oposições formais correspondendo a interpretações alternativas, isto é, a forma morfológica como cada língua manifesta informações como singular, plural,
dual, trial, paucal etc.. Já a dimensão morfossintática tem a ver com um conjunto de valores que definem padrões de concordância distintos, ou seja, tem a ver com o encadeamento de estruturas que dispara a concordância de número nos elementos da sentença. Por fim, a dimensão semântica tem a ver com o inventário de interpretações que temos associadas às expressões marcadas morfologicamente para número nas línguas naturais.
A pergunta que imediatamente surge, a partir destas considerações, é: qual dimensão do número não está presente na estrutura sintática do singular nu? Certamente, não é a dimensão semântica, visto que somos capazes de atribuir uma interpretação ao singular nu quanto à sua numerosidade, isto é, podemos afirmar que sua leitura é atômica ou não-atômica, se há a presença de átomos ou apenas somas mereológicas, etc.
O mesmo não se pode dizer em relação à concordância, dado que o singular nu não dispara concordância de número com a sua anáfora, como exemplificado em (62), a seguir:
(62) Cachorroi vê o mundo de outra maneira, porque ∅i/elei/elesi enxerga(m)
tudo em preto e branco.
A retomada anafórica do singular nu em (62) é autorizada tanto por um pronome singular, quanto por um pronome plural ou ainda por um pronome nulo. Este comportamento revela que muito provavelmente é a dimensão morfossintática do número que está ausente quando se afirma que não há número na estrutura sintática do singular nu, precisamente porque o singular nu não dispara concordância na sua anáfora. Já no que diz respeito à dimensão morfológica, é possível afirmar que ocorre a sua expressão. O PB, em relação à morfologia de número, apresenta apenas a distinção entre singular (marcado pelo morfema zero) e plural (marcado pelo morfema ‘-s’). Na sentença (62), acima, pode-se assumir que embora a expressão ‘cachorro’ não apresente uma interpretação de singular, ela é marcada pela morfologia de singular do PB, que se manifesta via morfema zero.
A ideia que defendo neste trabalho, é que não há número morfossintático na estrutura das expressões que se referem à espécie no PB. Defendo, em consonância com Borik e Espinal (2015), que apenas sintagmas nominais sem projeção de número podem se referir diretamente à espécie.
A proposta de Cyrino e Espinal (2015) para o PB sustenta (embora não diretamente, porque a questão foge ao escopo do trabalho) que o plural nu não pode ter leitura de referência à espécie. Como, porém, as autoras assumem a proposta de Borik e Espinal (2015), seria razoável inferir que para elas, o plural nu não denota a espécie porque tem morfologia de número e, segundo essa mesma teoria, a morfologia de número é incompatível com a denotação de espécie. Borik e Espinal (2015) argumentam que um definido plural do espanhol até pode receber uma leitura genérica. Essa leitura, porém, não diz respeito à referência à espécie, mas sim a uma leitura de subespécie ou a uma leitura de indivíduos instanciando a espécie. Nesse sentido, parece sensato dizer que para Cyrino e Espinal (2015) o plural nu denota muito mais uma soma de indivíduos instanciando a espécie do que a espécie propriamente dita. Isso pode ser confirmado com a interpretação de ‘tipos distintos de’ ou ‘alguns’ que o plural nu dispara, conforme se observa nas sentenças (63) e (64), a seguir:
(63) Baleias estão em extinção. [A baleia franca, por exemplo, não a jubarte]
(64) Santa Catarina é o maior produtor de [distintos tipos de] aves do país.
Já nas propostas de Schmitt e Munn (op. cit) e Pires de Oliveira e Rothstein (2011), os autores consideram o plural nu como uma expressão que faz referência direta à espécie, dado que tem um comportamento muito semelhante ao plural nu do inglês. Pires de Oliveira e Rothstein (2011) adaptam a proposta de Krifka (2004), para quem o plural nu é gerado como um predicado de expressões denotando conjunto de indivíduos, a um conjunto de indivíduos indexados contextualmente. Nesse sentido, como no inglês, o plural nu poderia sofrer uma operação de type-shifting tanto com operador ∃, para uma leitura existencial, como com o operador ∩ para uma leitura de espécie. Assim, o plural nu seria ambíguo entre uma leitura de espécie e uma leitura existencial. Voltarei a essa questão envolvendo o plural nu em seguida. Por ora, quero retornar à questão da categoria sintática das expressões que fazem referência à espécie.
Na esteira da proposta tradicional de Longobardi (2004), assumo que a estrutura sintática de um DP é aquela proposta em (61), a seguir, acrescida da projeção
de número68, aqui retomada como (65). Assim, a estruturas em (65) e (65’) se
aplicariam, em princípio, ao definido referencial (definido singular), ao definido plural e ao indefinido singular.
(65) [DP D [NumP Num [NP]]
(65’)
Já como estrutura sintática do definido genérico, com referência à espécie, como propôs Borik e Espinal (2015) para o espanhol, assumo a estrutura (66) e (66’), abaixo: um DP sem a projeção de número.
(66) [DP [D’ D NP]]
(66’)
Por fim, quanto à estrutura sintática do singular nu, assumindo a proposta de Chierchia (1998) e a de Pires de Oliveira e Rothstein (2010), temos que o singular nu, na verdade seria um NP que sofre um processo de mudança de tipo semântico (type-
shifting), o que o autoriza a ocupar uma posição argumental no PB.
Não há, portanto, projeção de número dentro do NP, dado que o locus de número no PB é o DP. Em não havendo a camada D, não há como sustentar a presença do número na sua estrutura sintática. Nesse sentido, parece sensato admitir não há espaço para a neutralidade de número tal como proposta por Schmitt e Munn (2002), precisamente por não haver número na denotação do singular nu. Também se admitido que a noção de quantidade (um único ou muitos) é incompatível com a noção de referência à espécie, parece plausível admitir que a categoria morfossintática de número não se faz necessária na estrutura sintática dos nomes de referência à espécie, isto é, não parece sensato dizer que a espécie ‘cachorro’ é singular ou plural.
68 Na verdade, não excluo que entre D e N possam existir outros núcleos funcionais além de NumP. A
questão aqui é que a categoria de Num é relevante para a distinção entre a referência à espécie e a referência a outros tipos de indivíduos.
Com essa assunção, porém, teríamos um problema em explicar como o plural nu denota a espécie no PB, dado que é uma construção que claramente envolve morfologia de número. Dedico a esse problema, a próxima seção.