4. COMMENTAIRE SYSTEMATIQUE
4.4. Article 2
de deus
Marcos vinício de Santana Pereira
introdução
Este artigo originou-se de observações realizadas em igrejas evan- gélicas durante minha pesquisa de mestrado1 intitulada “Eu e mi-
nha casa serviremos ao Senhor em Salvador: ações e estratégias de ascensão social de famílias batistas”. Naquele período, meu objetivo era uma análise sobre famílias-membros de uma igreja batista que ascenderam economicamente em um bairro popular de Salvador com o uso do capital religioso adquirido. No intercurso da pesquisa de campo, entretanto, visitei outras igrejas evangélicas com o propósito de estabelecer um quadro comparativo com o culto batista tradicional. Àquela altura, já considerava que muitos com- 1 Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do estado do Piauí (FAPePi) pelo
apoio financeiro nos dois primeiros anos de doutorado. realizei o mestrado em Ciências Sociais entre 2001-2004 na Universidade Federal da Bahia (UFBA), através do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPgCS).
ponentes doutrinários e ritualísticos dessa denominação passavam por uma crise de referência institucional, proveniente do inevitável intercâmbio regular de seus membros com outros segmentos evan- gélicos, principalmente de coloração pentecostal.
Com o objetivo de compreender melhor aquele momento de cri- se institucional da igreja batista realizei rápidas incursões de campo em templos pentecostais, especialmente os das Assembleias de Deus (ADs). Entre estes, o que me chamou mais a atenção era a densa par- ticipação feminina na ministração de cultos, principalmente entre aqueles considerados mais “avivados”, caracterizados pela realiza- ção de curas e milagres, além de experiências de transe e exorcismo. Essas mulheres se atribuem ou, quando não, são denominadas pelos fiéis, “missionárias”, e usufruem de autoridade e prestígio entre pú- blicos de diferentes denominações. Concluí, então, que as missioná- rias são lideranças femininas das ADs que ministram cultos regular- mente em suas igrejas locais. Estes são realizados em dias de semana, geralmente às manhãs e tardes, e possuem, a depender da estrutura espacial do templo, uma concorrida presença de públicos oriundos de diferentes ordens religiosas — inclusive católicas. A ministração das missionárias segue uma ordem no culto, marcados por cânticos e testemunhos, além do momento solene das revelações proféticas. A prédica ou o sermão é feito através de sonoros gritos que se mistu- ram aos transes de revelação e glossolalia, exorcismos e curas.
As missionárias2 das ADs são aquelas que ministram o culto
“da benção”, da “oração”, “dos milagres”.3 Elas se caracterizam pela
posse de determinados dons, o dom de “falar em línguas” (a glosso- 2 O oposto “missionário”, entretanto, não é um ofício comum nas igrejas locais
– a não ser quando um pastor é designado para realizar missões evangelísti- cas fora do país, mas, geralmente seu título pastoral permanece como primeiro elemento de identificação.
3 expressões muito corriqueiras entre os pentecostais. Alguns membros o cha- mam de “fogo”, “poder” e “das maravilhas”. entre aqueles que mantêm uma oposição ao culto pentecostal são comuns expressões jocosas como “culto do reteté”, da “canela de fogo”, das “profetadas.
lalia), a profecia e a cura. Elas têm o poder de prever o futuro, diag- nosticar doenças, denunciar adultérios, ou seja, de revelar o misté- rio através da profecia. Os cultos das missionárias diferem do culto dominical da instituição, geralmente mais formal e doutrinário. Neste, a preponderância masculina é expressa pela presença indis- pensável do pastor, que conduz o culto ladeado pelos presbíteros e diá- conos (e suas respectivas esposas) no coração da nave da igreja — área do tablado ou do púlpito — estabelecendo o símbolo da hegemo- nia masculina no templo. Mesmo com os gritos sonoros que ecoam do auditório e do enérgico sermão, o pastor mantém uma dinâmi- ca bem calculada, a qual dificilmente excede a ordem da programa- ção do dia. O culto dominical expõe o signo da tradição centenária das ADs, marcado por antigos cânticos do hinário da instituição e uma programação rigorosamente solene e, portanto, pouco infor- mal, ainda que a atmosfera pentecostal enseje um forte emocionalis- mo expresso em orações, gritas e acentuadas exclamações amplifica- das pela potência do gerador de som.
Os dois cultos das ADs levaram-me a encaminhar um proje- to em 2011 de doutoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia (PPGA/UFBA), com o objetivo de compreender as relações de gênero que emergem das práticas e rituais empreendidos pelos membros dessa denomi- nação. Em particular, refletir o esforço e mobilização de mulheres na constituição de serviços religiosos no interior dos templos, os quais conferem visibilidade e empoderamento feminino na igreja local.
O texto a seguir é resultado de uma sondagem inicial realiza- da em alguns templos das ADs da cidade de Salvador e Porto Ale- gre nos anos de 2012 e 2013, com o objetivo de observar os cultos de ministração feminina dirigidos por missionárias. Na ocasião, busquei identificar além daquelas ministras que já eram conhecidas pelo público evangélico em geral, outras mulheres das ADs com as mesmas atribuições, as quais atendem a uma rede não muito am- pliada de frequentadores no interior de modestos templos — espaços
adaptados de antigas lojas, galpões e garagens — localizados em ave- nidas e bairros.
Proponho, também, algumas reflexões preliminares acerca dos cultos dessas religiosas das ADs, mas, apenas considerando as per- cepções que emergem sobre doença e cura no culto em ação. A ideia parte do princípio de que o culto em seu desenrolamento vai revelar um conjunto de movimentos, discursos, gestos e sinais corporais que são acionados para expelir uma doença, um demônio ou ministrar uma benção. As ministrações de cura e os diagnósticos de doenças através da revelação profética são manifestos não somente a partir da mensagem, a pregação ou prédica, emitida a partir do púlpito, mas por uma rede de movimentos corporais, incluindo as performances que emanam das palavras articuladas na interação com o público du- rante a ritualização do culto.